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Crítica: Foi Apenas um Acidente é importante mesmo não sendo um grande filme

Repetitivo e com intenção maior que suas possibilidades, Foi Apenas um Acidente tem início curioso e conclusão muito boa, mas é preciso paciência com seu desenvolvimento

, em Uberlândia

Sim, Foi Apenas um Acidente tem uma grande importância apenas por existir. É resistência e denúncia vindas de um diretor — Jafar Panahi — condenado pelo regime iraniano. Só que, convenhamos, não se trata de um grande filme quando analisamos estritamente a obra indicada ao Oscar de Filme Internacional e de Roteiro Original.

Repetitivo e com uma intenção maior que suas possibilidades, o longa-metragem tem um início curioso e uma conclusão muito boa, mas é preciso certa paciência para que passemos por seu desenvolvimento.

A trama é iniciada com uma família com problemas no carro depois de atropelar um cachorro. O roteiro é inteligente ao nos aproximar do homem, de sua esposa e de sua filha, para, minutos depois, quebrar nossa expectativa.

Longa é denúncia, mas testa paciência – Créditos: Divulgação/Neon

O patriarca no veículo é reconhecido pelo real protagonista do filme como o seu torturador quando esteve preso por insurgência contra o regime do Irã. O problema é que esse reconhecimento se dá pelo ranger de uma prótese na perna do homem, afinal, o agressor nunca revelou seu rosto. Enquanto a vítima tenta ter certeza da identidade do homem, Foi Apenas um Acidente amplia seu elenco com diversas pessoas que também seriam vítimas do criminoso, só que apenas uma delas tem certeza de quem é o homem.

Panahi teria se baseado em relatos reais para criar seus personagens, mas o fato é que a mensagem que ele quer passar já se estabelece na segunda pessoa consultada. Ainda assim, outros se juntarão ao grupo, que roda pelas ruas de Teerã em uma van durante dois terços da narrativa inchada.

Os embates no campo das ideias, por vezes, são até bons, mas falta imagem à obra. Sim, imagem. Se aqui e ali o grupo é confrontado por oportunistas que pedem propina ao flagrarem o transporte suspeito, quando as vítimas relatam determinadas situações, Foi Apenas um Acidente nunca sai dos diálogos para mostrar o que se passou e se restringe ao falatório. E como falam…

Se economizasse esses diálogos, talvez não fosse tão cansativo ver tantos embates com pequenas variações entre as vítimas, que nunca concordam sobre o que fazer com o suspeito de violência.

Há ainda uma decisão completamente implausível tomada pelo roteiro no terço final do filme, que se impõe como puro argumento de que, apesar do que estão fazendo, as vítimas não se igualam ao torturador. Como se a relutância delas já não fosse suficiente para entendermos que nunca estariam em um nível tão baixo.

O fato é que Foi Apenas um Acidente melhora muito quando decide rumar ao encerramento — e suas duas passagens finais são ótimas. O pequeno elenco em cena, inclusive, demonstra que havia gente demais naquela van para chegar onde o roteiro queria. Ponto para Mariam Afshari, que tem a grande entrega em cena.

Fora que a cena final, com apenas uma pessoa de costas e um som ao fundo, não poderia ser mais eloquente.

Vinícius Lemos é jornalista e repórter da TV Paranaíba

*Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Paranaíba Mais