Crítica: Socorro! traz Sam Raimi em uma aventura gore
Chegando às plataformas digitais, Socorro! é menos o terrir de costume do diretor e mais uma crítica sangrenta ao mundo corporativo
Aos seguidores da carreira de Sam Raimi: é importante que se diga que Socorro! está mais para uma aventura com tons gore do que para o terror que o diretor sempre entregou com maestria. O que não torna o filme, que acaba de chegar às plataformas digitais, menos interessante.
Primeiro por trazer aqueles personagens no limiar do caricato, mas sempre no tom certo de carisma ou detestável na medida. Depois por nos colocar em uma situação curiosa. Socorro! faz tudo certo onde Triângulo da Tristeza escorrega. Naquele filme, quando o barco afunda e a ordem das classes se inverte, a mudança de direção vai se tornando cada vez mais sem energia e repetitiva.
Aqui não: quando a funcionária vivida por Rachel McAdams se torna indispensável para a sobrevivência do chefe defendido pelo ator Dylan O’Brien, as coisas vão se tornando mais interessantes passo a passo.

Primeiro porque a plateia é fisgada da melhor maneira possível. Rachel vive aquela situação que muitos já passaram: ela é boa no que faz, mas não se encaixa na vontade do chefe para ser promovida. Aí um almofadinha qualquer toma o cargo dela. E como Raimi filma de forma odiosa esses tipos pegajosos corporativos.
Logo, um jato que leva todos eles em viagem despenca em alto-mar e o personagem de O’Brien só sobrevive por dois motivos: sorte e a perícia sobrevivencialista da empregada. Numa ilha isolada, eles passam a conviver em um tipo de pirâmide invertida.
Claro, isso é basicamente o primeiro ato do longa, e uma série de eventos vai nos guiar por pouco mais de 1h50min de maluquices e sangue que Sam Raimi tanto ama.
Se o terror em si pode fazer falta para quem tem uma visão única do estilo do cineasta, aqui e ali ele pode satisfazer essa necessidade do público. A sequência do javali, por exemplo, tem aqueles ultrajes que só o diretor sabe fazer. Da mesma forma que a cena do rato — você saberá ao assistir — demonstra que as coisas podem escalar de maneira até inesperada.
Humor, claro, está salpicado em toda a produção, que conta com mais uma das atuações versáteis de Rachel McAdams. Ela é a dona do filme, mas seguida de perto por Dylan O’Brien, um ator que já deveria ter o respeito de qualquer plateia — ele está acima da média desde o adolescente Maze Runner.
Se a mão pesada serve muito bem para criar absurdos estilísticos, Socorro! sofre com a mesma falta de sutileza em alguns aspectos, como demonstrar demais a aptidão sobrevivencialista da protagonista antes mesmo do necessário e por introduzir uma surpresa extrema ao final da produção. Claro, isso não vai estragar o programa, só que força um pouco a sua crença naquilo tudo.
Vinícius Lemos é jornalista e repórter da TV Paranaíba
*Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Paranaíba Mais