Baleia-jubarte reaparece na Austrália após sair da Bahia há 22 anos

Animal percorreu mais de 15 mil quilômetros entre o Brasil e a Austrália, no que pode ser o maior deslocamento já registrado para a espécie

, em Uberlândia

Uma baleia-jubarte percorreu mais de 15 mil km entre o litoral da Bahia e a costa da Austrália, no que pode ser a maior distância já registrada entre avistamentos da espécie. O animal foi identificado no Banco de Abrolhos, na Bahia, em 2003, e reapareceu 22 anos depois em Hervey Bay, no estado australiano de Queensland. O caso foi detalhado em estudo publicado na revista científica Royal Society Open Science.

A distância estimada entre os dois pontos é de cerca de 15.100 km, superando em aproximadamente 15% o recorde anterior conhecido para baleias-jubarte.

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Baleia-jubarte identificada no Banco de Abrolhos, na Bahia, em 2003 reapareceu 22 anos depois na costa da Austrália – Créditos: Reprodução/Projeto baleia

Travessia inédita entre oceanos

Segundo o estudo, este é o primeiro registro de intercâmbio em ambas as direções entre populações reprodutivas de jubartes do Atlântico Sul e do Pacífico Sul. Os pesquisadores afirmam que esse tipo de deslocamento é raro. Em mais de quatro décadas de registros analisados, apenas dois casos semelhantes foram identificados.

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Mapa mostra o trajeto estimado da baleia-jubarte entre o litoral da Bahia e Hervey Bay, na Austrália – Créditos: Reprodução/R Soc Open Sci

Além da baleia observada entre Bahia e Austrália, os cientistas localizaram outro animal fotografado em Hervey Bay, em 2007 e 2013, e avistado posteriormente no litoral de São Paulo. Nesse caso, o trajeto estimado foi de cerca de 14.200 quilômetros.

Como a baleia-jubarte foi identificada

A identificação ocorreu por meio da plataforma internacional Happywhale, que reúne fotografias enviadas por pesquisadores e cidadãos de diferentes países.

O sistema utiliza imagens da parte inferior da cauda das baleias, considerada uma espécie de “impressão digital” dos animais. Cada jubarte possui padrões únicos de pigmentação, cicatrizes e formato das nadadeiras.

Com auxílio de inteligência artificial, o algoritmo compara milhares de registros para encontrar correspondências entre fotografias feitas em diferentes regiões do planeta.

Mais de 19 mil imagens analisadas

Os cientistas analisaram 19.283 fotografias registradas entre 1984 e 2025 na América Latina e no leste da Austrália.

Mesmo com o amplo banco de dados, apenas duas baleias apresentaram deslocamentos entre os dois continentes. O número representa cerca de 0,01% dos indivíduos identificados no estudo.

Segundo os autores, os intervalos de seis e 22 anos entre os avistamentos indicam que esses movimentos não fazem parte de uma migração regular.

“Esses parecem ser eventos raros, possivelmente únicos na vida”, escreveram os pesquisadores.

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Trajeto exato ainda é desconhecido

Apesar do recorde, os cientistas afirmam que ainda não sabem qual rota as baleias percorreram. A distância divulgada considera uma linha reta entre Brasil e Austrália, mas os animais podem ter viajado por trajetos ainda maiores ao longo dos oceanos.

Tradicionalmente, as baleias-jubarte australianas migram entre áreas de alimentação próximas da Antártida e regiões de reprodução perto da Grande Barreira de Corais, em um percurso anual de cerca de 10 mil quilômetros de ida e volta.

Mudanças climáticas podem explicar deslocamentos

Os pesquisadores levantam a hipótese de que as mudanças climáticas estejam alterando o comportamento migratório das jubartes.

Estudo aponta intercâmbio inédito entre populações de baleias-jubarte do Atlântico Sul e do Pacífico Sul após avistamentos no Brasil e na Austrália – Crédito: Reprodução/Redes Sociais

Uma das possibilidades é a redistribuição do krill, principal alimento da espécie, nas águas da Antártida. Isso pode modificar as rotas tradicionais e ampliar o contato entre populações de diferentes oceanos.

Outro fator citado no estudo é o crescimento da população de baleias após o fim da caça comercial em larga escala, o que pode favorecer encontros entre grupos antes isolados.