Herói mineiro: relembre o caso do Césio-137 que impactou o mundo

O cientista responsável por identificar a contaminação radioativa em Goiânia nasceu em Minas Gerais e teve papel decisivo, na contenção do acidente causado pelo Césio-137; vamos relembrar esta matéria que marcou o Paranaíba Mais.

, em Uberlândia

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Em setembro de 1987, uma cápsula contendo Césio-137 foi retirada de um antigo instituto de radiologia abandonado em Goiânia. Sem saber do risco invisível representado pela radiação, pessoas que encontraram o equipamento abriram a cápsula e passaram a manusear o pó azul brilhante, distribuindo o material entre familiares e conhecidos.

O alerta só começou após Maria Gabriela Ferreira, esposa de Devair Alves Ferreira, dono de um ferro-velho, desconfiar das queimaduras e dos vômitos apresentados por familiares. Ela levou a peça até a Vigilância Sanitária, iniciando uma das maiores operações de emergência radiológica da história.

O físico Walter Mendes Ferreira, natural de Minas Gerais e atual chefe da Divisão de Emergências Radiológicas da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), foi o responsável direto por identificar o “pó azul brilhante” era altamente radioativo.

Césio-137
Local onde o equipamento com Césio-137 foi aberto — Crédito: CNEN/Netflix/Reprodução

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Como surgiu a reportagem? Os bastidores pelo olhar de Kethelyn Luiza

Enquanto repórter do portal Paranaíba Mais, meu faro jornalístico segue sempre ligado, o que permitiu que o material nascesse de uma forma diferente. Enquanto eu assistia à série Emergência Radioativa, da Netflix, chamou minha atenção a atuação do físico responsável por identificar a presença do Césio-137 logo no início da crise. A produção apresenta a atuação dos cientistas da CNEN, o que me despertou uma curiosidade: quem era, na vida real, aquele profissional?

Durante a apuração, consultando entrevistas, documentos históricos e registros oficiais sobre o acidente, encontrei um detalhe pouco conhecido: Walter Mendes Ferreira é mineiro. A informação raramente aparece nas reportagens sobre o desastre, apesar de ele ter desempenhado um dos papéis mais importantes na contenção da contaminação.

Cesio-137
Série da Netflix sobre o Césio-137 resgata história do dono de ferro-velho e vítimas do acidente em Goiânia — Crédito: Netflix/Divulgação

Foi a partir dessa descoberta que a pauta tomou forma. Mais do que repercutir o sucesso da série, a proposta passou a ser apresentar aos leitores a trajetória do cientista, explicar sua atuação técnica e mostrar como um profissional de Minas Gerais ajudou a evitar que a tragédia tivesse proporções ainda maiores.

Herói mineiro em meio ao Césio-137

A trajetória do especialista, hoje com 73 anos,  ganhou os holofotes globais recentemente ao servir de inspiração para o personagem do ator Johnny Massaro na série “Emergência Radioativa”, sucesso de audiência na plataforma Netflix.

O ponto de virada do desastre aconteceu com a chegada de Walter Mendes Ferreira. Formado em física e com especializações pela Universidade de Buenos Aires e pelo Instituto Militar de Engenharia (IME), o mineiro portava um cintilômetro quando se aproximou do local.

“A cerca de 40 metros do local onde estava a peça, constatei que se tratava de material radioativo”, relembrou o físico em registros históricos.

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Walter Mendes Ferreira detectou risco do Césio-137 em Goiânia inspira série da Netflix — Crédito: Luana Avelar/SES-GO

O ponteiro do medidor disparou antes mesmo da proximidade física com o fragmento, confirmando o pior cenário. Imediatamente, Walter acionou a CNEN e deu início ao isolamento perimetral, bloqueando o avanço do contágio.

Em recente palestra realizada na universidade Unoeste, intitulada “Emergência Radioativa – trajetória profissional e atuação no Acidente com Césio-137 em Goiânia”, Walter relembrou o abismo tecnológico entre os anos 1980 e as ferramentas contemporâneas. Ele reforçou que, apesar da gravidade, o episódio trouxe avanços para a segurança radiológica nacional.

“Hoje você teria drone, inteligência artificial, equipamentos muito mais modernos para identificar áreas contaminadas. Na época, nós precisávamos chegar muito próximos das áreas para medir a radiação e recalcular tudo manualmente para evitar novas contaminações”, relembrou.

Leia Mais: Césio-137: físico que detectou risco em Goiânia é de Minas Gerais

Ao todo, o gerenciamento da crise demandou uma força-tarefa multidisciplinar com mais de 240 profissionais da CNEN e 133 especialistas parceiros, incluindo químicos, engenheiros, militares do Exército Brasileiro e da Força Aérea Brasileira, além do corpo médico do Hospital Naval Marcílio Dias.

“Tivemos médicos, engenheiros, químicos, físicos, jornalistas, militares e equipes de descontaminação. Foi um trabalho totalmente multidisciplinar”, contou.

Para o físico, o esforço conjunto foi o grande diferencial para mitigar os danos na época, em que a Universidade Federal de Goiás (UFG) monitorou mais de 110 mil pessoas.

“O acidente mostrou que nenhuma profissão trabalha sozinha. Foi uma construção coletiva que salvou vidas e se tornou referência para o mundo”, enfatizou.

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Rejeitos foram levados para depósito de chumbo e concreto em Abadia de Goiás que devem guardar materiais por 300 anos — Crédito: CNEN/Reprodução

Os resíduos gerados pelo acidente totalizam mais de 6 mil toneladas de rejeitos contaminados. Atualmente, o material está acondicionado em recipientes de chumbo e concreto em Abadia de Goiás, dentro do Parque Estadual Telma Otergal.

Estima-se que o perigo da radioatividade local só cessará completamente por volta do ano 2287, cumprindo o ciclo de 300 anos de isolamento. No local, funciona o Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro-Oeste (CRCN-CO), responsável pela vigilância ambiental contínua.

Ponto de vista jornalístico

Produzir esta matéria reforçou uma percepção importante: grandes histórias nem sempre estão escondidas, mas muitas vezes passam despercebidas.

Uma série de streaming despertou a curiosidade e a apuração revelou um personagem mineiro, cuja atuação foi decisiva em um dos maiores acidentes radiológicos da história mundial.

É justamente esse o papel do jornalismo, ir além da narrativa inicial, verificar informações, conectar fatos e apresentar ao leitor contextos que ajudam a compreender a dimensão dos acontecimentos.

Mais do que contar a história de um cientista, esta reportagem busca preservar a memória de um episódio que mudou protocolos internacionais de segurança nuclear e mostrar que o DNA mineiro também faz parte desse capítulo da história brasileira.

Esta é mais uma matéria da Série Bastidores da Informação, com reportagens especiais que celebram os 2 anos de história do Portal.

Continue navegando pelo Paranaíba Mais e relembre outras coberturas que marcaram nossa trajetória, mobilizaram Minas Gerais e ajudaram a contar alguns dos capítulos mais importantes da vida dos mineiros.