Diretores de construtora são presos após incêndio em Hong Kong que matou 83 pessoas
Polícia aponta negligência grave no uso de materiais inseguros na reforma do complexo habitacional; incêndio é o pior desde 1948
O pior incêndio em Hong Kong em quase oito décadas, que matou 83 pessoas, deixou centenas de desaparecidos e destruiu parte do complexo residencial Wang Fuk Court, em Tai Po, levou à prisão de diretores e um consultor de engenharia da construtora responsável pela reforma do prédio. As autoridades afirmam que o grupo é suspeito de homicídio culposo por negligência no uso de materiais considerados inseguros, o que teria contribuído para a rápida propagação das chamas.

As prisões ocorreram nesta quinta-feira (27). Segundo a polícia, os detidos integravam a empresa Prestige Construction, contratada para realizar a manutenção dos edifícios. Documentos de licitação, listas de funcionários, computadores e celulares foram apreendidos na sede da companhia. De acordo com a superintendente Eileen Chung, há indícios de que a construtora “agiu com extrema negligência”, permitindo que o incêndio se alastrasse de forma descontrolada. A empresa não se pronunciou.
O fogo atingiu o complexo densamente habitado, que abriga mais de 4.600 moradores, ainda na quarta-feira (26), em meio a uma reforma que envolvia andaimes de bambu e telas de proteção. As chamas consumiram blocos principais das oito torres, e equipes de resgate enfrentaram calor intenso, fumaça densa e quedas de estruturas enquanto tentavam alcançar moradores presos nos andares superiores. Um sobrevivente chegou a ser encontrado em uma das escadarias, segundo o South China Morning Post.
A busca pelas vítimas causou desespero. Em um dos abrigos montados para receber os evacuados, uma mulher procurava pela filha e o marido desaparecidos, segurando apenas a foto de formatura da jovem. Segundo o governo, oito centros acolhem cerca de 900 moradores, enquanto muitos outros buscaram abrigo improvisado em um shopping próximo.
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A tragédia reacendeu discussões antigas sobre segurança predial na região. A polícia encontrou espuma vedando janelas em um dos prédios, instalada durante obras de manutenção. O governo já discute a substituição gradual dos tradicionais andaimes de bambu por estruturas metálicas, consideradas mais seguras.
O incêndio, o mais mortal desde 1948, quando 176 pessoas morreram em um armazém, também trouxe mobilização política e humanitária. O líder de Hong Kong, John Lee, anunciou um fundo de HK$ 300 milhões (mais de R$ 208 milhões) para auxiliar moradores afetados. Empresas como Xiaomi, Xpeng, Geely, a fundação de Jack Ma e a Tencent anunciaram doações. O presidente chinês, Xi Jinping, cobrou esforços totais para conter o fogo e reduzir perdas.
A comoção atravessou fronteiras. Em telegrama enviado ao cardeal Stephen Chow Sau-yan, o papa expressou solidariedade às famílias enlutadas e aos feridos.
Enquanto os mais de 700 bombeiros tentam concluir o rescaldo – operação que já dura mais de 24 horas -, as buscas continuam. Um documento online, criado por moradores, reúne informações sobre desaparecidos, de idosos a crianças. Algumas mensagens resumem o drama em poucas palavras: “27º andar, quarto 1: ele está morto”.
