Aluna faz história como primeira pessoa surda a se formar em Direito na UFU
Com trajetória de superação, Márcia Ferreira Porto concluiu o curso de Direito na UFU e se tornou a primeira aluna surda a se formar em 65 anos da faculdade
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Márcia Ferreira Porto, de 37 anos, tornou-se a primeira pessoa surda a se formar no curso de Direito da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). A conquista inédita marca a trajetória de inclusão na instituição, que completa 65 anos em 2025.
Ela enfrentou inúmeras barreiras desde o ingresso no curso em 2020, após ser surpreendida com uma excelente nota na redação do Enem 2019. O que começou como uma simples curiosidade se transformou em uma jornada repleta de desafios e superações.
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Desafios da acessibilidade no ensino superior
Durante os primeiros períodos, Márcia vivenciou de perto a fragilidade da acessibilidade nas universidades. A ausência de intérpretes de Libras nas aulas presenciais e, posteriormente, no ensino remoto, dificultou o processo de aprendizagem.
“Eu chorei muitas vezes porque queria estar nas aulas, mas sem acessibilidade era impossível compreender o conteúdo. O sistema caía, e havia poucos intérpretes disponíveis. Às vezes, eu só tinha acesso à tradução duas vezes por semana”, relata Marcia Porto.
Além disso, muitos professores não tinham preparo técnico ou conhecimento sobre estratégias pedagógicas inclusivas. Com paciência e resiliência, ela ajudou a transformar esse cenário, construindo pontes de diálogo com docentes e coordenação.
Rede de apoio foi essencial
Apesar das dificuldades, Márcia contou com o apoio de colegas e intérpretes como Nathália Scalabrine e Letícia Leite, que participaram ativamente de sua trajetória acadêmica. “Criamos laços verdadeiros. Eles me acolheram, respeitaram meu tempo e entenderam minha forma de aprender”, diz a formanda.
Segundo Nathália, a formatura também foi uma realização profissional, após acompanhar a aluna ao longo dos cinco anos da graduação.
“Além do marco histórico para a universidade, reconheço que eu e meus colegas intérpretes cumprimos com excelência nossa mediação inclusiva, gerando bons frutos”, afirmou. Ao longo do curso, Nathália esteve presente em diferentes momentos da jornada, acompanhando a estudante em seminários, estágios, avaliações e até em eventos festivos da vida acadêmica.
Intérprete há sete anos na UFU, Nathália também compartilhou um pouco da rotina dos profissionais responsáveis por oferecer suporte aos alunos.
“Nosso trabalho de acessibilidade em Libras acontece em todas as aulas em que há alunos matriculados, além de reuniões de núcleo e colegiado com professores surdos, sempre com atuação em dupla. Fazemos revezamento a cada 20 minutos”, explicou. Ainda sobre o desempenho de Márcia, reforça que a aluna “foi muito comprometida e dedicada”. Mesmo conciliando os estudos com o trabalho, não se lembra de ausências em aula.
Conquista que abre caminhos
A graduação de Márcia não representa apenas uma vitória pessoal, mas um marco institucional. A diretora da Fadir, Luciana Zacharias, afirma que o feito reforça a importância da inclusão no ensino superior. “A trajetória de Márcia mostra que promover o direito à educação com dignidade e respeito é possível”, destaca.
Segundo a Divisão de Acessibilidade e Inclusão da UFU (Dacin), atualmente 70 alunos com deficiência auditiva estão matriculados na graduação. Ainda assim, o número de estudantes surdos que concluem o ensino superior no Brasil é extremamente baixo, apenas 0,5% dessa população chega à universidade, segundo dados do IBGE.
Futuro com foco na inclusão
Após a colação de grau, realizada no dia 19 de julho de 2024, Márcia já traça os próximos passos: pretende cursar pós-graduação e se preparar para o exame da OAB. Ela sonha em atuar nas áreas de Direito Ambiental, Sustentabilidade ou Direito Médico Hospitalar.
“Quero levar minha história para outras pessoas surdas. Mostrar que é possível, sim, ocupar espaços que antes pareciam inalcançáveis. A minha luta não termina com o diploma: ela está apenas começando”, afirma.