Os bastidores da televisão: Confira a história da TV Paranaíba em Uberlândia
Hoje relembramos o pioneirismo, apresentamos os bastidores e celebramos as conquistas da TV Paranaíba desde 1978, em Uberlândia
Cada um de nós tem uma memória especial vivida na frente da televisão. Uma final de campeonato, um programa especial, uma reportagem que marcou ou uma cena de novela, o fato, é que essa tela que já contou tantas histórias, também faz parte da história dos brasileiros.
Houve um tempo em que a televisão ocupava o centro da sala e ditava a hora de receber as notícias. Reuniu famílias diante da mesma tela, anunciou conquistas, mostrou tragédias, aproximou cidades e transformou histórias locais em acontecimentos compartilhados por milhares de pessoas.
O Portal Paranaíba Mais percorre quase cinco décadas para contar parte da trajetória da TV Paranaíba, inaugurada em 1978, em Uberlândia. Uma história que atravessa torres iluminadas, câmeras de quase 15 quilos, fitas disputadas contra o relógio, improvisos ao vivo e diferentes gerações de profissionais.
A tecnologia mudou a forma de produzir, transmitir e consumir informação. A televisão também mudou com ela. Entre equipamentos analógicos, transmissões digitais, celulares e redes sociais, um desafio atravessou gerações sem mudar de essência: informar com proximidade, apuração e credibilidade.

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Dia da Televisão Brasileira: uma história que começou em cores
A televisão comercial começou a operar no Brasil em 18 de setembro de 1950, com a inauguração da TV Tupi, em São Paulo. Naquele momento, havia poucos aparelhos no país. Para apresentar a novidade à população, televisores foram instalados em vitrines, restaurantes e saguões de hotéis.
Em Uberlândia, a primeira emissora surgiu em 1964, com a TV Triângulo. Pouco mais de uma década depois, outro projeto começou a ganhar forma. Em 1975, Ary de Castro Santos decidiu investir na criação de uma nova televisão.

A TV Paranaíba foi inaugurada em 28 de junho de 1978, durante a Copa do Mundo disputada na Argentina.
A chegada despertou curiosidade antes mesmo de a primeira imagem aparecer. Segundo o jornalista Magoo, que trabalhou por mais de quatro décadas no Grupo Paranaíba, Ary mandava iluminar a torre durante o período de Natal, transformando a estrutura em um ponto de atenção para quem passava pela região.
Quando entrou no ar, a emissora apresentou uma diferença que saltava aos olhos, a transmissão em cores. Enquanto parte da televisão regional ainda operava em preto e branco, a TV Paranaíba estreou com equipamentos modernos para o período. “A Paranaíba chegou transformando, inovando e criando”, resume Magoo.
Uma televisão que saiu dos estúdios para encontrar a cidade
A TV Paranaíba nasceu com profissionais que traziam a experiência do rádio, mas precisaram aprender a linguagem das imagens. A equipe experimentava formatos, criava soluções e levava as câmeras para perto da população.
Festivais de pipas, competições de ciclismo, programas infantis e entrevistas em espaços públicos fizeram parte dos primeiros anos. A televisão também abriu espaço para campanhas de vacinação, arrecadação de alimentos e ações promovidas por entidades sociais.

Segundo Magoo, Ary de Castro Santos enxergava a comunicação como parte da vida comunitária. O nome Rede Mineira de Rádio e Televisão já demonstrava o desejo de construir um projeto regional. “A TV Paranaíba sempre esteve presente em todas as grandes campanhas sociais de Uberlândia”, recorda o jornalista.
Essa proximidade ajudou a criar uma característica que permanece na programação: a tentativa de mostrar o Triângulo Mineiro a partir das pessoas que vivem na região, com seus problemas, conquistas, tradições e demandas.
Câmeras pesadas, fitas curtas e muita criatividade
Fazer televisão na década de 1970 exigia força física, precisão e capacidade de improvisar. Uma equipe externa podia reunir repórter, cinegrafista, motorista, iluminador e profissionais encarregados de transportar os equipamentos.
As câmeras pesavam entre 12 e 14 quilos. O gravador portátil podia chegar a aproximadamente 20 quilos. Mesmo assim, aquela estrutura representava um avanço, já a equipe conseguia deixar o estúdio e registrar os acontecimentos onde eles ocorriam.

