Mônica Cunha

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O café, o pano de prato e a saudade

Há vinte e seis anos o dia dos pais é marcado por uma saudade que só aumenta

, em Uberlândia

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Saudade eterna – Foto: Arquivo pessoal

Hoje fiz café.
Sentiu o aroma daí?

Outro dia sonhei com você. Eu me sentia perdida, estava em um lugar desconhecido, com medo, e pedi para você me buscar. Só em pedir, já me senti bem melhor. Como se o soprar na ferida — como o senhor sempre fez quando a gente levava um tombo — me fizesse entender que sarar iria.

É mais um Dia dos Pais. E eu fico pensando, principalmente agora em que sua primogênita se aproxima das seis décadas de vida, como seria se estivéssemos juntos no dia de hoje. O que o senhor me diria a respeito do que construí desde sua partida até aqui? Não foi muito, porém é um tanto, sempre norteada pelo seu amor e sua força, abraçada ainda por toda a ternura, resiliência e o otimismo da mamãe.

Eu sempre penso em como seria acompanhar os seus cabelos brancos; com certeza o senhor teria alguns. Outro dia me lembrei do senhor na porta do Armazém Tupaciguara, menino de shorts e camisa, com aquele objeto para engraxar os sapatos — o senhor que, tão novo, teve que enfrentar a ausência do seu próprio pai, cuidar da mãe viúva e fazer parte do laço de esforço dos irmãos.

Se estivesse aqui, faria um churrasco, porque sei o quanto o senhor gostava, e separaria um pano de prato só para que pudesse colocá-lo no ombro. Mas fica aqui o rastro do seu cheiro, a lembrança da sua prosa e a certeza de que, por mais que o tempo passe, a gente nunca deixa de ser aquela menina de colo.