“Guardião dos presos”: as histórias e bastidores da antiga Delegacia de Uberlândia

Desde 2017 o prédio se encontra abandonado, porém, os escombros e ruínas escondem inúmeras histórias de jornalistas, delegados e responsáveis pela segurança pública de Uberlândia

, em Uberlândia

O prédio que abrigou por anos a sede da 16ª Delegacia Regional de Polícia Civil ainda não tem uma definição sobre seu uso ou possível revitalização. Desde 2017, o prédio se encontra abandonado, porém, os escombros e ruínas escondem inúmeras histórias de jornalistas, delegados e funcionários que atuaram na segurança pública de Uberlândia.

Antiga delegacia de Uberlândia foi palco de inúmeras histórias. Crédito: Reprodução/arquivo pessoal
Antiga delegacia de Uberlândia foi palco de inúmeras histórias. Crédito: Reprodução/arquivo pessoal

o Paranaíba Mais foi atrás das histórias e bastidores que permeiam a antiga Delegacia Regional de Polícia Civil, localizada no bairro Umuarama.

Marcos Maracanã: O Guardião dos presos

Era 2005, e o trabalho jornalístico desenvolvido nas emissoras de rádio e TV de Uberlândia com foco na área policial tinha um endereço em comum. Os crimes, boletins de ocorrência e presos se concentravam no prédio da 16ª Delegacia Regional de Polícia Civil.

Entre tantos jornalistas, Marcos Maracanã se destacava na cobertura policial de Uberlândia. Nos anos 2000, o repórter trabalhava nos corredores do órgão público e no contato direto com nomes do submundo do crime. O trabalho diário do jornalista chamou a atenção de Cezarino Miguel, inspetor-chefe da Polícia Civíl.

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Um pedido inusitado foi feito pelo então inspetor-chefe. A autoridade escolheu Maracanã para ser o ‘Guardião dos presos’.

“Aquela carceragem lotada e tensa tornou-se meu segundo lar. Em uma época de superlotação e nervos à flor da pele, os detentos não me viam como um inimigo, mas como um porto seguro. Havia um pacto implícito de respeito”, revelou Maracanã.

O repórter que dormia no presídio

O jornalista conta que já deteve rebeliões na 16ª Delegacia Regional, por meio do diálogo, garantindo os direitos dos detentos e também a integridade física dos envolvidos.

Delegacia abandonada foi a segunda casa do jornalista Marcos Maracanã. Crédito: Reprodução/Youtube
Delegacia abandonada foi a segunda casa do jornalista Marcos Maracanã. Crédito: Reprodução/Youtube

Ele ainda revela que dormia na delegacia, em uma cadeira improvisada no plantão, para proteger os presos de eventuais confusões ou de investidas de gangues rivais.

“Muitas histórias já passaram pelo meu gravador, desde confissões repletas de arrependimento até justificativas inacreditáveis de crimes cometidos”, disse Maracanã.

Histórias da antiga Delegacia de Uberlândia: a rebelião dos presos

Dentre muitas histórias que evidenciam a proximidade do trabalho jornalístico com o movimento da antiga sede da 16ª Delegacia Regional, uma delas tem memória viva na mente do jornalista Neivaldo Honorio da Silva, o Magoo, que era diretor de jornalismo da TV Paranaíba nos anos 2000.

Por conta da proximidade geográfica entre a delegacia e o prédio da TV Paranaíba, o diretor relatou que sua equipe subiu uma câmara de TV para o mesanino da torre a uns 50 metros de altura e mostrou uma rebelião no pátio da delegacia ao vivo.

O lugar que já foi palco de rebeliões de presos hoje está sem manutenção - Crédito: Mateus Oliveira
O lugar que já foi palco de rebeliões de presos hoje está sem manutenção – Crédito: Mateus Oliveira

“Como não tínhamos muitos recursos e o trabalho da imprensa estava bem dificultado pela insegurança da área, subimos uma câmara para o mesanino da torre e mostramos tudo ao vivo”, conta o diretor.

Magoo conta que foram dois dias seguidos de bombas de gás lacrimogênio, tiros, gritos, pedradas e trânsito impedido em frente a delegacia em questão. O jornalista também revelou que meses depois da rebelião a delegacia foi desativada por conta da insegurança.

Prédio abandonado da delegacia está deteriorado

Sem manutenção, sem vigilância e sem definição de uso, a antiga delegacia se tornou um problema urbano na cidade de Uberlândia. A estrutura degradada e o acesso facilitado transformaram o espaço em um ponto de atenção para a segurança da região. Na semana passada, uma equipe da Secretaria Municipal de Serviços Urbanos fez a limpeza do prédio.

Uma solução para o espaço, no entanto, pode estar próxima. O imóvel faz parte da relação de imóveis e áreas que o Estado irá transferir para a União como forma de abatimento da dívida mineira com o Governo Federal, estimada em cerca de R$ 181 bilhões. Ao todo, nove imóveis de propriedade do Estado situados em Uberlândia integram o pacote de adesão ao Programa de Pleno Pagamento das Dívidas dos Estados (Propag).

Antiga delegacia abandonada no Umuarama apresenta sinais de depredação, com mato alto, vidros quebrados e acesso livre ao interior - Crédito: Mateus Oliveira
Antiga delegacia abandonada no Umuarama apresenta sinais de depredação, com mato alto, vidros quebrados e acesso livre ao interior – Crédito: Mateus Oliveira

Na próxima matéria do especial “Histórias da 16ª”, o Paranaíba Mais irá profundar na história que parou Uberlândia há quase duas décadas. A jornalista Cássia Bonfim conta sua relação com a delegacia e como isso impactou na apuração jornalística do caso “Dyenifer”, adolescente que foi assassinada e esquartejada pela sua vizinha Efigênia Guimarães.