Crítica: A ironia trabalhista de A Única Saída e seu banimento do Oscar
O filme de Park Chan-wook é uma refilmagem de O Corte, dirigido por Costa-Gavras, e por si só A Única Saída é um grande desafio cumprido com maestria
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É sempre bom você sintonizar suas expectativas quando pega um filme sul-coreano. Por mais pesada que seja a temática, é comum que venha junto um tipo de humor muito característico. A Única Saída, que está disponível em streaming, mergulha sua crítica social na comédia enquanto esbanja estilização. E já me adianto: está aqui a produção que deveria ter estado no Oscar, indicada ao prêmio de Filme Internacional.
O filme de Park Chan-wook é uma refilmagem de O Corte (2005), dirigido por Costa-Gavras. Por si só, a tarefa já não era das mais fáceis, mas o sul-coreano coloca assinatura aqui.

Começando quase como uma dessas novelas afetadas, Man-su (Lee Byung-hun) faz um churrasco com a família em seu quintal, banhado por uma bela luz e com folhagens caindo como em um conto. Ele está na casa ampla na qual viveu quando era garoto e que conseguiu comprar graças a uma boa colocação no trabalho. A cena vai culminar em um abraço familiar terno, no qual o protagonista sente e expressa sua completude.
Pode ser meio piegas, mas é sincero, ainda que contenha grande ironia. A enguia cara que ele ganhou e resolveu preparar para esposa e filhos, na verdade, é um tipo de compensação pela demissão que o atingiu junto de boa parte de seus colegas de trabalho — em uma reestruturação da firma do ramo de papel.
O que se seguirá é a humilhação na tentativa de recolocação no mercado e um plano maligno de eliminação de concorrentes para uma empresa do setor que busca um novo gerente.
Gosto muito da estilização da montagem de A Única Saída, com suas sobreposições, fragmentação da trama e até pelos cortes que, por vezes, parecem acontecer segundos antes ou depois do que realmente deveriam. A fotografia é colorida, quase como em um conto, mas repare nas bordas de prédios e montanhas ao fundo. Há uma distorção — e isso quer dizer que algo não está certo.
Mas é preciso entender que a comédia aqui é desconfortável e até pastelona. Por isso que, no primeiro alvo de Man-su, existe um desajeito incrível, e a situação do protagonista parece piorar.
Confesso que foi aos poucos que A Única Saída me agradou. Era eu me sintonizando com o tom do filme.
E, em termos de ironia, é das mais finas e cruéis percebermos que todo o esforço do trabalhador é para se recolocar no segmento da celulose, que tem se retraído. Não é à toa que existe um corte na empresa de Man-su e que haja apenas uma empresa em expansão — justamente aquela que automatiza ao limite seus processos — e ainda assim se torna a joia para aqueles trabalhadores.
A cena que mostra uma pessoa feliz em meio a robôs é o retrato do operário que adapta até seu discurso para manter um pingo de dignidade fora dali.
O filme fora do Oscar
Ainda sobre o Oscar 2026, A Única Saída me parece ter ficado de fora por outra ironia sindical. Park Chan-wook se tornou persona non grata do Writers Guild of America.
Durante a greve da WGA de 2023, roteiristas sindicalizados estavam proibidos de realizar qualquer tipo de trabalho de escrita para produções de estúdios. Park trabalhou na série da HBO The Sympathizer ao lado de Don McKellar. Segundo o sindicato, esse trabalho ocorreu durante a greve, o que violaria as regras do movimento. Por isso, em 2025, a WGA tomou a decisão de expulsar Park.
Ele disse, contudo, que montava a série sem alterar o roteiro, ou seja, estaria em uma atividade diferente do que motivava a paralisação.
Sendo assim, mesmo que A Única Saída tenha recebido promoção para concorrer ao Oscar, a questão sindical fez com que ele fosse ignorado.
Uma pena, porque o longa não só merecia atenção como se trata de um filme mais bem resolvido que Sirât ou Foi Apenas um Acidente.
Vinícius Lemos é jornalista e repórter da TV Paranaíba
*Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Paranaíba Mais