Mônica Cunha

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O vazio cheio de vida

Uma pausa silenciosa no meio da cidade vira um convite para desacelerar e enxergar a vida

, em Uberlândia

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O vazio cheio de vida
Foto: Arquivo pessoal

Eu admiro quem para pra ver o nada e acaba enxergando a vida.

Eu voltava do almoço carregando comigo uma dor de cabeça devastadora.

Na tentativa de amenizar a crise de enxaqueca que me acometeu, bastando um simples baixar de cabeça para martelar, procurei a sombra de uma árvore em um bairro próximo ao trabalho.

Impressionante como, apesar de ser um lugar tranquilo e de eu estar bem em frente a uma reserva, o barulho teimava em me perseguir.

Carros e motos cada vez mais barulhentos, pessoas passando com conversas em um volume quase ensurdecedor… Ou talvez fosse só a minha cabeça, já no limite absoluto do suportável.

Eu precisava voltar ao trabalho, e foi nesse retorno que o percebi.

Em um terreno baldio, em frente a uma pequena lanchonete, um homem estava sentado em uma cadeira, olhando para o que eu julguei ser o “nada”.

Era uma da tarde. Ele simplesmente parou.

Não sei se era aposentado, se estava no intervalo do trabalho ou se era o dono do estabelecimento. Só sei que estava completamente entregue ao ócio.

O que havia à sua frente, como numa tela de cinema, não consegui decifrar de imediato. Mas sei que ele enxergava algo ali: entre as árvores, na secura típica de agosto, no caminhar dos pedestres… Ou, simplesmente, ele descansava.

Descansava os olhos, a cabeça, o corpo, sem se importar com a pressa inevitável de uma sexta-feira à tarde.

A gente não para. É por isso que a cabeça dói, a pressão sobe e o estresse se espalha feito praga na lavoura.

Isso cansa. Fico me perguntando quando é que vamos aprender a resgatar essa pausa.

Lembro de quando era menina e as pessoas sentavam na calçada em cadeiras de fio plástico — que, apesar de parecerem desconfortáveis, abraçavam o corpo. Na rua onde eu morava, os vizinhos se reuniam nesses tambores e cadeiras para conversar, ao menos até a hora do jantar.

Era um tempo aproveitado. Um tempo sentido. E hoje? Hoje a gente corre tanto que não sente nada. Absolutamente nada.

Aquele homem no terreno baldio não estava perdendo tempo; estava devolvendo a si mesmo o direito de existir sem pressa.

No fundo, a enxaqueca que eu tentava esconder talvez não fosse apenas uma dor física, mas o corpo gritando por socorro diante de um mundo barulhento demais.

Olhei para ele uma última vez antes de seguir. Ele não tinha nada nas mãos, mas parecia carregar uma paz que dinheiro nenhum compra.

De volta à mesa de trabalho, entendi que o verdadeiro luxo destes tempos modernos não é ter tudo — é saber, de vez em quando, sentar na calçada da vida e ter a coragem de não fazer nada.