A Coragem da Face Limpa
Rosto limpo: a armadura de quem não tem nada a esconder

Foi durante uma pausa nos estudos, um breve respiro para a mente descansar antes de voltar às questões da prova de Processos Psicológicos, que a tela do celular me trouxe a atriz e jornalista Carolina Ferraz. Ela estava ali, de cara limpa. Um rosto perfeito para a maturidade que lhe cabe.
Mas bastou que ela começasse a falar para que algo antigo e profundo reverberasse em mim. Uma indignação imediata. Raiva — por que não dar o nome correto a esse sentimento tão legítimo que nos habita? Uma revolta diante daquilo que, de tão comum, a gente simplesmente não aceita mais.
Eu não consigo entender de onde vem essa implicância crônica com o envelhecer feminino. Qual é o problema de uma mulher carregar no rosto as marcas que ela cuida, sim, mas não apaga? Marcas que são a sua própria história escrita na pele. Qual é o motivo do incômodo com a falta do colágeno, com a ausência do viço artificial, ou com o fato de ela querer apenas prender o cabelo e não ser escrava da maquiagem da hora em que acorda à hora em que vai dormir?
Qual é o problema de vocês, meus caros?
Porque precisamos dar nome aos bois: esse questionamento cruel sobre a nossa velhice vem, na esmagadora maioria, deles. Nós, mulheres, enfrentamos de peito aberto a menopausa e tudo o que ela traz — com seus abalos, suas transformações e suas renascenças. Caímos, levantamos e sempre procuramos melhorar, cuidar da saúde, evoluir com o tempo.
Enquanto isso, os mesmos homens que acusam as mulheres de envelhecer e debocham da nossa maturidade são, tantas vezes, os mesmos que negligenciam a própria existência. Estão ali, acima do peso, com os exames de saúde todos ruins, arrastando uma vida sem cuidados. E, principalmente, são incapazes de assumir a própria vulnerabilidade: o declínio do vigor, a falta de desejo que já não vai mais lá para cima. Como não dão conta de bancar a própria fragilidade diante do espelho, projetam na mulher o seu maior pavor.
Há um sadismo velado, um sarcasmo miúdo em tentar, a todo custo, empurrar a mulher para um lugar de invisibilidade que não lhe pertence. É triste perceber que boa parte dos homens não consegue enxergar a beleza de uma mulher de 40, 50, 60, 70 anos ou mais. Talvez porque sejam covardes demais para olhar para a própria feiura interna e para a própria falta de sensibilidade.
É inadmissível que, em um século onde avançamos tanto em tecnologia e inovação, a mentalidade humana ainda rasteje no machismo e na pobreza de espírito. Falta-les empatia de gênero, de sexo, de humanidade.
O que eles não entendem é que o tempo passa para todos, mas a dignidade de sustentá-lo na pele é para poucas. É preciso dizer em alto e bom som: só as corajosas envelhecem. Só quem tem uma força descomunal tem a coragem de pôr a cara a tapa, de peito aberto e rosto limpo, diante do mundo. E essa coragem, meus caros, colágeno nenhum no mundo é capaz de comprar.