Mônica Cunha

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A porta azul de Ivone: onde o tempo aprende a não roubar o entusiasmo

Neste Dia das Mães, Mônica Cunha traz uma crônica sobre cuidado e resiliência na pequena casa de dona Ivone

, em Uberlândia

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Um dia antes, ela me reclamou da dor no joelho esquerdo. Estava meio tristonha, com um cansaço nos olhos verdes. Em silêncio, eu pensei no que poderia fazer para ajudar a diminuir aquele desconforto. Fiz o que estava ao meu alcance naquele momento: um afago, algumas palavras de conforto. Saí de lá, tarde da noite, pedindo ao Espírito Santo que, com suas asas, pudesse abraçar aquela dor para que ela pudesse dormir bem.

Mônica Cunha e Dona Ivone
Crédito: Arquivo Pessoal

No outro dia, pela manhã, fui até lá. Abri o portão, subi os degraus e abri a porta azul. Ivone estava no quarto, terminando de arrumar a gaveta da mesinha de cabeceira. Com o coração na mão, queria saber como ela estava, mas fui surpreendida antes mesmo que ela pudesse dizer algo. A face estava revigorada, o ânimo espalhado por todo o corpo e um sorriso de quem “virou a chave” para ressignificar as próprias dores. O amadurecer de dona Ivone tem sido esse equilíbrio entre lidar com o peso da idade e o desgaste que o tempo traz, mas também com novas descobertas.

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Quase saltitante, ela me contou que acordou cedo e tomou uma decisão: não ia mais deixar a dor lhe roubar o entusiasmo pela vida. Por isso, levantou logo cedo, tomou seu banho, perfumou-se, passou pano na pequena casa e cuidou das plantas — aliás, o vaso com a jiboia cresce de forma exuberante. No enumerar das tarefas, foi me dizendo que a cozinha estava ainda mais impecável. Eu admiro muito esse cuidado que ela tem; se você chegar para tomar um café com ela, vai encontrar tudo muito bem arrumado: panos de prato decorando o forro de chita, o fogão de duas bocas limpo, a pia seca e, agora, o novo morador sobre a geladeira — um pinguim que ganhei há muitos anos e que dá uma graça ainda maior ao seu lar.

Naquele momento, eu aprendi com essa senhora de 85 anos a celebrar a autonomia, apesar da adversidade. Aprendi sobre a capacidade de fazer o que é possível, na medida do possível. Tenho muito orgulho da mãe que tenho. Ela me ensina a todo momento. E é por isso que, neste Dia das Mães, é com ela que eu quero estar: para saborear o frango assado e o nhoque que ela pediu, e para lhe entregar a cafeteira que ela tanto queria ganhar.