Congresso derruba veto de Lula ao PL da Dosimetria

Congresso derruba veto ao PL da Dosimetria e abre caminho para reduzir penas de condenados pelos atos de 8 de janeiro, após votação expressiva nas duas Casas

, em Uberlandia

O Congresso Nacional derrubou, nesta quinta-feira (30), o veto presidencial ao PL da Dosimetria e alterou o cenário jurídico para condenados por tentativa de golpe de Estado ligados aos atos de 8 de janeiro de 2023. A decisão foi tomada após votação ampla no Senado e na Câmara dos Deputados, consolidando uma mudança relevante na forma de cálculo das penas.

O plenário da Câmara dos Deputados votou, nesta quinta-feira (30), pela derrubada do veto integral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao PL da Dosimetria
O Parlamento analisou, nesta quinta-feira (30), o PL 2.162, que reduz a pena dos condenados por tentativa de golpe de Estado ligados ao 8 de janeiro de 2023 – Crédito: Lula Marques/Agência Brasi

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No Senado, 49 parlamentares votaram pela derrubada do veto, enquanto 24 se posicionaram contra. Já na Câmara, 318 deputados apoiaram a medida, contra 144 votos contrários e cinco abstenções. O resultado superou com folga o mínimo necessário nas duas Casas, garantindo a reversão da decisão do Executivo.

O que é o PL da Dosimetria

O chamado PL da Dosimetria propõe mudanças na forma de aplicação das penas para crimes contra o Estado Democrático. Pelo texto, quando houver prática simultânea dos delitos de tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito e golpe de Estado, não haverá soma das penas. Nesses casos, passará a prevalecer apenas a punição mais grave.

A proposta tem como eixo central a revisão dos critérios de cálculo das penas, ajustando tanto os limites mínimos e máximos previstos quanto a forma como elas são definidas na prática.

Na avaliação de especialistas, esse novo modelo pode impactar diretamente processos ligados aos atos de Ataques de 8 de janeiro de 2023, podendo beneficiar réus e condenados. Entre os nomes frequentemente citados estão o ex-presidente Jair Bolsonaro, além de militares e ex-integrantes do governo, como Almir Garnier, Paulo Sérgio Nogueira, Walter Braga Netto e Augusto Heleno.

Congresso Nacional e a queda do veto 

A tramitação do PL da Dosimetria ganhou prioridade na sessão, sendo incluída como pauta única, à frente de mais de 50 vetos que aguardavam análise. Antes da votação, o presidente do Congresso Nacional, Davi Alcolumbre, decidiu dividir o conteúdo do veto e retirou trechos que poderiam beneficiar criminosos comuns, especialmente no que se refere à redução do tempo para progressão de pena.

Ao justificar o veto ao PL da Dosimetria, o governo destacou um possível conflito com regras já estabelecidas pela chamada Lei Raul Jungmann. Enquanto essa norma endurece a progressão de regime para integrantes de organizações criminosas violentas e autores de crimes graves, o projeto vetado abriria espaço para acelerar esse benefício em diferentes situações.

Na avaliação do Executivo, essa divergência poderia impactar diretamente a punição de delitos como feminicídio, estupro e formação de milícia privada. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, afirmou que o cenário representaria um retrocesso no enfrentamento à criminalidade e contrariaria decisões recentes do próprio Congresso Nacional.

Segundo ele, a divisão do veto em partes permitiria ajustar os dois entendimentos, preservando o objetivo das legislações e evitando que trechos considerados prejudiciais, especialmente os relacionados à Lei Antifacção, comprometam o combate ao crime organizado e à violência contra a mulher.

A decisão de fatiar o veto gerou contestação por parte do governo. Lideranças governistas argumentaram que não há previsão legal para esse tipo de procedimento em casos de veto integral. Mesmo assim, o recurso apresentado foi rejeitado, permitindo a continuidade da votação nos moldes definidos pela presidência do Congresso.

O líder do governo na Câmara, deputado Pedro Uczai (PT-SC), criticou a aprovação do PL da Dosimetria e afirmou que a medida fragiliza a resposta do Estado diante de ataques à democracia. Ele também relembrou a existência de uma suposta trama que incluía planos contra autoridades eleitas, destacando que o debate ultrapassa disputas ideológicas e envolve a defesa do regime democrático.

Em sentido oposto, parlamentares favoráveis à proposta defenderam que a mudança corrige distorções no julgamento dos envolvidos nos atos golpistas. O relator do projeto, senador Espiridião Amim (PP-SC), afirmou que a decisão representa um passo em direção à justiça e à pacificação política no país.

Controvérsias do PL da Dosimetria

O projeto altera a lógica de dosimetria penal ao ajustar tanto os limites mínimos e máximos das penas quanto a forma como elas são calculadas. Na prática, isso pode beneficiar diretamente figuras investigadas ou condenadas no contexto da tentativa de ruptura institucional, incluindo lideranças políticas e militares citadas nas investigações.

O veto presidencial havia sido justificado com base na inconstitucionalidade da proposta e no risco de enfraquecimento da proteção à ordem democrática. O governo avaliou que a mudança poderia incentivar novos ataques às instituições e representar um retrocesso no processo de consolidação democrática do país.

Mesmo com esse posicionamento, o Congresso optou por reverter o veto e validar o PL da Dosimetria, aprofundando o embate entre Legislativo e Executivo sobre o tema. A decisão reacende o debate sobre os limites da punição em casos que envolvem ameaças ao Estado Democrático de Direito e coloca em evidência divergências sobre justiça, proporcionalidade e estabilidade institucional.