Seleção do Irã vira símbolo da crise política no esporte

Ministro do Esporte afirma que seleção do Irã não participará do Mundial de 2026; regulamento da Fifa prevê que entidade decide eventual substituta

, em Uberlândia

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A seleção do Irã não deve disputar a próxima Copa do Mundo da Fifa. A declaração foi feita nesta quarta-feira (11) pelo ministro do Esporte do país, Ahmad Donyamali, em entrevista à televisão estatal. Apesar da fala oficial, o regulamento da entidade prevê que qualquer desistência será analisada diretamente pela federação internacional, que decide de forma exclusiva como proceder em casos desse tipo.

Seleção do Irã anuncia que não disputará a Copa do Mundo da Fifa
Seleção do Irã na Copa de 2018 – Crédito: Mahdi Zare/Fars News Agency

Segundo Donyamali, a equipe iraniana não viajará para o torneio. “Considerando que este regime corrupto assassinou nosso líder, sob nenhuma circunstância poderemos participar da Copa do Mundo”, afirmou o ministro.

O Mundial será disputado entre 11 de junho e 19 de julho, com partidas nos Estados Unidos, México e Canadá.

Seleção do irã e o impasse sobre participação na Copa

A declaração do ministro ocorre em meio ao aumento das tensões envolvendo o país. Donyamali afirmou que o cenário atual impede a presença da equipe no torneio.

“Nossas crianças não estão seguras e, fundamentalmente, não existem condições para participação”, disse o ministro durante a entrevista. Ele também criticou ações recentes contra o país e afirmou que milhares de iranianos morreram em conflitos recentes.

A seleção iraniana havia garantido vaga na Copa após liderar o Grupo A na terceira fase das eliminatórias asiáticas. Com 23 pontos, a equipe assegurou presença em sua quarta participação consecutiva no torneio.

No sorteio realizado em dezembro, os iranianos foram colocados no Grupo G, ao lado de Bélgica, Egito e Nova Zelândia. Os três jogos da equipe estavam programados para acontecer em território americano, sendo dois em Los Angeles e um em Seattle.

Seleção do Irã aumenta incerteza sobre grupo do Mundial

A possibilidade de a seleção do Irã não disputar a Copa já vinha sendo discutida nos bastidores, mas ganhou força após a manifestação pública do ministro. Mesmo assim, ainda não houve um comunicado formal da Federação Iraniana de Futebol à organização do torneio.

Na semana passada, o Irã foi o único país classificado para o Mundial que não participou de uma reunião de planejamento com seleções organizada pela Fifa em Atlanta. A ausência ampliou as dúvidas sobre a presença da equipe na competição.

No mesmo período, o presidente da entidade, Gianni Infantino, afirmou que discutiu o tema com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Segundo ele, o líder americano reiterou que a seleção iraniana seria bem-vinda para disputar o torneio no país.

Infantino declarou nas redes sociais que o futebol tem papel importante em momentos de tensão. Para ele, eventos como a Copa do Mundo ajudam a aproximar povos e culturas.

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Fifa tem autonomia para fazer substituição

Caso a desistência seja confirmada, a decisão sobre quem ocupará a vaga ficará nas mãos da Fifa. O regulamento do torneio dedica um artigo específico ao tema e estabelece que a entidade tomará a decisão conforme considerar necessário.

O documento prevê que, se uma associação desistir ou for excluída, a federação internacional pode substituir a seleção por outra equipe, sem definir previamente qual critério será utilizado para essa escolha.

Também existem penalidades financeiras para quem abandonar a competição. O regulamento prevê multa mínima de 250 mil francos suíços para desistências até 30 dias antes do início do Mundial. Se a retirada ocorrer dentro do período de um mês que antecede a abertura da Copa, o valor pode dobrar.

Além da multa, as seleções que desistirem devem reembolsar despesas relacionadas à preparação e à organização do torneio.

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Possíveis substitutas para a seleção do Irã

Entre as seleções que observam o desdobramento da situação estão equipes envolvidas na reta final das eliminatórias. O Iraque venceu os Emirados Árabes Unidos na fase de repescagem asiática e garantiu lugar nos playoffs mundiais.

O adversário nessa disputa sairá do confronto entre Bolívia e Suriname, que se enfrentam dias antes. Uma das hipóteses é que a equipe vencedora desse caminho possa ser considerada caso surja a necessidade de preencher a vaga.

Os Emirados Árabes Unidos também aparecem entre os países atentos ao cenário, já que ficaram logo atrás na disputa asiática.

Mesmo com as especulações, o regulamento deixa claro que a decisão final cabe exclusivamente à Fifa, que só definirá os critérios caso seja necessário escolher uma nova seleção para o torneio.

Asilo de jogadoras da seleção feminina na Austrália

A crise envolvendo o futebol iraniano ganhou novos contornos após o caso da seleção feminina do país. A delegação deixou a Austrália nesta terça-feira(10) sem cinco jogadoras que solicitaram e receberam asilo político das autoridades locais.

As atletas foram chamadas de “traidoras” pela televisão estatal iraniana depois de se recusarem a cantar o hino nacional antes de uma partida da Copa da Ásia, atitude interpretada como protesto contra o regime. Entre as jogadoras que permaneceram no país está a capitã Zahra Ghanbar.

A delegação embarcou em Sydney com destino ao Irã fazendo escala em Kuala Lumpur, na Malásia. No entanto, o grupo retornou ao país sem as cinco atletas que tiveram o pedido de asilo aprovado na segunda-feira.

O episódio ampliou as preocupações sobre possíveis represálias contra integrantes da equipe que demonstraram insatisfação com o governo iraniano, aumentando ainda mais o clima de tensão envolvendo o futebol do país.

Autoridades australianas também confirmaram que outras duas integrantes da delegação tentaram solicitar proteção. A atacante Mohaddeseh Zolfi e a integrante da comissão técnica Zahra Soltan Moshkehkar receberam ajuda da polícia para se afastarem do restante do grupo e pedir asilo.

Uma delas, porém, voltou atrás na decisão após conversar com companheiras e decidiu retornar ao Irã. Segundo o ministro do Interior da Austrália, Tony Burke, as demais jogadoras que permaneceram no país foram levadas a um local seguro após o grupo ter sua localização revelada à embaixada iraniana.

Outros casos de desistência

Ao longo da história do torneio, episódios de desistência ou boicote ocorreram por diferentes motivos. Conflitos políticos, dificuldades financeiras e problemas logísticos estiveram entre as principais razões que levaram seleções a abandonar a disputa da Copa do Mundo em diversas edições, principalmente nas primeiras décadas do campeonato e no período posterior à Segunda Guerra Mundial.

Um dos casos mais lembrados ocorreu em 1950, quando a competição foi disputada no Brasil. Após se classificarem, Índia, França, Escócia e Turquia desistiram da participação. As razões foram variadas, incluindo custos elevados de viagem e questões internas nas federações.

Naquele período também ocorreram situações marcadas por contextos políticos, como a retirada da Áustria em 1938 após a anexação do país pela Alemanha Nazista. em 1966, seleções africanas decidiram boicotar as eliminatórias em protesto contra o sistema de classificação imposto pela entidade organizadora.

Outros episódios também marcaram a história do torneio. A Argentina optou por não participar da Copa de 1950 após divergências com dirigentes do futebol internacional, enquanto o próprio Irã ficou fora da edição de 1986 em meio à guerra entre Irã e Iraque.

Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, porém, é considerado extremamente raro que uma seleção que conquistou vaga em campo desista do Mundial, o que torna o caso atual da seleção do Irã uma situação incomum na história recente da competição.