Relembre a trajetória de Benito di Paula e como ele reinventou o samba com seu piano e músicas românticas
De “Retalhos de Cetim” a “Meu Amigo Charlie Brown”, cantor conquistou o Brasil com um estilo próprio, misturou samba e romantismo e se tornou um dos nomes marcantes da música popular brasileira
Benito di Paula morreu neste domingo (18), aos 84 anos, em São Paulo, após enfrentar um câncer de próstata por cerca de um ano. Dono de sucessos como “Retalhos de Cetim” e “Meu Amigo Charlie Brown”, o cantor, compositor e pianista marcou a música popular brasileira ao unir o samba a melodias românticas e colocar o piano no centro de seu estilo. Sua trajetória atravessou décadas e conquistou milhões de fãs no Brasil e no exterior.
O artista estava internado no Hospital 9 de Julho, na capital paulista. A morte foi confirmada pela assessoria e familiares.
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Nascido Uday Vellozo, em 28 de novembro de 1941, em Nova Friburgo, na Região Serrana do Rio de Janeiro, Benito cresceu em uma família humilde com 13 irmãos. A música fez parte de sua vida desde a infância e se tornou o caminho para uma carreira que o transformaria em um dos nomes mais reconhecidos do samba popular brasileiro.
Como Benito di Paula começou na música
O contato de Benito com os instrumentos veio de casa. Seu pai, José Vellozo, trabalhava como ferroviário e era músico amador, com habilidades no piano, no bandolim e no violão. A mãe, Maria Schwenck, também incentivava o ambiente musical da família.
Ainda adolescente, por volta dos 16 anos, Benito começou a cantar em hotéis e boates de Nova Friburgo. Foi nessa época que adotou o nome artístico pelo qual ficaria conhecido.
A escolha aconteceu com a ajuda do amigo Alfredo Motta. Os dois chegaram ao nome Benito, e o cantor acrescentou “di Paula” para dar à assinatura artística uma sonoridade italiana.
Depois de passar pelo Rio de Janeiro, onde foi cantor em casas noturnas, ele se mudou para Santos, no litoral paulista. Mais tarde, estabeleceu-se na cidade de São Paulo, onde desenvolveu sua identidade musical e conquistou o grande público.
O piano e o estilo que diferenciavam Benito di Paula
Benito não seguia à risca o modelo do samba tradicional associado a artistas como Martinho da Vila e Paulinho da Viola. Em vez disso, criou uma sonoridade própria, marcada pela combinação de ritmos brasileiros, romantismo e influências latino-americanas.
O piano era o elemento central dessa identidade. Sem formação musical formal, o artista explorava o instrumento de maneira rítmica, aproximando suas batidas da percussão e dando às canções uma assinatura facilmente reconhecível.
Ele próprio gostava de se definir como “sambeiro” e “pianeiro”, expressões que resumiam sua maneira particular de fazer música.
A mistura de samba, samba-canção, bolero e elementos de jazz ajudou Benito a alcançar um público amplo. Suas letras sentimentais, os arranjos acessíveis e a presença marcante ao piano fizeram dele um dos artistas mais populares da década de 1970.
“Retalhos de Cetim” e os sucessos que marcaram os anos 1970
O primeiro álbum de Benito di Paula, lançado em 1971 pela gravadora Copacabana, apresentou seu trabalho ao mercado fonográfico. A consagração nacional veio dois anos depois, com “Retalhos de Cetim”, canção que se tornou um dos maiores marcos de sua carreira.
A partir de 1973, o cantor emplacou uma sequência de sucessos nas rádios e nos programas de televisão. Entre as músicas mais conhecidas estão:
- “Retalhos de Cetim”, de 1973;
- “Meu Amigo Charlie Brown”, de 1974;
- “Beleza que É Você, Mulher”, de 1974;
- “Mulher Brasileira”;
- “Do Jeito que a Vida Quer”, de 1976;
- “Assobiar e Chupar Cana”, de 1977;
- “Proteção às Borboletas”, de 1977.
As canções ajudaram a firmar a imagem de Benito como um artista capaz de unir melodias populares, letras emocionais e uma interpretação intensa.
