Por que o surto de ebola na África preocupa especialistas?
Revista aponta que vírus pode ter circulado por semanas sem detecção e alerta para risco de expansão acelerada no continente
O surto de ebola na África voltou a mobilizar autoridades internacionais de saúde após o avanço acelerado dos casos na República Democrática do Congo e em Uganda. Além do alerta emitido pela Organização Mundial da Saúde, um estudo aumentou ainda mais a preocupação de pesquisadores e epidemiologistas sobre a real dimensão da epidemia.

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Segundo a publicação, da Revista Nature, cientistas avaliam que o número de pessoas infectadas pode ser muito maior do que os registros oficiais divulgados até agora. A análise foi apresentada poucos dias após o Congo e Uganda confirmarem oficialmente o surto, quando autoridades locais relataram 246 casos suspeitos e 80 mortes suspeitas.
De acordo a revista, um grupo internacional de pesquisadores divulgou um estudo de modelagem matemática indicando que a quantidade real de infecções pode ultrapassar mil casos. O levantamento considera a taxa de mortalidade registrada até o momento e compara o comportamento atual da doença com surtos anteriores provocados pelo vírus Bundibugyo, uma espécie rara do ebola.
Os pesquisadores explicam que o vírus provavelmente circulou por semanas sem ser identificado pelas autoridades de saúde. A publicação destaca que evidências apontam para uma transmissão silenciosa há cerca de dois meses, o que teria permitido ao vírus ganhar vantagem antes das primeiras medidas de contenção.
Velocidade é determinante no surto de ebola na África
As informações publicadas mostram que a velocidade do avanço do surto é um dos principais fatores de preocupação entre especialistas. O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou estar “profundamente preocupado” com a escala e a rapidez da epidemia.
A comparação com a crise sanitária de 2014 reforçou o alerta. Naquele período, quando a Guiné notificou o que se tornou a maior epidemia de ebola da história, existiam inicialmente apenas 49 casos suspeitos e 29 mortes. Agora, os números já começaram em um patamar muito mais elevado.
Segundo a Nature, investigadores trabalham para descobrir exatamente quando o atual surto começou. Uma pessoa que morreu em 20 de abril passou a ser tratada provisoriamente como possível primeiro caso da nova onda de transmissão. Após um episódio classificado como “superpropagação”, ocorrido em maio, autoridades passaram a investigar relatos publicados nas redes sociais sobre outras mortes suspeitas ligadas ao vírus.
Outro ponto que elevou a preocupação internacional é o fato de o surto atingir áreas urbanas e semiurbanas das províncias de Ituri e Kivu do Norte, regiões com intensa circulação de pessoas e grande movimentação comercial.
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Especialistas correm contra o tempo
A revista Nature também ouviu especialistas que avaliam que as próximas semanas serão decisivas para impedir uma epidemia ainda maior. A epidemiologista Ruth McCabe, do Imperial College London, participou do estudo de modelagem que sugere subnotificação significativa dos casos.
Segundo ela, levar rapidamente recursos e assistência às regiões afetadas será fundamental para reduzir transmissões e evitar novas mortes. Especialistas acreditam que a velocidade de resposta pode definir se o atual surto ficará restrito às áreas já afetadas ou se alcançará proporções mais graves.
O ex-diretor dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, Tom Frieden, afirmou que o vírus ganhou uma “grande vantagem inicial”, o que torna a contenção mais difícil neste momento.
Apesar da preocupação, pesquisadores destacam que ainda não há confirmação de que o surto de ebola na África atingirá o mesmo tamanho da epidemia registrada entre 2014 e 2016, que infectou cerca de 28,6 mil pessoas e provocou aproximadamente 11,3 mil mortes.
OMS mantém alerta máximo para contenção
A Organização Mundial da Saúde elevou o risco do surto na República Democrática do Congo para “muito alto” em nível nacional. Dados oficiais apontam 82 casos confirmados e sete mortes no país, além de quase 750 casos suspeitos e 177 mortes sob investigação.
Em Uganda, cinco casos já foram confirmados. Entre eles estão um profissional de saúde, um motorista e uma mulher congolesa que esteve recentemente em uma área afetada na RDC.
As autoridades internacionais reforçaram que o sucesso da resposta dependerá da rapidez no isolamento dos casos, da vigilância nas fronteiras e do fortalecimento do contato com as comunidades locais.
Todos os vírus Ebola são transmitidos pelo contato com sangue e outros fluidos corporais. A doença pode provocar febre, vômitos, diarreia, hemorragias internas e externas, além de falência de órgãos em casos mais graves.
Segundo especialistas ouvidos pela revista Nature, o comportamento do atual surto de ebola na África ainda é imprevisível, mas a capacidade de resposta internacional nas próximas semanas será decisiva para evitar uma crise sanitária de grandes proporções.