Antes de ir pra academia, uma pausa de amor
Como um tchau de poucas palavras no portão de casa virou abrigo para o coração
Na manhã de segunda-feira, com as gotas de chuva penduradas no pé de café e na árvore de carambola — espremida no meu pequeno jardim —, presenciei um dos espetáculos mais bonitos do ano.
Eu estava saindo de casa, ainda com aquela preguiça boa, a caminho da academia. Foi quando o Ronaldo me alertou:
— A sua mãe está no portão. Parece que ela pediu pra gente voltar, vamos ver o que é.

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Demos ré e paramos ali, no meio da rua tranquila onde vivemos. Ela estava lá: de camiseta, o cabelo — por incrível que pareça — perfeitamente penteado mesmo depois de uma noite inteira de sono, e um sorriso largo estampado no rosto e nos olhos.
Perguntei, preocupada:
— Tá tudo bem, mãe? A senhora tá precisando de alguma coisa?
Dona Ivone só acenou com a mão, suave, e disse:
— Não, minha filha. Eu só vim dar tchau. Quero que vocês vão com Deus, pra onde quer que vocês forem.
Aquilo doeu no meu coração. Mas foi uma dor de amor, bem diferente daquela dor áspera que o mundo nos causa todos os dias quando cruzamos a porta de casa. Foi a dor pura da emoção e da gratidão.
Ali mesmo — entre o lixo acumulado no chão, as árvores decepadas pela cidade e o barulho ensurdecedor das motos cortando a rua —, eu agradeci pela vida da minha mãe. Pela simplicidade bonita, pela sabedoria miúda e por ela ter essa capacidade (sem nem sequer imaginar) de me resgatar deste século XXI, pra onde olho tanto e tão pouco vejo de bom.
E olha como Deus é atento aos detalhes: bem agora, Ele acabou de jogar um facho de luz em um dos galhos da caramboleira, criando um contraste lindo entre o escuro da sombra e o verde-claro da folha molhada. Não foi coincidência. Nunca é acaso.
Toda vez que passo em frente à casa da minha mãe, ou o portão já está aberto ou se abre logo em seguida. Mas, naquela segunda-feira, Deus quis que ela estivesse ali no portão exatamente porque o meu coração precisava disso. Ele estava em frangalhos, ansioso, e ela me devolveu a esperança em um segundo.
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Nesse exato instante em que escrevo, uma pombinha pousa aqui no jardim. É da minha janela que enxergo como a vida poderia ser mais simples. E é pro colo da minha mãe que eu sempre vou correr. Farei de tudo para que a saúde dela esteja sempre guardada — por mais difícil que seja cuidar de quem amamos neste nosso país.
Continue acompanhando a minha coluna no portal Paranaíba Mais e nos vemos em um próximo encontro.