Pirarucu gigante acende alerta sobre perigo de espécies invasoras nos rios da região
Especialista da UFU explica que o Pirarucu gigante pode desequilibrar o ecossistema da região, bem como outras espécies
No último domingo (23), uma pesca curiosa chamou a atenção da região: um trio de amigos abateu um pirarucu gigante no Rio Grande, entre os municípios de Frutal e Itapagipe. Com incríveis 124 quilos e 2,07 metros de comprimento, o peixe deu trabalho para o grupo por mais de 3 horas.

Apesar de curioso, o caso acende um alerta ambiental, já que o pirarucu é uma espécie invasora no Cerrado que está no topo da cadeia alimentar e pode causar um desequilíbrio ecológico na região. E ele não está só nessa invasão. O último levantamento feito por pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) na região do Triângulo Mineiro identificou 41 espécies invasoras nas bacias do Rio Grande e do Paranaíba.
Para entender o impacto desse fenômeno, a reportagem do Paranaíba Mais conversou com André Shclemper, doutorando e pesquisador pela UFU, com foco justamente em espécies invasoras.
O problema: um pirarucu gigante fora do lugar
O pirarucu, que em seu habitat natural na Amazônia é uma espécie com pesca controlada e até risco de extinção, se torna um predador com alto potencial destrutivo no bioma do Cerrado.
“O pirarucu é um peixe que come pato, come espécies nativas de marreco, sapo, rã, lagartos. O impacto não é só para os peixes,” alerta o especialista.
O pesquisador explica que o sucesso destas espécies em ambientes não nativos ocorre pela ausência de predadores naturais e por sua alta capacidade de adaptação e reprodução, como o cuidado parental agressivo do pirarucu e a reprodução anual da tilápia.
Espécies invasoras: como elas chegam?
As cinco espécies mais capturadas e consideradas mais problemáticas são:
- Tilápia-do-nilo e Tilápia rendalli (espécies africanas);
- Tucunaré Amarelo e Tucunaré Azul (nativas do Brasil);
- Guaru ou Barrigudinho (nativas do Brasil).
Segundo o pesquisador, as principais vias de introdução na região são:
- Fuga de pisciculturas: animais criados para consumo (como a Tilápia e o Pangasius) que escaparam por tanques-rede danificados ou represas particulares;
- Pesca esportiva: algumas espécies não nativas são introduzidas para fomentar a pesca esportiva durante todo o ano, mesmo em período de Piracema;
- Fuga de aquarismo: peixes ornamentais que ficam grandes ou agressivos (como o Pirarucu) e são soltos irresponsavelmente.
André ainda destaca que a presença desses peixes é muito maior em ambientes alterados, como represas hidrelétricas e artificiais. “Em locais como Capim Branco, nas nossas coletas, 70% a 80% de todos os peixes capturados são invasores. Isso é um indicador péssimo de qualidade ambiental”, afirma.

Parque do Sabiá: um exemplo urbano
Mesmo dentro do perímetro urbano de Uberlândia, o problema é visível. O lago do Parque do Sabiá é um repositório de espécies invasoras, principalmente Carpas Asiáticas, Tucunarés, Tilápias, além de diversos peixes de aquário. “A maioria hoje dos peixes presentes no Parque do Sabiá não são peixes nativos do Cerrado,” garante André.
O impacto silencioso no ecossistema
O doutorando enfatiza que os peixes invasores causam muito prejuízo ao sistema ecológico das águas. Ele explica que algumas outras espécies de animais podem receber mais destaque devido aos estragos visíveis que causam, como o Javali, mas reforça que peixes não nativos são a maior causa de extinção da fauna aquática no Brasil.
Os principais perigos incluem a extinção das espécies nativas, já que os invasores competem por alimento e comem os peixes menores, a base da cadeia alimentar.
Também prejudicam os ninhos, como a Tilápia, que destrói tocas naturais usadas por Cascudos e Bagres e revira o fundo dos rios, alterando a concentração de nutrientes na água.
Por fim, essas espécies invasoras também funcionam como disseminadores de doenças entre os peixes nativos.
Falta de conscientização
O pesquisador esclarece que, quando uma espécie é considerada invasora, isso não proíbe a criação, mas altera o manejo. Para ele, o maior desafio para conter este problema é a falta de conscientização.
“A população acha que o Pirarucu é do Brasil, então pode ter no Brasil inteiro; que compra Tilápia no mercado, então não deve ter problema ter nas águas daqui”, lamenta André.
O especialista explica que a diversidade de espécies é o que mantém o equilíbrio: a predominância de uma única espécie, como a Tilápia, é um sinal de desequilíbrio e perda da característica natural daquele ambiente.
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Apelo aos pescadores
Como medida de controle, o André faz um apelo direto à população, especialmente aos pescadores. “Se você pescou uma espécie invasora, não importa o tamanho, descarte”, afirma o pesquisador. Ele informa que o ato de pescar e soltar um invasor é um crime ambiental, pois reintroduz o animal no ambiente.
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Reversão: um futuro distante
Sobre a possibilidade de reverter a situação, André é cauteloso. “Até hoje, em nenhum dos países onde houve problemas com espécies invasoras tem registro de reversão completa do desequilíbrio,” explica.
O objetivo atual da ciência é o manejo, impedindo principalmente a introdução de novas espécies e tentando frear a dispersão das 41 já existentes na região, por exemplo. A busca por vetores biológicos (doenças que ataquem apenas os invasores) é uma linha de pesquisa, mas ainda incipiente e com custos muito elevados.
A melhor perspectiva, por enquanto, é o engajamento social. “O ideal hoje seria que a população tivesse consciência de não soltar mais [peixes invasores] e de, quando pescar uma espécie dessa, tirar”, reforça o pesquisador.