Trump e big techs fecham pacto de autorregulação da IA sem intervenção do governo

Trump reúne big techs na Casa Branca e sela autorregulação da IA voluntária, sem fiscalização do governo, enquanto 73% dos americanos desconfiam das empresas.

, em Uberlândia

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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou um acordo de autorregulação da IA com as maiores empresas de tecnologia do país. O pacto foi firmado na terça-feira (29), na Casa Branca, e prevê mecanismos de segurança que as próprias companhias vão adotar e fiscalizar, sem que o governo tenha papel de fiscal. O anúncio acontece num momento em que os americanos demonstram cada vez mais preocupação com os riscos da tecnologia.

Trump anuncia autorregulação da IA por big tech em meio a temor social
Apesar da criticada autorregulamentação da IA, Trump e empresas mantém compromissos com expansão de data centers – Crédito: Reprodução/Redes Socias

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Participaram do encontro dirigentes do Google, da OpenAI, da Meta, do X, da Nvidia e da Anthropic. Segundo o jornal The Guardian, o texto se chama Compromisso Conjunto sobre Responsabilidades de Fronteira e foi descrito por Trump como “moralmente vinculativo”. O presidente foi além e comparou o documento a uma constituição, afirmando que as pessoas mais importantes do mundo o assinaram.

O que a autorregulação da IA prevê na prática

O texto afirma que cada empresa deve desenvolver sua tecnologia com segurança e de modo a conquistar a confiança do público. Para isso, as companhias se comprometem a criar controles internos que impeçam os modelos de invadir ou acessar sistemas de maneira não intencional.

O caso mais recente ajuda a entender a preocupação. Na semana passada, o Governo Australiano divulgou que um sistema da OpenAI entrou numa base de dados do serviço público de saúde do país. A empresa classificou o episódio como involuntário e disse que tomaria providências para evitar novas invasões.

De acordo com o The Guardian, o acordo organiza a supervisão em quatro níveis. O primeiro é o monitoramento interno durante o treinamento dos sistemas, algo que os grandes laboratórios já fazem e que, segundo o jornal britânico,  não impediu falhas em testes. O segundo é uma equipe interna dedicada a verificar se esse monitoramento funciona. O terceiro é a contratação de um auditor externo independente. O quarto é um conselho também independente, responsável por revisar os relatórios de segurança.

Uma autorregulação da IA sem fiscal e sem punição

É aqui que o pacto recebe as maiores ressalvas. Conforme o The Guardian, nenhum dos níveis envolve órgãos reguladores do governo, e não há compromisso de tornar públicas as conclusões das avaliações. O jornal observa ainda que as empresas poderiam escolher seus próprios avaliadores, nomear seus próprios conselhos e decidir se divulgam ou não os resultados. Também não há mecanismo de imposição ou consequência legal, já que o compromisso é voluntário.

O documento admite que, com o tempo, essas etapas poderão virar lei ou regulamento, mas deixa a decisão para mais adiante. O governo Trump tem recusado limites legais ao setor, inclusive quando a própria indústria os pede, e o presidente costuma citar a concorrência com a China e o risco ao crescimento econômico para justificar a posição. Durante o anúncio do acordo, no entanto,  a Casa Branca afirmou que “com o tempo, pode fazer sentido codificar essas etapas em leis ou regulamentos”,  em um movimento de adiar qualquer decisão por uma regulação do setor. 

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Pressão da opinião pública e das urnas

O tema pesa politicamente. Em novembro, os americanos vão às urnas na eleição legislativa de meio de mandato, que pode tirar do partido de Trump a pequena maioria que ele tem no Congresso. Uma pesquisa da Ipsos e da Reuters mostrou que 73% dos americanos acham que as empresas de IA não fazem o suficiente para evitar danos, e 39% entendem que a tecnologia já causa impacto negativo na sociedade.

Entre os riscos citados por especialistas no relatório International AI Safety Report 2026 estão a banalização de ataques cibernéticos, os efeitos sobre o emprego e a economia, o uso da tecnologia em golpes e a manipulação da opinião pública por meio da desinformação nas redes.

Zuckerberg e Amodei defendem o acordo

Depois da assinatura, Trump e os executivos falaram à imprensa no jardim da Casa Branca. O presidente aproveitou para defender a expansão dos data centers, que sofrem resistência das comunidades por gastarem muita água e energia, e garantiu que as empresas farão parcerias locais em que “todos sairão ganhando”.

Mark Zuckerberg, dono da Meta, disse que o objetivo é passar confiança ao público e aos clientes. Para ele, o acordo não é tudo o que o setor fará: é um começo que toda a indústria pode seguir. Já Dario Amodei, CEO da Anthropic, que costuma alertar para os perigos do avanço da tecnologia, reconheceu que os riscos continuam “muito reais” e que a forma de lidar com eles ainda está em discussão.

Trump também rebatiza a inteligência artificial

No mesmo dia, Trump assinou uma ordem executiva que manda todos os documentos oficiais do governo passarem a usar o termo “superinteligência” no lugar de “inteligência artificial”. A ordem determina que departamentos e agências deixem de reconhecer as expressões antigas em comunicações oficiais. O texto justifica que o novo nome traduz melhor a promessa e o potencial da tecnologia.

A mudança divide opiniões. O cientista brasileiro Miguel Nicolelis, crítico da IA, afirma que o termo inteligência funciona como metáfora ou estratégia de marketing, já que sugere capacidades humanas que os sistemas não possuem e ajuda a valorizar os serviços vendidos pelas gigantes da tecnologia.

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