Lei Seca completa 18 anos: Minas Gerais lidera multas e é 2º em mortes no país

Estado aparece entre os mais críticos do Brasil em acidentes e letalidade por embriaguez ao volante; dados da PRF mostram alta de infrações e recusa ao bafômetro

, em Uberlândia

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A Lei Seca completa 18 anos nesta sexta-feira (19), mas Minas Gerais ainda convive com um cenário preocupante nas rodovias federais. Dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF), reunidos em levantamento da Associação de Clínicas de Trânsito de Minas Gerais (Actrans), mostram que o estado lidera o número de autuações relacionadas à legislação e aparece entre os mais críticos do país em acidentes, feridos e mortes provocados pela embriaguez ao volante.

Lei Seca
Acidente com suspeita de álcool deixa 4 mortos e 16 feridos na MGC-452, em Uberlândia – Crédito: Via-Drones/Divulgação

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Entre janeiro e maio de 2026, Minas registrou 127 sinistros causados por motoristas alcoolizados, ficando atrás apenas de Santa Catarina (234) e Paraná (180). O estado também ocupa a terceira posição em número de feridos, com 114 vítimas, e aparece em segundo lugar em mortes, com nove óbitos, o equivalente a 10,71% das 84 mortes registradas no Brasil no período.

Além disso, a taxa de letalidade em Minas Gerais chegou a 7,1%, superior à média nacional, de 5,8%.

Rodovias mineiras tornam acidentes mais graves

Embora outros estados registrem mais ocorrências envolvendo álcool e direção, Minas apresenta um índice maior de mortes em relação ao número de acidentes.

Segundo a presidente da Actrans, Adalgisa Lopes, as características das rodovias federais mineiras ajudam a explicar esse cenário.

“As rodovias federais de Minas Gerais não perdoam o erro. Enquanto em estados planos e com pistas duplicadas um motorista alcoolizado que sai da pista tem grandes chances de sobrevivência, aqui ele invade a contramão em pista simples e colide de frente com uma carreta de mineração. Uma taxa de letalidade de 7,1% mostra que beber e dirigir nas estradas mineiras é, quase literalmente, assinar uma sentença de morte”, afirma.

De acordo com a entidade, vias como as BR-381, BR-040 e BR-262 concentram fatores que aumentam a gravidade dos acidentes, como pistas simples, curvas fechadas, relevo montanhoso e intenso fluxo de caminhões de carga.

Estado lidera autuações por embriaguez

Além do elevado número de acidentes, Minas Gerais também ocupa o topo do ranking nacional de infrações relacionadas à Lei Seca.

Nos cinco primeiros meses deste ano, foram registradas 657 autuações por teste positivo no bafômetro e 2.770 recusas ao exame, totalizando 3.427 infrações.

O número representa 22% de todas as autuações realizadas pela PRF no país durante o período. Na prática, significa que, em média, 22 motoristas são flagrados diariamente nas rodovias federais mineiras por dirigir alcoolizados ou se recusarem a realizar o teste.

O volume é bem superior ao dos demais estados. Mato Grosso aparece na sequência com 290 testes positivos, seguido pelo Paraná, com 249.

Segundo o vice-presidente da Actrans, Carlos Luiz Souza, a dimensão da malha rodoviária federal em Minas contribui para esse resultado.

“Temos a maior e mais complexa malha rodoviária federal do país, caracterizada por curvas sinuosas, pista simples e um relevo extremamente acidentado. Adicionar álcool a essa equação geográfica é uma combinação catastrófica. Não há engenharia de tráfego ou tecnologia veicular no mundo que consiga salvar um motorista cujo tempo de reação foi destruído por duas ou três doses de bebida.”

