UFMG pede desculpas por ter usado corpos do ‘Holocausto Brasileiro’

Universidade reconhece uso de corpos de vítimas do Hospital Colônia de Barbacena em aulas e anuncia medidas de reparação histórica

, em Uberlandia

Nesta quinta-feira (9), a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), após atuação do Ministério Público Federal (MPF), formalizou um pedido público de desculpas à sociedade brasileira pelo uso de cadáveres de pacientes do Hospital Colônia de Barbacena em suas atividades de ensino, durante o século XX.

UFMG pede desculpas por uso, no século XX, de cadáveres de Barbacena em suas atividades de ensino
Bandeira da UFMG com o prédio da Reitoria ao fundo. Crédito: Lucas Braga/UFMG

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A medida do MPF faz parte de um conjunto de ações para reparar simbolicamente as vítimas de uma das mais graves violações de direitos ocorridas no Brasil e no sistema psiquiátrico brasileiro. A apuração foi realizada por meio de um inquérito civil público, aberto com o objetivo de identificar responsabilidades e adotar medidas de reparação ligadas à antiga política de internações compulsórias em Barbacena.

De acordo com as investigações, pessoas que morriam no hospital, muitas vezes sepultadas como indigentes, tinham seus corpos destinados à venda para instituições de ensino médico, onde eram utilizados em aulas de anatomia.

Um levantamento publicado no livro Holocausto Brasileiro, da jornalista Daniela Arbex, indica que 1.853 corpos de pacientes do Hospital Colônia, o maior do gênero, eram comercializados, entre 1969 e 1981, para atender à demanda das aulas de anatomia de 17 instituições de ensino médico. 

Segundo o MPF, “registros históricos indicam que a Faculdade de Medicina da UFMG foi uma das principais adquirentes, com centenas de corpos registrados, especialmente a partir da década de 1960”.

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Como parte dos compromissos assumidos, a UFMG prevê a realização de uma cerimônia pública, além de incorporar às disciplinas de Anatomia e História da Medicina conteúdos que abordem as violações de direitos humanos na área da saúde mental, incluindo o contexto da aquisição de corpos.

A instituição também anunciou a implantação de espaços de memória em três setores da Faculdade de Medicina, com o objetivo de preservar e dar visibilidade a esse passado. Outra medida envolve a recuperação do livro histórico que registra a entrada de cadáveres, documento que reúne nomes e a procedência de pessoas vindas de Barbacena e que será submetido a processos de restauração e conservação.

Segundo o MPF, “a reparação simbólica é um passo fundamental para as famílias das vítimas e para a sociedade. O caso do Hospital Colônia, frequentemente chamado de ‘Holocausto Brasileiro’, resultou na morte de mais de 60 mil pessoas em condições desumanas e degradantes”.

Pedido de desculpas da UFMG

Em seu canal oficial, a universidade declarou de forma pública seu pedido de desculpas, e admitiu a prática de ensino. Em declaração assinada no dia 18 de março, a então reitora Sandra Goulart Almeida reconhece que “o hospital Colônia de Barbacena e outras instituições psiquiátricas de Minas Gerais foram palco de uma das mais cruéis violações de direitos humanos já praticadas no Brasil: a internação de pessoas de todas as idades por supostos transtornos mentais”.

“Em respeito ao direito à verdade, à justiça e à memória, a Universidade Federal de Minas Gerais pede desculpas à sociedade brasileira por essa prática que aviltou os corpos e a dignidade de pessoas falecidas no Hospital Colônia de Barbacena”, complementou a reitora.