De torneiro mecânico a presidente pela 4ª vez: como Lula saiu das greves do ABC e construiu sua trajetória até o topo da política brasileira
Da fundação do PT às derrotas eleitorais, à prisão na Lava Jato e ao retorno ao Planalto, relembre os principais momentos da vida do pernambucano que se tornou um dos personagens centrais da política brasileira
Luiz Inácio Lula da Silva, de 80 anos, foi eleito presidente da República pela quarta vez neste domingo (25), após vencer o senador Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das Eleições 2026. Com 51,79% dos votos válidos e 64,2 milhões de votos, o petista protagonizou uma virada inédita desde a redemocratização e garantiu mais quatro anos no Palácio do Planalto, a partir de 2027.
De torneiro mecânico e líder sindical a presidente da República, Lula atravessou mais de quatro décadas de disputas eleitorais, conquistas políticas, crises judiciais e polarização.
Nascido em Pernambuco e criado em São Paulo, ele já governou o país entre 2003 e 2010 e voltou à Presidência em 2023. Ao fim do novo mandato, em 2031, terá acumulado 16 anos no cargo, período inferior apenas ao de Getúlio Vargas na história republicana brasileira.
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Das greves do ABC à fundação do PT
Lula nasceu em 27 de outubro de 1945, em Garanhuns, no interior de Pernambuco. Ainda criança, mudou-se com a família para São Paulo em busca de melhores condições de vida.
Antes de entrar na política, trabalhou como metalúrgico e se formou profissionalmente como torneiro mecânico. Sua projeção nacional começou no fim da década de 1970, quando assumiu a liderança sindical no ABC paulista, região que concentrava importantes indústrias automobilísticas.
Durante a ditadura militar, Lula liderou grandes greves de metalúrgicos entre 1978 e 1980. As mobilizações reivindicavam melhores salários e condições de trabalho e ajudaram a fortalecer o movimento sindical brasileiro.
Em 1980, foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT), criado com a participação de sindicalistas, intelectuais, trabalhadores rurais, militantes de movimentos sociais e setores da Igreja Católica.
A atuação sindical abriu caminho para a carreira eleitoral. Lula disputou a Presidência pela primeira vez em 1989, quando perdeu para Fernando Collor de Mello. Voltou a concorrer em 1994 e 1998, mas foi derrotado por Fernando Henrique Cardoso nas duas eleições.
A chegada à Presidência e os dois primeiros mandatos
A vitória veio em 2002, quando Lula derrotou José Serra, do PSDB, no segundo turno. A eleição levou ao Palácio do Planalto um ex-operário que havia construído sua trajetória política no movimento sindical.
Empossado em janeiro de 2003, Lula iniciou um governo marcado pelo aumento de políticas sociais, pelo crescimento econômico e pela valorização do salário mínimo.
Entre as principais iniciativas esteve a consolidação do Bolsa Família, programa de transferência de renda que reuniu benefícios sociais e ampliou o atendimento a famílias de baixa renda. O período também foi marcado pela expansão do crédito e pelo aumento do acesso ao consumo.

Em 2006, Lula foi reeleito ao derrotar Geraldo Alckmin, então no PSDB. No segundo mandato, o país registrou crescimento econômico e redução da pobreza, embora o governo também tenha enfrentado controvérsias políticas, como os desdobramentos do escândalo do mensalão.
Ao deixar a Presidência, em 2010, Lula tinha índices elevados de aprovação. Sua sucessora, Dilma Rousseff, venceu a eleição daquele ano com o apoio do presidente.

