Mônica Cunha

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A Virtude que Mora no “Uai”

Tentar diminuir alguém pelo seu sotaque é demonstrar um vazio que nenhum cargo ou título preenche

, em Uberlândia

Passei pela porta que ele gentilmente abriu para mim. Eu estava carregada: um cabide com roupa, uma mala pequena, uma mochila pesada. Ele, com a presteza que nos é peculiar, logo sentenciou: “Deixa eu te ajudar com essa trenheira”.

Para quem nasce nas Minas Gerais, essa palavra faz todo o sentido. Para quem é de fora, causa estranheza. Mas basta um dedo de prosa para a simpatia virar imediata e o entendimento se fazer! O mineiro tem o aconchego na fala; a gente diminui as palavras só para o amor caber nelas. É o jeito de afagar uma dor ou encurtar uma distância.

Dizem que a gente “come” o final das palavras. Pode até ser. Muitas vezes não conjugamos o verbo com o rigor, mas sobra atitude e virtude em cada “r” ou “s” que a gente esquece pelo caminho. É uma fala honesta. É o compromisso, por exemplo, de devolver o que não nos pertence. Porque se o “trem” não é nosso, é “dosoto”. E o que é dos outros, para nós, é sagrado.

Para esses “outros”, aliás, sempre temos:

– Um docinho para saborear;
– Um cantinho para pousar;
– E um cafezim para oferecer.

O nosso “uai” é multifuncional: serve para a indignação, para a afirmação ou apenas para deixar a prosa mais encantada. Há quem confunda nossa pureza com ingenuidade, mas se engana quem tenta tripudiar. O sotaque mineiro é manso, mas é firme.

Tentar diminuir alguém pelo seu sotaque é demonstrar um vazio que nenhum cargo ou título preenche. Afinal, a elegância real não está na norma culta dita com arrogância, mas na capacidade de acolher o outro com um “chega pra cá”.

Por isso, quando alguém debocha do nosso jeito, a gente nem se exalta. Só lamenta por quem não conhece a delícia de simplificar a vida. A gente segue aqui: com a conta paga, o café no bule e esse ‘casadim’ de pão de queijo com goiabada que nenhum dicionário — e nenhum ministro — consegue traduzir. E, como a gente diz por aqui: faz favor de num mexe com a gente não!