As fitas U-matic ofereciam poucos minutos de gravação. Para produzir uma reportagem especial ou um documentário, a equipe precisava utilizar várias unidades e depois enfrentar um demorado processo de edição. Como o material custava caro, as fitas eram reutilizadas até apresentarem desgaste.
A TV acompanhou sucessivas transformações: U-matic, VHS, Super VHS, cartões de memória, câmeras digitais e equipamentos cada vez mais leves. O que antes exigia várias pessoas e dezenas de quilos hoje, em algumas situações, cabe em um celular. Mas a modernização não eliminou os imprevistos.
O jornal entrou no ar até diante de um tapume
A produtora audiovisual Andreia Caoli acompanhou de perto uma das principais transformações da TV Paranaíba, a implantação da televisão digital. Durante a transição, estúdios e cenários passaram por reformas, mas a programação precisava continuar normalmente.
Em um desses momentos, a solução foi levar o Jornal Paranaíba para a recepção da emissora. Sem o cenário habitual, um tapume com a marca da TV Paranaíba serviu de fundo, e o apresentador conduziu o telejornal em pé diante da câmera. “Então, a gente fez muitas loucuras. No dia da virada para a TV digital, havia aquele medo de alguma coisa dar errado em tudo”, relembra Andreia.
A chegada do digital não mudou apenas a imagem que aparecia na tela. Transformou também a rotina de quem trabalhava nos bastidores. Antes, a equipe precisava receber as fitas, transferir as gravações e editar o material enquanto o horário do telejornal se aproximava. Hoje, imagens gravadas na rua podem chegar à redação em poucos instantes.

A velocidade também trouxe novos desafios. Quando uma reportagem entra no ar na televisão, muitas vezes o público já recebeu as primeiras informações pelo celular. Nesse cenário, para Andreia, a televisão precisa ir além da rapidez, oferecendo contexto, apuração e credibilidade sem perder de vista o cuidado com as pessoas retratadas. “É olhar e pensar: isso expõe a outra pessoa? Isso acrescenta na notícia ou é só para gerar burburinho e like?”, questiona a jornalista.
A televisão regional entra na casa de quem também é personagem
A chefe de reportagem Helen Vilela chegou à TV Paranaíba em 2008. Contratada por Rogério Silva durante uma reestruturação do departamento de Jornalismo, passou anos nas ruas antes de assumir a tarefa de orientar novos profissionais.
“Depois de 28 anos como repórter, eu pedi pra mudar de função e tentar ajudar quem está começando. Quando eu dei os primeiros passos como repórter, ninguém me ajudou por isso eu tenho essa vontade de repassar um pouco do que eu aprendi. Então o cargo de chefe de reportagem une as duas vontades: sair da rua e orientar quem está iniciando. Não é um cargo fácil. Hoje é muito diferente de quando eu comecei, e nem todo mundo quer ouvir as pessoas com mais tempo de profissão”.

Uma reportagem de março de 2018 resume a relação que ela construiu com o público. Uma família saiu do Piauí e percorreu mais de 2 mil quilômetros até Uberlândia para procurar um parente desaparecido. O homem havia chegado à cidade para trabalhar como caseiro, mas perdeu o contato com os familiares.
Helen e o cinegrafista Felipe Leonardo conversaram com pessoas próximas ao hotel onde ele havia se hospedado. Durante a apuração, descobriram que o Hospital de Clínicas da UFU procurava parentes de um paciente ferido e sem memória. Era o homem que a família buscava. “Foi muito bom ajudar. Foi para isso que eu decidi fazer o curso de Comunicação Social: para trabalhar com informação que contribui, previne doenças, alerta, protege e serve de referência para a estrutura de uma sociedade equilibrada”, afirma.

