Veja os fatores que explicam chuvas e estragos na Zona da Mata

Especialistas apontam combinação de sistemas atmosféricos, relevo acidentado e solo saturado como motores da crise que atinge cidades da região

, em Uberlândia

-

As chuvas e estragos na Zona da Mata ganharam força nos últimos dias e colocaram cidades inteiras em alerta. O volume acumulado surpreendeu até especialistas e expôs fragilidades históricas da região. Em Juiz de Fora, entre os dias 19 e 24 de fevereiro, foram registrados 325 milímetros de chuva, sendo 137 milímetros concentrados apenas no dia 23, segundo dados da estação do Instituto Nacional de Meteorologia INMET.

 

 chuvas e estragos na Zona da Mata
Chuvas e estragos na Zona da Mata Mineira – Crédito: Reprodução/ Redes Sociais

O climatologista Eduardo Petrucci afirma que o cenário resulta da sobreposição de sistemas atmosféricos que atuaram ao mesmo tempo. “Fevereiro de 2026 para a Zona da Mata está muito acima do normal. Temos uma anomalia positiva de precipitação”, explica. Ele destaca a atuação da Zona de Convergência do Atlântico Sul, conhecida como ZCAS, que forma um corredor de umidade entre a Amazônia e o Sudeste, além da passagem e permanência de frentes frias no litoral.

Segundo Petrucci, uma área de baixa pressão no Atlântico também reforçou o transporte de umidade. “Estamos recebendo umidade do Norte, do Sul e do Leste ao mesmo tempo. Todos esses sistemas estão convergindo para a Zona da Mata mineira”, detalha. Com o solo já saturado, a água perde capacidade de infiltração e passa a escoar com mais velocidade, pressionando redes de drenagem e estruturas urbanas.

Chuvas e estragos na Zona da Mata têm relação direta com o relevo

O geógrafo Guilherme Corrêa chama atenção para a formação natural da região, marcada pelos chamados mares de morro. “É uma região com relevo ondulado a montanhoso, com declividades fortes. Quando você olha o horizonte, praticamente vê morro por todos os lados”, descreve.

As áreas mais antigas das cidades se concentram nos terraços fluviais, superfícies planas próximas aos cursos d’água. Em condições normais, esses locais não sofrem inundações frequentes. O problema surge quando o volume de chuva ultrapassa a capacidade de drenagem, o que causa o cenário de chuvas e estragos na Zona da Mata. “Se fosse 90 milímetros em oito horas talvez não acontecesse quase nada. Mas quando chega a 190 milímetros, isso extrapola a capacidade do solo e do canal de drenagem”, afirma.

Ele acrescenta que fatores como assoreamento, impermeabilização do solo e ocupação intensa das margens dos rios agravam o quadro. “A cidade foi construída espremendo o rio. Isso não dá mais certo”, alerta. Corrêa lembra ainda que a região já foi coberta por densa floresta atlântica e que a substituição por pastagens e outras atividades reduziu a capacidade natural de infiltração da água, colaborando para as chuvas e estragos na Zona da Mata.

 Chuvas e estragos na Zona da Mata refletem instabilidade atmosférica intensa

O geógrafo e climatologista William Borges aponta a formação de um cavado na atmosfera como elemento decisivo para o episódio mais recente. Esse mecanismo favoreceu o transporte de umidade da Amazônia em níveis médios da atmosfera e alimentou sistemas convectivos de grande escala.

📲 Siga o canal de notícias do Paranaíba Mais no WhatsApp

“Foi uma combinação perfeita para a formação de um sistema de mesoescala convectivo, que pode durar seis, doze horas ou mais”, explica. Esses sistemas mantêm chuva persistente e, dentro do evento, registram picos intensos em curto intervalo de tempo.

Borges destaca que Minas Gerais reúne características que aumentam a vulnerabilidade a extremos. “O estado está numa posição de transição entre massas de ar tropicais e sistemas frontais. Isso favorece tanto chuvas persistentes quanto temporais convectivos”, diz. Ele ressalta que eventos extremos, como as chuvas e estragos na Zona da Mata, não são novidade histórica, mas que a intensidade local e o impacto urbano variam conforme a ocupação e a infraestrutura.

Previsão mantém alerta na região

A tendência até o fim de fevereiro indica a chegada de outra frente fria, que deve manter o padrão chuvoso. Petrucci reforça a necessidade de cautela. “Temos que ter bastante cuidado, porque os processos continuam ativos e o solo já está encharcado”, afirma.

Especialistas apontam que o verão concentra os maiores volumes de chuva no Sudeste, mas reconhecem que a intensificação e a sobreposição de sistemas neste ano ampliaram os impactos. O desafio agora passa por adaptação urbana, revisão da ocupação em áreas de risco e fortalecimento das estruturas de drenagem para enfrentar novos episódios de chuvas e estragos na Zona da Mata.