Empresário que matou gari em BH tenta mudar versão
Em audiência, Renê Júnior afirma ter sido ameaçado por policiais para admitir culpa; ele justifica que carregava arma por temer antiga sócia
-
Empresário acusado de matar o gari Laudemir Fernandes prestou depoimento nesta quarta-feira (26) em Belo Horizonte, durante a segunda etapa da audiência de instrução, marcada por versões opostas. Enquanto Renê da Silva Nogueira Júnior disse ter sido coagido a confessar o disparo e alegou portar arma por medo de ameaças, testemunhas afirmaram que o trabalhador foi morto apenas por exercer sua função e por não ter o mesmo poder econômico do réu.
A sessão ocorreu no 1º Tribunal do Júri Sumariante, no Bairro Preto, na Região Centro-Sul da capital. Renê optou por não responder às perguntas, mas fez um relato próprio sobre sua vida e sobre o dia do crime, ocorrido em 11 de agosto, quando Laudemir, de 44 anos, trabalhava na coleta de lixo no bairro Vista Alegre.
📲 Siga o canal de notícias do Paranaíba Mais no WhatsApp
Réu alega perseguição, coação e diz não saber se casamento continua
O empresário declarou que estava armado porque teria sido ameaçado por uma ex-sócia ligada ao jogo do bicho. A arma, segundo ele, pertencia à esposa, a delegada Ana Paula Balbino Lamego. Renê afirmou ainda ter ficado cerca de 30 minutos preso em um congestionamento, dizendo que, apesar disso, “teve oportunidade de atirar em outras pessoas, mas não o fez”, reforçando que não dispararia a esmo.
Mesmo assim, não negou nem confirmou ter sido o autor do tiro que matou Laudemir. Em vez disso, sustentou que a confissão registrada no Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) só ocorreu porque policiais teriam ameaçado prejudicar sua esposa caso ele não colaborasse “exatamente como queriam”. Disse também que sente estar sendo perseguido e que não sabe se seu casamento resistiu ao episódio.
Antes do interrogatório, três policiais e uma pessoa ligada à empresa onde o empresário atuava foram ouvidos. Um perito da Polícia Civil responderá aos questionamentos por escrito.
Testemunhas reforçam desequilíbrio social e afirmam que vítima só “segurava um saco de lixo”
Na véspera, oito testemunhas de acusação foram ouvidas, entre elas colegas de trabalho da vítima. A motorista do caminhão de coleta, Eledias Aparecida Rodrigues, que também foi ameaçada na ocasião, afirmou que toda a equipe se sente marcada pelo “poder socioeconômico” usado pelo réu no dia do crime.
“Ele deixou a gente com a sensação de que fomos vítimas por estar ali trabalhando e por não ter a mesma oportunidade financeira que ele”, disse. A funcionária contou que, desde então, só consegue dormir com medicação.
O gari Tiago Rodrigues Vieira reforçou a expectativa de que “a Justiça bata o martelo”, lembrando que Laudemir não tinha qualquer objeto que indicasse ameaça. “O que tinha nas mãos? Um saco de lixo”, destacou o advogado da família, Tiago Lenoir, ao defender a condenação.
Habeas corpus negado e próximos passos do processo
No primeiro dia da audiência, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais negou o pedido de habeas corpus da defesa, mantendo o réu preso preventivamente no Presídio de Caeté, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.
Renê responde por homicídio triplamente qualificado por motivo torpe, porte ilegal de arma de fogo e fraude processual. A pena pode ultrapassar 30 anos de prisão.
A juíza Ana Carolina Rauen concedeu prazo para diligências complementares, e o processo segue na fase de instrução, que reúne provas diretas, depoimentos e interrogatórios. Ao fim desta etapa, será decidido se o caso vai ou não a júri popular.
Relação afetiva da vítima e certificados apresentados
A Justiça também indeferiu o pedido para que Liliane França da Silva atuasse como assistente de acusação, por falta de documentos que comprovassem união estável com o gari.
A defesa do empresário juntou ao processo diplomas e certificados de instituições como Estácio, USP, Fundação Dom Cabral, Harvard Business Review Brasil e Ambev, alegando inconsistências em informações divulgadas pela imprensa sobre a formação acadêmica de Renê.
Relembre o caso
O crime ocorreu em 11 de agosto deste ano, quando o empresário se irritou com a presença de um caminhão de lixo na rua e teria apontado a arma para Laudemir, que morreu no local. A motorista do caminhão também foi ameaçada.
Dias depois, Renê afirmou em depoimento ao DHPP que o disparo foi acidental, mas agora diz que nunca confessou o crime. Laudos de balística confirmaram que o armamento utilizado pertence à esposa dele.