Uberlândia tem média de 11 casos de violência doméstica por dia
Dados parciais da Sejusp indicam 358 registros de violência doméstica e familiar em Uberlândia só em janeiro; no início de março, dois casos de violência a mulheres acenderam um alerta no município
-
Dois episódios de violência doméstica registrados em Uberlândia neste início de março, em que se comemora justamente o Mês da Mulher, acendem o alerta para uma triste realidade. Dados parciais da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) mostram que o município registrou 358 ocorrências de violência doméstica e familiar somente em janeiro deste ano, o que representa uma média de 11,5 casos por dia. Em todo o ano passado, o número consolidado de casos em Uberlândia foi de 4.271, o que gerou média de 11,7 agressões/dia. O números de fevereiro deste ano ainda não foram divulgados.

Em um dos casos desta semana, a vítima foi esfaqueada dentro de casa e o companheiro acabou preso em flagrante por tentativa de feminicídio. Em outra ocorrência, um fisiculturista foi detido após sucessivas agressões contra a companheira, que já havia solicitado medidas protetivas anteriormente.
Casos são expressivos para o tamanho da cidade
Para Daniela Novaes, delegada da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) de Uberlândia, os números são considerados expressivos para o tamanho da cidade. Segundo ela, até o momento já foram expedidas cerca de 320 medidas protetivas apenas neste início de ano. “Eu considero um número expressivo. Para a mulher conseguir essa medida protetiva, ela precisa procurar a Delegacia da Mulher, o Ministério Público, a Defensoria Pública ou um advogado para solicitar junto ao Poder Judiciário”, explicou.
A delegada avalia que o aumento nos registros não significa necessariamente apenas mais violência, mas também uma maior busca por ajuda por parte das vítimas. “As mulheres estão muito mais informadas sobre os direitos delas e conseguem identificar quando estão vivendo uma situação de violência. Quando elas percebem isso e dizem ‘chega, eu não aguento mais’, muitas vezes o agressor não aceita essa decisão e é justamente nesse momento que os casos acabam escalando”, afirmou.
Uberlândia mantém liderança regional
Além da média elevada de casos na cidade, Uberlândia também permanece como o município do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba com maior número absoluto de registros de violência doméstica em janeiro de 2026. Considerando as sete principais cidades da região, que juntas somaram 1.034 casos em janeiro, Uberlândia (com 358 casos) concentra 34,6% das ocorrências, ou seja, mais de um em cada três registros.
Na sequência, aparecem Uberaba (257 casos), Patos de Minas (159), Araxá (89), Frutal (79), Patrocínio (54) e Ituiutaba (38), segundo levantamento do Paranaíba Mais com dados da Sejusp. O número registrado em Uberlândia neste ano ainda apresenta um aumento de 5,6% em relação a janeiro de 2025 e recoloca a cidade em patamar próximo aos períodos mais críticos.
Os dados ao longo dos anos indicam que o problema permanece estrutural no município e tem se mantido elevado desde 2019.
- 2019: 378 casos em janeiro – 4.207 casos no ano
- 2020: 373 casos em janeiro – 4.048 casos no ano
- 2021: 360 casos em janeiro – 3.868 casos no ano
- 2022: 291 casos em janeiro – 3.770 casos no ano
- 2023: 334 casos em janeiro – 4.152 casos no ano
- 2024: 368 casos em janeiro – 4.232 casos no ano
- 2025: 339 casos em janeiro – 4.271 casos no ano
- 2026: 358 casos em janeiro
Casos recentes reforçam gravidade
Entre os episódios que chamaram atenção neste início de mês está o do fisiculturista preso em flagrante após investigação da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam).

Segundo a linha do tempo apurada, a vítima relata episódios de violência desde 2024, incluindo enforcamentos e agressões físicas:
- Dezembro de 2024: agressor teria arremessado pesos de academia contra a companheira;
- Maio de 2025: a vítima, que estava grávida, recebeu medida protetiva após ameaças de morte, mas revogou pedido. As agressões foram retomadas assim que a filha do casal nasceu;
- Pós-Carnaval de 2026: agressor teria tentado sufocá-la com um travesseiro;
- 02 de março de 2026: casa da vitima foi invadida e ela novamente agredida.
Depois dias após a prisão, o agressor foi solto provisoriamente pela Justiça, o que deixou a vítima indignada e com receio de novas agressões, mesmo tendo a decisão judicial aplicado medidas restritivas ao companheiro dela. Equipes esportivas, anteriormente envolvidas com o atleta de fisiculturismo, anunciaram o desligamento após repercussão do caso.
Em outra ocorrência grave, a Polícia Militar atendeu um chamado de esfaqueamento em uma casa no bairro Jaraguá. A vítima foi atingida no tórax por um golpe de faca em região considerada vital.

Ela chegou a ficar inconsciente durante o atendimento e foi levada em estado grave ao pronto-socorro da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). O companheiro foi preso em flagrante por tentativa de feminicídio.
Ciclo da violência
A delegada Daniela Novaes chama atenção para o chamado ciclo da violência, que costuma se repetir nas relações abusivas. Segundo ela, o processo geralmente começa com a fase de tensão, marcada por ciúmes excessivos, controle e ameaças. Em seguida, ocorre a explosão da violência, quando podem acontecer agressões físicas ou psicológicas.
Depois disso, vem a chamada fase da “lua de mel”, quando o agressor pede perdão e promete mudar. “O problema é que esses ciclos vão ficando cada vez mais curtos. Se antes aconteciam uma vez por mês, passam a ocorrer a cada 15 dias ou até duas vezes na semana”, explicou.
📲 Siga o canal de notícias do Paranaíba Mais no WhatsApp
Por isso, a orientação é que as mulheres busquem ajuda logo nos primeiros sinais. “Qualquer sinal de violência, seja psicológica ou moral, procure ajuda. Estamos aqui para acolher essas mulheres e impedir que essa história termine da pior forma possível, que é o feminicídio”, afirmou.
Violência vai além da agressão física
Segundo a delegada da Deam, muitas pessoas ainda associam violência doméstica apenas às agressões físicas, mas a legislação reconhece diferentes formas de violência contra a mulher.
Entre elas estão a violência psicológica, quando o agressor diminui ou intimida a vítima; a violência moral, com xingamentos ou ataques à reputação; a violência patrimonial, quando objetos ou recursos financeiros da mulher são controlados ou destruídos; e a violência sexual, quando há imposição de atos sexuais sem consentimento.
Leia Mais
“A violência física é a que deixa marcas e muitas pessoas acreditam que seja a única forma de violência, mas não é. Existem várias outras situações que também caracterizam violência doméstica”, explicou a delegada.
Ela também destaca que não é necessário ter sido vítima de um crime para pedir ajuda. “Para solicitar uma medida protetiva, a mulher não precisa ter sofrido uma agressão física. Basta que ela se sinta constrangida ou ameaçada dentro daquela relação”, disse.