Com 28 anos de experiência como repórter, Helen, hoje usa a sua experiência das ruas para orientar quem começa a carreira. “O modo de fazer TV mudou e para melhor. A tecnologia nos possibilitou ser mais participativos, usando o celular e ficando mais próximos das pessoas. O desafio é levar a informação certa em um universo cada vez maior de notícias fabricadas”, diz.
Mais que audiência, a televisão trabalha com confiança
O atual diretor de conteúdo da TV Paranaíba, Danilo Caixeta, conhece diferentes lados da redação. Começou como estagiário no Grupo há 18 anos, tendo passado pela apuração, produção, edição, reportagem, apresentação e chefia antes de chegar à gestão. “Minha trajetória na TV Paranaíba é, acima de tudo, uma história de aprendizado e de oportunidades”, afirma.
A experiência nos bastidores permitiu que ele compreendesse como cada etapa influencia aquilo que chega à casa do telespectador. Para Danilo, dirigir o conteúdo exige muito mais do que observar números. “É uma responsabilidade enorme, porque jornalismo não trabalha apenas com audiência. Trabalha com confiança. Todos os dias, milhares de pessoas nos permitem entrar em suas casas e participar da formação daquilo que elas sabem sobre a cidade, a região e o mundo.”
Essa responsabilidade ganha outra dimensão no jornalismo regional. A emissora não fala sobre uma comunidade distante: mostra ruas conhecidas, ouve os moradores, acompanha as decisões políticas e divide com o público as consequências dos acontecimentos locais. “A televisão regional tem uma característica que considero insubstituível: ela conhece as pessoas, os problemas e a realidade da comunidade que retrata”, destaca Danilo.

Do telejornal marcado pelo horário à informação multiplataforma
Durante décadas, o público esperava o horário do telejornal para descobrir o que havia acontecido. Hoje, a primeira informação pode chegar por uma notificação no celular, uma publicação nas redes sociais ou uma transmissão em tempo real.
A televisão também precisou encontrar seu espaço nesse novo ritmo. Ficou mais ágil, expandiu-se para diferentes plataformas e passou a conversar com um público que já chega ao telejornal cercado de informações. A velocidade aumentou, mas, para Danilo Caixeta, os princípios que sustentam o jornalismo permanecem os mesmos. “A tecnologia mudou a velocidade da informação, mas não mudou o compromisso que o jornalismo precisa ter com a verdade, com a checagem e com o interesse público”, afirma Danilo.
Nesse cenário, o desafio não é disputar com o celular quem entrega a notícia primeiro. Para Danilo, o papel da televisão passa também por organizar o excesso de informações, contextualizar os acontecimentos e ajudar o público a compreender o que está por trás dos fatos. “Acredito que o futuro da televisão não está em competir com o celular ou com as redes sociais, mas o de transformar informação em conhecimento, contextualizar os fatos e ajudar o público a entender aquilo que está acontecendo.”
Uma escola que formou diferentes gerações
Ao longo de sua trajetória, a TV Paranaíba também se tornou um espaço de formação profissional. Repórteres, produtores, apresentadores, editores, cinegrafistas e técnicos começaram na emissora e seguiram para diferentes veículos do país.
Magoo define a televisão como uma das principais escolas de comunicação do Triângulo Mineiro. “Quando parecia impossível fazer, a Paranaíba fazia, inventava, criava e improvisava”, recorda.

