FALE em Uberlândia mantém acolhimento e pede apoio

Há 36 anos, instituição em Uberlândia acolhe pessoas com HIV e em situação de vulnerabilidade, oferecendo abrigo, cuidado e dignidade a quem não tem mais apoio familiar

, em Uberlandia

Fundada há 36 anos, a FALE em Uberlândia é uma instituição sem vínculos com o poder público que surgiu para acolher pessoas portadores do vírus HIV. A instituição possui uma casa que, hoje, também abriga pessoas em situação de vulnerabilidade. O local onde habitam 68 pessoas necessita de auxílio e de doações para continuar garantindo uma existência digna para pessoas doentes e que não possuem mais com quem contar. 

FALE em Uberlândia
Atualmente, a casa abriga mais de 60 pessoas, entre portadores do vírus HIV ou em outras condições de vulnerabilidade – Crédito: Ulisses Fernandes/ Paranaíba Mais

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A maior parte dos recursos que mantém a Fraternidade Assistencial Lucas Evangelista (FALE), que fica na Rua Pedro Quirino da Silva, 321, no bairro Nossa Senhora das Graças, vem de bazares realizados com roupas recebidas por doações. De acordo com os coordenadores, a instituição parou de pedir doações pela internet, pois golpistas passaram a utilizar da causa para retirar dinheiro de pessoas.

As doações podem ser feitas por PIX, no Cnpj da instituição: 23092331/0001-02

História da FALE em Uberlândia

Segundo os coordenadores, a instituição começou durante uma noite de sono de Jussara Meguerian, fundadora da casa e a quem chamam de Tia Jussara. Enquanto dormia, Jussara sonhou que fundava uma casa e criava uma instituição para pessoas doentes. A partir dali, ela começou a levar, para sua própria casa, pessoas que precisavam de abrigo e de ajuda, mas que estavam nas ruas.

 

reserva de alimentos vazia na FALE em Uberlândia
No início de maio, as reservas de verduras da FALE estavam praticamente vazias – Crédito: Ulisses Fernandes/ Paranaíba Mais

Com o tempo, o apartamento onde ela e o marido moravam não cabiam mais pessoas, e os vizinhos também não aceitavam tantos estranhos por perto. A própria comunidade ao redor do casal se mobilizou para conseguir uma casa, que no decorrer das décadas contou com expansões e adaptações para as pessoas que eram recebidas ali, feitas pelos próprios moradores. 

FALE em Uberlândia: um lugar de gratidão

Enquanto contava sobre a importância da instituição, o casal de coordenadores falava muito sobre quilos. A mulher conta que, quando chegou na FALE em Uberlândia, pesava apenas 20 quilos e o cabelo estava mal cortado. “Ele saía inteiro na minha mão. Quando você pegava o vírus do HIV, você perdia a sua dignidade, sua pessoa, sua família se afastava e seus próprios amigos também”.

Quando isso aconteceu, ela buscou um lugar onde era aceita. “Me afastei de quem era amigo próximo a mim, comecei a me envolver com a rodinha do álcool, que é de onde vem a pedra”.  Segundo ela, neste momento perdeu o direito à família, à uma moradia e achou que tinha perdido a possibilidade de ter ajuda.

Durante esta fase da vida, ela conta que acordou em um lugar extremamente sujo, momento que decidiu buscar ajuda. Procurou uma médica, a quem sempre pedia ajuda, que a levou até a casa de seus pais. Lá, ela recebeu carinho mas não o acolhimento que precisava, foi quando a doutora a levou até a FALE em Uberlândia.

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Refeitorio da FALE em Uberlândia
Refeitório que alimenta mais de 60 pessoas na FALE, em Uberlândia – Crédito: Ulisses Fernandes / Paranaíba Mais

Seu marido, também coordenador, era outro que falava em quilos. Morador da casa há 20 anos, conta que chegou ao local pesando apenas 35 quilos. O homem, forte e alto, diz que não acredita que chegou nesta situação. Ele já foi preso, e conta que quase morreu atrás das grades, onde descobriu ser portador do vírus. Saiu apenas porque, segundo ele, o diretor do presídio não queria que alguém morresse lá dentro e conseguiu um alvará de soltura. 

Depois de sair e conseguir se recuperar com sua família, conta que desistiu da vida diversas vezes. 

“Na época, saíam aqueles telefoninhos que tinham aquelas músicas do Guns N’ Roses. Só tinha música e tirava uma fotinha. Meu sobrinho me deu um telefoninho daquele e pôs uma música do Iron Maiden. Depois falou: ‘vou fazer o seguinte, eu vou levar o senhor pra um lugar onde só tem pessoas com o mesmo problema do senhor. Pro senhor parar com esse negócio de suicídio’”, contou. 

O coordenador conta que, quando chegou na FALE em Uberlândia, encontrou pessoas que mudaram a forma com que ele via a doença. 

“Aí eu cheguei, tinha um rapaz cego por causa da doença.  Ele andava escutando aquele funk ‘porque eu só quero é ser feliz’,  rindo e dando gaitada. Falei, esse cara tem HIV, esse cara tá ficando doido.  Aí eu olhei aquele cara dançando, olhei o outro também feliz. Fiquei babando, vi que aqui existe igualdade”. 

Ambos os coordenadores relatam que o impacto da casa em suas vidas foi além da existência, da comida e do abrigo. Ver pessoas portadoras do vírus vivendo saudáveis, reconstruindo suas vidas juntas, fez com que acreditassem que podiam superar os seus problemas.

Este impacto acompanha ambos no dia a dia, em que dedicam suas vidas para cuidar dos doentes que hoje se encontram no abrigo. Segundo eles, a gratidão por terem sido acolhidos no momento mais difícil de suas vidas é o que os move a acolher pessoas que hoje se encontram do mesmo jeito que estiveram um dia. 

Ao relembrar de histórias, surgiu em suas memórias a história de Veroca, uma travesti que morreu em casa em decorrência da doença e foi enterrada por colegas com quem dividia a moradia. “Nós fomos ‘caçar’ a família e ela não tinha. Não tinha amigos. Existia um telefone para contato em emergência, mas ninguém nunca atendeu. É tão engraçado isso, a FALE nos proporciona até um enterro digno”.