O brilho que o tempo não apaga
Às vezes, a memória volta pelas mãos de quem amamos - numa medalha antiga, num gesto que resgata a esperança esmaecida
Já era tarde. Pouca gente no estacionamento, mais um dia de aula. Não sei se pelo calor ou pela reta final da semana, mas o dia tinha pesado. Eu cheguei empolgada para rever a turma e acompanhar a aula, em que o professor falaria sobre memória — aquela que a gente constrói com as experiências da vida, com os momentos e com as pessoas que nos marcam.
Mas a atenção nos foi roubada por conversas paralelas de quem não estava a fim do conteúdo. O tom subiu, o incômodo cresceu e, mesmo após pedidos de gentileza para que o silêncio voltasse, o estrago já estava feito. Fui embora só com o que sobrou.
Em casa, depois de desabafar com meu marido sobre a indignação do dia, fui olhar o celular. Havia um recado de Dona Ivone: duas mensagens gravadas e duas fotos. Abri as imagens primeiro e, só depois, escutei o áudio.
E foi aí que a pureza da minha mãe me parou.

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Ela tinha encontrado uma relíquia guardada no fundo do armário: a Medalha Milagrosa com a imagem da Mãe de Jesus, que pertencia ao meu avô Irani.
A medalha trazia marcas dos anos, o escurecer natural da prata, a poeira do tempo. E na beleza da sua simplicidade, minha mãe não buscou nada elaborado: pegou um tubo de pasta de dente, um pano e esfregou a medalha, paciente e delicadamente, até que o brilho antigo voltasse a aparecer.
Depois, passou a medalha por um cordãozinho simples e contou que faria exatamente o que o pai dela fazia: pendurar o colar improvisado na cabeceira da cama, para pedir proteção, acolhimento e um alívio para a dor no joelho.
Ao ouvir a voz dela explicando aquele gesto tão puro, entendi tudo. Minha mãe, sem saber, estava refazendo a memória com as próprias mãos. Ela veio para resgatar a minha esperança no exato momento em que eu me sentia no limite, quase soltando o galho fino no precipício.
Ela não me salvou apenas do cansaço daquele dia ruim; me resgatou do próprio desacreditar.
Para resgatar um pouco mais da esperança por aí também, continue acompanhando a minha coluna no portal Paranaíba Mais e nos vemos em um próximo encontro.