O visual do cantor também se tornou parte de sua identidade. Cabelos longos, barba, correntes, anéis e gravatas-borboleta compunham uma imagem que ajudou a diferenciá-lo de outros artistas da época.
Benito di Paula vendeu milhões de discos e conquistou outros países
Entre os anos 1970 e o início da década de 1980, Benito viveu o auge comercial da carreira. Estimativas sobre sua trajetória apontam que ele vendeu mais de 50 milhões de discos, número que o coloca entre os artistas de grande alcance comercial da música brasileira.
Seu repertório também ultrapassou as fronteiras do país. Canções compostas por Benito foram gravadas por outros intérpretes, incluindo Roberto Carlos, Maria Bethânia e Alcione. Suas músicas ainda ganharam versões em idiomas como espanhol, italiano, francês e alemão.
A popularidade do cantor estava ligada à capacidade de transformar sentimentos cotidianos, desilusões amorosas e histórias pessoais em canções de fácil identificação com o público.
Essa combinação ajudou a manter suas músicas presentes na memória de diferentes gerações, mesmo depois que o artista deixou de ocupar o mesmo espaço nas paradas de sucesso.
O afastamento das grandes gravadoras e o retorno aos palcos
A partir da década de 1990, Benito di Paula se afastou das grandes gravadoras e passou a lançar menos trabalhos inéditos. Apesar disso, continuou realizando shows e mantendo contato com o público por meio de seus clássicos.
Em 2009, lançou um CD e um DVD ao vivo, retomando parte da atenção para sua obra.
A parceria com o filho, o músico Rodrigo Vellozo, marcou uma nova fase de sua carreira. Em 2021, aos 80 anos, Benito lançou o álbum O Infalível Zen ao lado dele.
Os dois voltaram a trabalhar juntos em 2023, com o EP Do Jeito que a Vida Quer, além de uma série de apresentações dedicadas aos clássicos do repertório do cantor.
A colaboração entre pai e filho aproximou gerações e mostrou a permanência das canções de Benito no cenário musical brasileiro.
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Homenagem no Carnaval de São Paulo
Em 2025, a história de Benito di Paula foi homenageada pela escola de samba Águia de Ouro, no Carnaval de São Paulo. O cantor participou do desfile em um dos carros alegóricos.
Na ocasião, ele classificou a homenagem como “o maior troféu que um artista pode receber”.
A celebração reconheceu a importância de sua obra e a influência que exerceu sobre a música popular brasileira ao longo de mais de cinco décadas de carreira.
Mesmo associado principalmente aos grandes sucessos dos anos 1970, Benito continuou sendo lembrado por sua maneira singular de interpretar o samba e pela relação afetiva que suas canções mantiveram com o público.
A relação com Nova Friburgo e o apelido de “homem da montanha”
Apesar de ter construído boa parte da carreira em São Paulo, Benito manteve uma ligação afetiva com Nova Friburgo, cidade onde nasceu e passou a infância.
Nos últimos anos, costumava se apresentar como “o homem da montanha”, referência a uma de suas canções, lançada em 1976, que aborda a saudade da Região Serrana do Rio de Janeiro.
A lembrança das origens ajudava a revelar um lado mais pessoal do artista, cuja trajetória começou longe dos grandes centros da indústria musical.
Benito deixa dois filhos e duas netas.
O legado de Benito di Paula para a música brasileira
A contribuição de Benito di Paula vai além dos sucessos que dominaram as rádios na década de 1970. Ao colocar o piano em primeiro plano e combinar o samba com melodias românticas, ele construiu uma identidade musical própria e ajudou a aumentar as possibilidades do gênero junto ao grande público.
Sua obra também é associada à trajetória do samba romântico e do pagode romântico que ganhariam força nas décadas seguintes, embora esses movimentos tenham desenvolvido características próprias.
A longevidade de suas canções demonstra a força de um repertório que atravessou mudanças na indústria fonográfica, no rádio e na televisão sem perder o vínculo com os ouvintes.
Benito morreu pouco mais de um mês antes de completar 85 anos. Deixa uma carreira marcada pela originalidade, pelo piano inconfundível e por músicas que continuam presentes na memória afetiva de diferentes gerações.
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