O videorrepórter Kleber Ribeiro entrou na TV Paranaíba como produtor, em março de 2024, depois de passar cinco anos afastado do Jornalismo. Trabalhar em televisão era um objetivo antigo, mas a oportunidade ainda não havia aparecido.
A mudança de função começou durante a produção de uma reportagem sobre a geração beta. Kleber pediu a oportunidade de concluir o material também como repórter. A experiência abriu espaço para novos trabalhos diante das câmeras e, posteriormente, para assumir a sucursal da emissora em Araxá. “A gente vai absorvendo um pouquinho de cada um, e isso contribui imensamente para o nosso crescimento”, conta.
Para Kleber, mesmo diante da multiplicação das telas e das novas formas de consumir informação, a televisão preserva uma característica que atravessa gerações, a capacidade de criar momentos compartilhados. “A televisão é motivo para compartilhar, para reunir pessoas. Ela tem esse poder de juntar as pessoas ao redor dela, seja para assistir a uma novela, ficar bem informado ou acompanhar um filme.”
A também videorrepórter Deborah Perez encontra nessa relação com o público outro significado para o trabalho diante das câmeras. Para ela, a televisão aproxima quem tem uma história para contar de quem está do outro lado da tela. “Para mim, a televisão é conexão. É o lugar onde eu posso contar histórias, dar voz às pessoas e levar informação de um jeito humano”, afirma.

Quem chega agora encontra um sonho construído por muitos
Aos 16 anos e com apenas duas semanas de empresa, o menor aprendiz Fellipe Ribeiro observa aquilo que o telespectador raramente vê. Ele acompanha a montagem dos cenários, o planejamento da programação e a organização necessária para que áudio e imagem funcionem no momento certo.
É a primeira experiência dele no mercado de trabalho. “Eu sempre tive a curiosidade de saber como montavam os cenários, como era a produção de tudo, como buscavam a notícia e como faziam tudo funcionar”, conta.

A estagiária de Jornalismo Kathleen Cristina Oliveira, que trabalha há menos de um ano na emissora, também descobriu que cada imagem exibida representa o esforço de uma equipe inteira. “Hoje consigo enxergar que, por trás de cada notícia que chega ao público, existe uma equipe inteira trabalhando para que aquela história seja contada da melhor maneira possível”, afirma.
O interesse de Kathleen pela profissão começou ainda na infância, depois de assistir a uma reportagem de Glória Maria. Ela passou a improvisar microfones e entrevistar os familiares dentro de casa.
Agora, espera provocar em outras pessoas a mesma inspiração que a levou até uma redação. “Quero ser uma profissional que tenha amor pelo que faz, que saiba contar histórias com cuidado, responsabilidade e sensibilidade e que nunca se esqueça das pessoas que estão por trás de cada notícia.”

A câmera muda; o compromisso permanece
Da torre iluminada antes da inauguração às transmissões feitas pelo celular, a história da TV Paranaíba acompanha as transformações da própria televisão brasileira.
As fitas ficaram menores até desaparecerem. As câmeras perderam peso. A imagem ganhou definição. O programa deixou de terminar quando os créditos subiam e passou a continuar no portal, nas redes sociais e nas plataformas digitais.
O essencial, porém, não mudou. A televisão ainda depende de pessoas dispostas a ouvir, conferir, explicar e transformar acontecimentos em histórias compreensíveis.
Danilo Caixeta resume esse legado ao lembrar que cargos e veículos podem mudar, mas a reputação permanece. “O jornalista precisa preservar a sua credibilidade como o seu maior patrimônio. A carreira pode mudar, os cargos podem mudar, os veículos podem mudar. A reputação que construímos, não.”
Quase cinco décadas depois de entrar no ar, a TV Paranaíba continua acompanhando o cotidiano do Triângulo Mineiro e formando novas gerações. Algumas pessoas aparecem diante das câmeras. Outras permanecem nos bastidores. Mas no final, todas ajudam a manter acesa uma história que começou em cores, cresceu com a região e segue a cada dia transmitindo novos capítulos.
Conheça um pouco dos bastidores da TV Paranaíba;
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