Mônica Cunha

Conteúdos sobre bem-estar e estilo de vida com informações confiáveis, embasadas cientificamente e com orientações de especialistas

O aguaceiro que não vem do céu

O desperdício que vem do descaso

, em Uberlândia

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Aguaceiro
Foto: Produção IA

Existe uma expressão tão mineira, tão clássica de quem nasce entre serras e montanhas: ‘não tô dando conta’. E é exatamente assim que me sinto diante do que vi agora há pouco — mais uma cena entre tantas.

Alguém abre a torneira, estica a mangueira e deixa a água correr pelo paralelepípedo, até o meio da rua. Lava a parede, lava o cimento, como se a água fosse um bem infinito. Todos os dias, seja feriado ou uma baita segunda-feira, meus olhos captam o mesmo hábito.

Em plena seca, no fim de um inverno tipicamente seco, ver folhas e poeira é o natural da vida. O absurdo é passar por um aguaceiro que não vem do céu, mas da ignorância — de quem finge que essa água ainda vai durar para sempre, para limpar, abastecer, e quem sabe, aliviar as próprias dores.

Quando eu era menina, assistia a Os Jetsons. A família do futuro tinha a tecnologia a seu favor, naves espaciais, praticidade. A gente esperava que o futuro trouxesse essa facilidade, mas também a alegria do progresso.

O futuro chegou. Mas há uma profunda tristeza em perceber que ele veio acompanhado de tanto desrespeito, tanto descaso e da coragem de dar de ombros e dizer: ‘não tô nem aí, eu tô pagando’.

E lá, no meio da rua, a água continua correndo. Sozinha. Como se ninguém tivesse ouvido nada.