As baleias quase sumiram dos mares, mas deram a volta por cima; entenda
A moratória internacional contra a caça comercial, aprovada há 44 anos, permitiu a recuperação das baleias-jubarte, que hoje voltam a cruzar o litoral brasileiro em números recordes
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Há pouco mais de quatro décadas, uma decisão internacional mudou o destino de espécies que estavam à beira da extinção. A moratória que interrompeu a caça comercial de baleias em grande parte do mundo permitiu a recuperação de populações em diferentes oceanos e ajudou a transformar o Brasil em um dos principais exemplos desse processo. Celebrado em 23 de julho, o Dia Internacional das Baleias e dos Golfinhos marca a aprovação da medida pela Comissão Baleeira Internacional (CBI).
A decisão foi aprovada em 23 de julho de 1982 e entrou em vigor na temporada 1985/1986, proibindo a captura comercial de grandes baleias. Desde então, diversas espécies passaram a apresentar sinais de recuperação. No Brasil, a população de baleias-jubarte que visita o litoral cresceu de cerca de 2 mil indivíduos, em 1986, para aproximadamente 35 mil, segundo o Instituto Baleia Jubarte (IBJ).
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Imagens: marcelo_click / drone adventures br
Milhões de baleias foram abatidas antes da proibição
A caça às baleias existe há séculos, mas ganhou escala industrial entre os séculos XIX e XX com o avanço de tecnologias como navios-fábrica e canhões-arpão.
Estima-se que mais de 2,9 milhões de baleias tenham sido abatidas entre 1900 e 1999. Espécies como a baleia-azul, a baleia-franca, a baleia-fin e a baleia-jubarte sofreram quedas acentuadas em suas populações.
A preocupação com esse declínio levou 15 países, em 1946, a assinarem a Convenção Internacional para a Regulação da Atividade Baleeira, que criou a Comissão Baleeira Internacional (CBI). Apesar da iniciativa, as cotas de captura adotadas nas décadas seguintes não impediram a redução das populações.
A votação que mudou a conservação das baleias
Após anos de pressão de cientistas, governos e organizações ambientalistas, como o Greenpeace, a Comissão Baleeira Internacional aprovou, em 23 de julho de 1982, uma moratória sobre a caça comercial de grandes baleias.
A proposta, apresentada pelas Seychelles, recebeu 25 votos favoráveis, sete contrários e cinco abstenções, alcançando a maioria qualificada exigida. Com a entrada em vigor da medida, na temporada 1985/1986, a cota para a captura comercial passou a ser zero, permitindo o início da recuperação de diversas espécies.
Brasil se tornou referência na recuperação das jubartes
O Brasil está entre os principais exemplos dos efeitos da moratória. Antes da proibição da caça comercial, as baleias-jubarte que utilizam o litoral brasileiro para reprodução estavam reduzidas a poucos milhares de indivíduos.
Atualmente, cerca de 35 mil animais passam todos os anos pela costa brasileira durante a migração reprodutiva, segundo o Instituto Baleia Jubarte. O número representa um crescimento de aproximadamente 27 vezes em relação à década de 1980.
Entre junho e novembro, elas percorrem mais de 4 mil quilômetros, deixando as águas da Antártica em direção ao litoral brasileiro para acasalar, dar à luz e cuidar dos filhotes. As principais áreas de concentração ficam no Banco dos Abrolhos, entre Bahia e Espírito Santo, além de trechos do litoral do Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina. Desde 1987, a caça de cetáceos é proibida no Brasil.
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Turismo e conservação caminham juntos
A recuperação das populações também impulsionou o turismo de observação de baleias em diversas cidades do litoral brasileiro. Locais como Abrolhos, Arraial do Cabo e a Baía de Guanabara passaram a receber visitantes interessados em acompanhar a migração das jubartes.
Recentemente, imagens registradas por um drone mostraram quatro baleias-jubarte nadando nas águas da Praia Grande, em Arraial do Cabo (RJ), fazendo jus a presença dos animais na região durante a temporada.
Ameaças persistem apesar da recuperação
Embora a moratória tenha reduzido o risco de extinção de diversas espécies, as baleias ainda enfrentam ameaças provocadas pela atividade humana.
Entre os principais riscos estão:
- acidentes com embarcações;
- emalhamento em redes de pesca;
- poluição por plásticos;
- poluição sonora nos oceanos;
- mudanças climáticas.
Além de sua importância para a biodiversidade, as baleias contribuem para o funcionamento dos ecossistemas marinhos. Ao mergulharem e retornarem à superfície, transportam nutrientes, favorecem o desenvolvimento do fitoplâncton e ajudam no ciclo natural de captura de carbono, processo que também contribui para a regulação do clima.