Lava Jato, prisão e anulação das condenações
Depois de deixar o governo, Lula continuou como uma das principais lideranças do PT. Sua trajetória, porém, foi afetada pela Operação Lava Jato, investigação sobre corrupção envolvendo contratos públicos e empresas, especialmente na Petrobras.
Em 2017, o então juiz Sergio Moro condenou Lula no caso do tríplex do Guarujá. A condenação foi confirmada em segunda instância, e o petista foi preso em abril de 2018, ficando cerca de 580 dias na prisão, em Curitiba.
A prisão impediu sua participação na eleição presidencial daquele ano. O PT lançou Fernando Haddad como candidato, que perdeu para Jair Bolsonaro no segundo turno.
Em 2021, o Supremo Tribunal Federal (STF) anulou as condenações de Lula por entender que a Justiça Federal de Curitiba não tinha competência para julgar os casos. Em outro julgamento, a Corte também reconheceu a parcialidade de Sergio Moro no processo do tríplex.
Com as decisões, Lula recuperou os direitos políticos e ficou apto a disputar eleições novamente. A anulação das condenações não equivaleu a uma absolvição de mérito em todos os processos.
O retorno ao poder em 2022
Em 2022, Lula voltou à disputa presidencial e enfrentou Jair Bolsonaro, que tentava a reeleição. A campanha ocorreu em meio à polarização política e às discussões sobre a condução da pandemia, a economia e os programas sociais.
Lula venceu o segundo turno com 50,90% dos votos válidos, contra 49,10% de Bolsonaro. A diferença foi de pouco mais de 2,1 milhões de votos.
Com o resultado, tornou-se o primeiro presidente brasileiro a conquistar três eleições presidenciais pelo voto direto. A vitória também marcou seu retorno ao Planalto após 12 anos fora do cargo.
O terceiro mandato, iniciado em janeiro de 2023, teve como prioridades a retomada de políticas sociais, o combate à fome, a reconstrução de programas públicos e a agenda ambiental. O governo também enfrentou desafios fiscais, dificuldades de articulação com o Congresso e uma oposição fortalecida.

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A virada histórica na eleição de 2026
A disputa de 2026 colocou Lula novamente diante de um candidato ligado ao bolsonarismo: o senador Flávio Bolsonaro, do PL. No primeiro turno, realizado em 4 de outubro, Lula terminou atrás do adversário e precisou reverter a diferença na etapa final.
A campanha ganhou força no segundo turno, com mobilizações nas ruas e nas redes sociais. O deputado federal André Janones (Rede-MG) teve atuação na estratégia digital, incluindo a mobilização de apoiadores por meio do grupo de WhatsApp conhecido como “Exército de Lula”.
No domingo (25), Lula venceu com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro. O petista recebeu 64.256.232 votos, enquanto o adversário teve 59.826.041.
A vitória marcou uma virada inédita nas eleições presidenciais brasileiras desde a redemocratização: pela primeira vez, o candidato que terminou o primeiro turno em segundo lugar venceu a disputa no segundo.

O quarto mandato e o futuro político de Lula
Lula completará 81 anos nesta terça-feira (27), dois dias depois da vitória eleitoral. Ele será o presidente mais velho a iniciar um mandato no Brasil.
A posse está marcada para 5 de janeiro de 2027. O novo governo terá pela frente desafios econômicos, sociais e políticos, além da necessidade de construir apoio no Congresso Nacional para aprovar suas propostas.
Pelas regras constitucionais atuais, Lula não poderá disputar uma reeleição consecutiva em 2030, depois de exercer o mandato iniciado em 2027. Assim, o período será, salvo mudança nas regras ou em sua trajetória política, sua última passagem pela Presidência.
Um personagem central da política brasileira
A trajetória de Lula conta com transformações importantes da história recente do país: a reorganização do movimento sindical durante a ditadura, a criação de um partido de origem trabalhista, a chegada de um ex-operário à Presidência, a expansão de políticas sociais, a prisão no contexto da Lava Jato e o retorno ao poder pelas urnas.
Ao longo de mais de quatro décadas, Lula firmou uma base política expressiva e se tornou uma figura que mobiliza tanto apoiadores quanto críticos. Sua quarta eleição presidencial aumenta uma marca histórica e abre uma nova etapa de um percurso que se confunde com a própria evolução da política brasileira desde a redemocratização.
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