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Crítica: “O Morro dos Ventos Uivantes” é uma fanfic

As aspas do título da adaptação "O Morro dos Ventos Uivantes" dizem muito a respeito da carreira da cineasta Emerald Fennell

, em Uberlândia

As aspas do título da adaptação de “O Morro dos Ventos Uivantes” dizem muito a respeito da carreira de Emerald Fennell. A roteirista e diretora já havia feito algo parecido com Saltburn, que apenas não assumiu ser uma espécie de fanfic de O Talentoso Ripley, de Patricia Highsmith. O fato é que a cineasta acabou desagradando muita gente desta vez. Mas não tanto a mim. O que foi uma surpresa.

Com expectativas baixas, cheguei à adaptação. A primeira impressão agradável foi a riqueza visual de “O Morro dos Ventos Uivantes“, principalmente no desenho de produção. Em uma mistura de gótico com expressionismo alemão, os cenários são de uma beleza absurda, com um toque de cor chapada que confere vivacidade interessante a um filme sombrio em tom, mesmo quando é romântico.

“O Morro dos Ventos Uivantes” está disponível no HBO Max – Crédito: Divulgação/Warner Bros. Pictures

Há ainda os figurinos, que podem até não acrescentar muito aos personagens, mas têm uma plasticidade anacrônica que chama a atenção.

O meu problema com o longa-metragem está nas viradas de seu roteiro, também assinado por Fennell. Ela até constrói bem as relações entre os personagens, mas, sempre que a narrativa entra em um novo ato, as coisas se tornam extremamente desajeitadas.

Se existe uma maldade intrínseca em todos os personagens, quando eles dão vazão a isso ou retornam a um estado anterior, como consequência de seus atos, a mudança de tom coincide com as viradas da trama. Mas isso não é feito de forma natural – são pessoas que mudam de chave como ninguém faria. Se fossem três capítulos de uma série, talvez esses blocos soltos não evidenciassem tanto o problema.

Talvez por isso o desfecho, tão forte, perca certa credibilidade quando pensamos em alguns absurdos perpetrados por aquelas pessoas e em como elas se apresentam naquele momento, principalmente Heathcliff.

Gosto também do fato de o longa não ter medo de demonstrar tesão, mesmo sem cenas explícitas como no trabalho anterior da cineasta. Ainda que eu não seja o maior fã do trabalho de Jacob Elordi, ele não compromete a experiência, enquanto Margot Robbie capricha na ambiguidade. Mas o grande destaque aqui é Alison Oliver, como uma mulher de mentalidade infantil.

Sobre Emerald, uma coisa que se deve dizer é que, por bem ou por mal, ela segue seus próprios instintos. Seu melhor trabalho, Bela Vingança, tinha um desfecho bastante ruim, mas, até chegar a ele, é um filme que quebra muitas expectativas. Saltburn pode não ser original, mas é uma produção provocadora.

Agora que está disponível em streaming, “O Morro dos Ventos Uivantes” pode ser uma surpresa positiva para mais gente, ainda que com ressalvas.

Vinícius Lemos é jornalista e repórter da TV Paranaíba

*Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Paranaíba Mais