Casos reforçam gravidade do problema

Um Uberlândia, um casal morreu após a motocicleta em que estava ser atingida por um carro na BR-365. As vítimas foram identificadas como Ana Cláudia Pimenta, de 51 anos, e Nivaldo José Vieira, de 62. De acordo com a Polícia Rodoviária Federal (PRF), o motorista do automóvel, de 28 anos, realizou o teste do bafômetro, que apontou concentração de álcool acima do limite que caracteriza crime de trânsito. Ele foi preso em flagrante.

Outro caso ocorreu em Patos de Minas, no Alto Paranaíba. A jovem Isabelly Rodrigues Silva, de 25 anos, morreu após a motocicleta em que estava bater contra uma árvore na Avenida Afonso Queiroz, no bairro Sebastião Amorim. Segundo a polícia, a condutora, de 27 anos, perdeu o controle da direção e foi presa em flagrante por suspeita de embriaguez ao volante.

Em Uberlândia, outro caso de grande repercussão reforçou os riscos da combinação entre álcool e direção. Ruth Jesuíno da Silva, de 57 anos, morreu após um grave acidente na Avenida Rondon Pacheco. Câmeras de segurança registraram o momento em que um carro, em alta velocidade, atingiu a motocicleta em que a vítima estava e, na sequência, colidiu com outro veículo. Conforme o registro da ocorrência, o motorista admitiu à polícia que havia ingerido bebida alcoólica antes de dirigir.

Recusa ao bafômetro cresce

O levantamento também aponta um alto número de motoristas que optam por não realizar o teste do bafômetro.

Em Minas Gerais, a proporção é de 4,2 recusas para cada teste positivo, enquanto a média nacional é de 6,2.

Pela legislação, quem se recusa ao teste recebe a mesma penalidade administrativa aplicada ao motorista flagrado alcoolizado: multa de R$ 2.934,70, suspensão da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) por 12 meses e outras sanções previstas no Código de Trânsito Brasileiro.

Para Adalgisa Lopes, muitos condutores fazem essa escolha para evitar a produção de prova que possa levar à responsabilização criminal.

“A explosão de recusas ao bafômetro em Minas Gerais é o retrato de uma sociedade que aprendeu a usar a lei para blindar a própria irresponsabilidade. O motorista não recusa o teste porque tem dúvidas sobre o processo; ele recusa porque faz um cálculo frio de autopreservação jurídica para escapar do flagrante criminal, ignorando completamente o risco de morte que representa para as famílias que compartilham a estrada com ele.”

Álcool altera a percepção do motorista

Especialistas explicam que o consumo de álcool compromete diretamente regiões do cérebro responsáveis pelo julgamento, percepção de risco e controle dos impulsos.

Segundo a psicóloga do trânsito Giovana Varonni, o motorista passa a acreditar que continua apto para dirigir, mesmo com suas capacidades reduzidas.

“O álcool desliga o lobo frontal, que é o nosso freio crítico e moral. O motorista cai facilmente na armadilha da ilusão de controle. Ele jura que ‘sabe dirigir melhor’ ou que ‘está perto de casa’, mas seu cérebro já perdeu a capacidade de calcular a distância de uma curva. O viés de otimismo mata tanto quanto a velocidade.”

Leia Mais: Lei Seca: entenda a legislação que transformou a segurança no trânsito

Dezoito anos depois, desafio continua

Sancionada em 19 de junho de 2008, a Lei Seca endureceu as punições para quem dirige sob efeito de álcool e intensificou a fiscalização nas rodovias brasileiras.

Mesmo após 18 anos de vigência, especialistas avaliam que o principal obstáculo continua sendo a mudança de comportamento dos condutores.

Para a psicóloga do trânsito Kelly Bessa, as mortes provocadas pela combinação entre álcool e direção continuam sendo totalmente evitáveis.

“O fato de termos registrado nove mortes em apenas cinco meses por essa causa é uma tragédia diária e totalmente evitável. Cada uma dessas mortes representa uma família mineira despedaçada que nunca mais será a mesma. A sociedade precisa parar de tratar a combinação de álcool e direção como um deslize social. É um comportamento criminoso e letal que exige tolerância zero.”

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