Injeção para prevenir HIV pode chegar ao SUS; entenda como funciona
Medicamento aplicado a cada dois meses dispensa o uso diário de comprimidos; população pode participar de consulta sobre a oferta pelo SUS até 31 de agosto
Uma injeção para prevenir o HIV, aplicada a cada dois meses, está em análise para ser incorporada ao Sistema Único de Saúde (SUS). O medicamento, chamado cabotegravir, já tem autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para uso no Brasil, mas ainda não é oferecido como parte dessa estratégia de prevenção na rede pública.
O cabotegravir é um antirretroviral de longa duração usado como profilaxia pré-exposição (PrEP). Atualmente, o SUS disponibiliza a PrEP principalmente por meio de comprimidos, utilizados conforme orientação dos profissionais de saúde.
A versão injetável surge como uma alternativa para pessoas que enfrentam dificuldades em manter o uso regular da medicação oral. Apesar da forma de aplicação, o medicamento não é uma vacina, já que não estimula o organismo a produzir anticorpos contra o HIV.

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Como funciona a injeção para prevenir o HIV?
O infectologista Ricardo Kores explica que o medicamento libera gradualmente uma substância antiviral no organismo. A ação impede uma etapa necessária para que o HIV consiga estabelecer a infecção. “Esse antiviral vai sendo liberado aos poucos, justamente para bloquear a entrada do HIV em uma possível infecção”, explica.
Segundo o médico, a aplicação pode provocar dor no local durante dois ou três dias. O uso exige avaliação e acompanhamento de um profissional de saúde, além da realização periódica de testes para HIV.
O esquema analisado prevê duas doses iniciais, com intervalo de quatro semanas, seguidas por aplicações de manutenção a cada oito semanas. A indicação envolve pessoas sem HIV que apresentam risco aumentado de exposição ao vírus.
A PrEP não protege contra outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). Por isso, faz parte de uma estratégia de prevenção combinada, que também pode incluir preservativos, testagem regular e acompanhamento nos serviços de saúde.

Injeção para prevenir HIV está em avaliação para o SUS
A Anvisa concedeu o registro do cabotegravir injetável em 2023. A autorização permite o uso do medicamento no Brasil, mas não significa que ele esteja disponível gratuitamente pelo SUS.
A Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) abriu uma consulta pública para receber contribuições sobre a possível incorporação do medicamento. A população pode participar até 31 de agosto de 2026.
As contribuições serão analisadas junto às evidências científicas, aos custos e ao possível impacto da tecnologia no sistema público de saúde.
Para Ricardo Kores, uma das vantagens da versão injetável está no intervalo maior entre as doses. “É mais prático do que tomar um comprimido todos os dias, com o risco de esquecer”, afirma o infectologista.
Uberlândia tem cerca de 5,5 mil pessoas com HIV ou Aids
Segundo Edval Cantuário, presidente da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e Aids (RNP), cerca de 5,5 mil pessoas vivem com HIV ou Aids em Uberlândia. Ele afirma que o número pode ser maior, já que há pessoas que vivem com o vírus sem terem recebido o diagnóstico.
Edval acompanha há 26 anos as mudanças no tratamento contra o HIV. Segundo ele, no início desse período, alguns pacientes precisavam tomar quase 30 comprimidos. Atualmente, muitos utilizam apenas um ou dois medicamentos por dia.
A evolução do tratamento reduziu efeitos adversos e simplificou a rotina de quem vive com HIV. Além disso, pessoas que mantêm a carga viral indetectável com o tratamento não transmitem o HIV por via sexual, conceito conhecido como indetectável = intransmissível (I = I).
Testagem continua essencial na prevenção ao HIV
Apesar dos avanços na prevenção e no tratamento, o preconceito e o medo do diagnóstico ainda podem afastar pessoas dos serviços de saúde. A testagem permite identificar a infecção e iniciar o tratamento precocemente. “Precisamos que as pessoas façam o teste. Não existe mais grupo de risco”, destaca Edval.
O SUS oferece gratuitamente testes para HIV, métodos de prevenção e tratamento. Em caso de possível exposição ao vírus, a orientação é procurar um serviço de saúde para avaliar qual estratégia é indicada para cada situação.

A possível chegada do cabotegravir ao SUS pode ampliar as alternativas disponíveis para prevenção do HIV, especialmente para quem tem dificuldade de manter o uso da PrEP oral. A incorporação, no entanto, ainda depende da avaliação do Ministério da Saúde.
Caso a tecnologia seja incorporada, o SUS ainda deverá estabelecer critérios de acesso, público atendido e estratégia para disponibilização do medicamento.
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