Mônica Cunha

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O bom dia que não volta

Quando um simples “bom dia” deixa de existir, uma flor feita à mão devolve a esperança na humanidade

, em Uberlândia

Bom dia
Foto: Mônica Cunha

 

Aprendi com meus pais e meus avós, na simplicidade e no pouco estudo que tiveram, que o cumprimento a uma pessoa cabe na chegada e cabe também na saída. É a educação que se oferece por meio de um bom dia, boa tarde, boa noite, ou simplesmente um olá. A reciprocidade é o que torna esse gesto real.

Muitas vezes dizemos bom dia e, do outro lado, temos a impressão de estar diante de pessoas vivas-mortas.

Consegue me entender? Por mais que não haja barulho, por mais que a pessoa esteja concentrada, não é possível que aquele órgão feito para escutar não perceba o som emitido pelas cordas vocais de quem chega. Não existe língua na boca que exija tamanha inteligência para responder a um cumprimento. E confesso: isso me irrita profundamente. Preciso aprender a ressignificar essa irritação, porque é muita energia gasta com quem não sabe o valor de um comportamento simples e agradável.

Não sou perfeita, ninguém é — acredito nisso. Mas, em pelo menos 99% dos casos, procuro sempre oferecer o que me ensinaram: reforçar a educação e a polidez nos vários ambientes por onde passamos, sejamos convidados ou trabalhadores. Procuro manter a espinha ereta, como se diz por aí, mesmo em tempos de século XXI, quase 2030, em que já não tenho paciência para dizer bom dia e não ser retribuída. É o fim da picada.

Por outro lado, há quem traga para o dia a delicadeza gratuita. E essa delicadeza me foi oferecida — não só a mim, mas a qualquer um que buscasse o banheiro, seja por necessidade, seja por refúgio. Fui lavar as mãos e me surpreendi: ali, rente à parede, sobre a pia, havia uma flor feita à mão por quem tem como função limpar um ambiente onde a sujeira se acumula. No primeiro dia, uma rosa. No dia seguinte, algo que me lembrou uma azaleia. Hoje, uma calêndula.

Formas simples de dizer: eu sei que você existe, e isso importa para mim.