O menino que enxergava mais longe; conheça essa história
A história do menino que entrou no consultório para enxergar melhor o mundo e me fez sair dali enxergando melhor a vida.
Estavam ali, os dois, tão próximos que pareciam um só corpo. A postura dela — um abrigo silencioso, como quem protege sem precisar tocar. Timidez de quem espera. Uma cadeira vazia ao lado, e eu ali também, emprestando aquele canto para gravar um trecho de roteiro, sugestão de uma colega que enxergou poesia onde havia só espera de consultório.
Dei boa tarde. Pedi licença. Ela, com a delicadeza de quem já viveu muitas gentilezas, abriu espaço sem hesitar.
A gravação durou pouco. O encontro, não quis durar tão pouco assim.

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Fiquei. E descobri, aos poucos, que ela era professora — algo que seu português, lapidado e bonito, já denunciava antes de qualquer apresentação. Ele, o menino ao lado, tinha o cumprimento fácil e a curiosidade inteira da infância: perguntou se eu ia aparecer na TV. Sorri e disse que não, que aquilo era para a internet — um outro tipo de tela, um outro tipo de mundo.
Foi quando ela me reconheceu, e a distância entre estranhos virou conversa. Perguntei o que os trazia ali.
E ele, com a voz de quem já aprendeu a nomear suas próprias dificuldades, respondeu: “Na escola eu não estou enxergando muito bem. Na frente, incomoda. Lá no fundo, eu consigo estudar.” Havia medo na frase — um medinho pequeno, quase invisível — mas havia, sobretudo, coragem. Coragem grande demais para um corpo tão novo.
Ele quis saber da minha profissão. Contei o essencial. Ele, generoso, devolveu em histórias: a escola, a ONG onde ajuda, um jeito de ser que atravessa qualquer pré-adolescência com uma leveza rara — desse carisma que não se ensina, só se tem.
Me despedi e segui gravando outros cantos da clínica. Quando voltei, ele saía do consultório como quem sai de uma boa notícia: a vista estava uma beleza, disse, e o médico havia mandado — “pode estudar bastante” — como quem entrega uma permissão para sonhar mais alto.
Saímos juntos para a rua. Ele com a mãe e a avó; eu com meus companheiros de trabalho. Enquanto esperavam o transporte, fiquei ali mais um pouco, tentando entender aquela família tão simples e tão inteira, capaz de acolher até a minha vontade de ficar por perto.
Não sei dizer o que me tocou mais fundo: se foi a cena, ou se foi ele — o menino e seu jeito de acenar, sua ausência total de medo ao contar quem é, mesmo sendo, ainda, apenas o começo de tudo.
Fui para casa carregando aquele encontro como quem carrega uma luz pequena. E fui agradecendo — pedindo que ele possa enxergar, cada vez mais nítido, um horizonte feito de saúde, de futuro, e, acima de tudo, de dignidade.
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