Crise hídrica em Uberlândia? Consumo diário chega a 300 litros por pessoa em 2025

Mesmo após atravessar um dos períodos de estiagem mais prolongados dos últimos anos e registrar aumento no consumo, cidade dribla crise hídrica

, em Uberlândia

Após enfrentar mais de 70 dias consecutivos sem chuva em outubro e consumo elevado, com média de 300 litros de água por habitante entre agosto e setembro, Uberlândia voltou a colocar a crise hídrica no centro do debate em 2025. Mesmo diante do cenário climático adverso, o abastecimento foi mantido sem interrupções, segundo o Departamento Municipal de Água e Esgoto (Dmae), através de investimentos em obras estruturais, planejamento de longo prazo e monitoramento dos mananciais.

Crise hídrica em Uberlândia
Uso consciente segue essencial mesmo com cenário hídrico considerado seguro em Uberlândia – Crédito: Freepik/Reprodução

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Uberlândia mantém um dos maiores índices de uso de água per capita do país. O consumo médio diário por habitante subiu, passando de 273,38 litros em 2024 para 275,05 litros em 2025.  Segundo levantamento do Dmae, em agosto e setembro deste ano, a média ultrapassou os 300 litros diários, quase três vezes acima da recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS), que orienta o uso de até 110 litros por dia.

Enquanto Uberlândia com aproximadamente 761.835 habitantes apresenta um consumo médio de 275 litros de água por pessoa ao dia, cidades de porte semelhante ou até maior registram índices significativamente mais baixos.

Conforme dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (Snis), Curitiba, capital do Paraná com cerca de 1,9 milhão de habitantes, consome em média 160 litros por habitante/dia.

Em Belo Horizonte, com 2,3 milhões de habitantes, o consumo médio de água per capita, por dia, é de aproximadamente 167,5 litros/habitante. Já João Pessoa, capital da Paraíba, com cerca de 840 mil habitantes, mantém um consumo ainda menor, em torno de 140 litros por pessoa ao dia.

O uso excessivo de água, seja em residências, indústrias ou na agricultura, drena rapidamente os reservatórios, lagos e lençóis freáticos, que não conseguem se reabastecer na mesma velocidade, especialmente durante períodos de seca.

Situação atual do abastecimento de água

Apesar do alerta, atualmente, Uberlândia apresenta um cenário considerado favorável de segurança hídrica. A capacidade de produção de água tratada do município chega a cerca de 4.200 litros por segundo, somando as três unidades produtoras: ETA Sucupira (1.100 l/s), ETA Bom Jardim (1.600 l/s) e ETA Capim Branco (1.500 l/s). Esse volume é suficiente para atender a demanda atual da população.

Entre janeiro e 12 de outubro de 2025, o volume total distribuído foi de 70,7 milhões de metros cúbicos, número semelhante ao do mesmo período do ano anterior.

O Dmae reforça que, com a entrada em operação da ETA Capim Branco e a interligação dos sistemas, a pressão significativa sobre o abastecimento em picos de calor e aumento de consumo foi reduzida.

Crise hídrica não afeta Uberlândia

Para que uma cidade seja oficialmente considerada em crise hídrica, é necessário decreto do poder público. Em Uberlândia, isso nunca ocorreu. O momento mais crítico foi registrado em 2014, quando uma estiagem prolongada, que afetou diversas regiões do país, provocou intermitência no abastecimento em bairros localizados em áreas mais altas. A situação foi tão crítica que a cidade precisou adotar um esquema de racionamento de água. 

Nos anos de 2019 e 2021, a cidade também vivenciou períodos de estiagem prolongada e baixa vazão nos rios que a abastecem (Rio Uberabinha, sistemas Bom Jardim e Sucupira), o que gerou alertas de desabastecimento e a necessidade de criação de um comitê de crise para debater medidas de consumo e uso consciente da água.

Em 2025, a estiagem voltou a chamar atenção quando atingiu 170 dias. A seca costuma atingir seu pico entre julho e agosto, quando as médias históricas de chuva se aproximam de 0 mm. No entanto, segundo o geógrafo William Borges, o comportamento climático deste ano foi atípico, com períodos alternando dias mais frios e mais quentes do que o padrão recente, além de chuvas fora do esperado em alguns momentos.

O especialista explica que, além da falta de chuva, o alto consumo per capita, quase o dobro do recomendado, segue como um dos principais desafios para o equilíbrio do sistema.

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Medidas e investimentos na cidade

Nos últimos anos, a Prefeitura de Uberlândia intensificou os investimentos para fortalecer o sistema de abastecimento. Desde 2017, mais de R$ 350 milhões foram aplicados apenas para garantir o fornecimento de água, dentro de um pacote que ultrapassa R$ 550 milhões em saneamento básico.

O principal marco foi a inauguração da Estação de Tratamento de Água Deputado Luiz Humberto Carneiro (ETA Capim Branco), em 2021, considerada uma das maiores obras de saneamento do país. Em sua primeira etapa, a unidade garante abastecimento para até 1,5 milhão de pessoas, com potencial de expansão para 3 milhões.

Outro avanço estratégico foi a implantação do anel hidráulico, que interliga as ETAs Sucupira, Bom Jardim e Capim Branco, permitindo manobras emergenciais sem comprometer o fornecimento. Em 2025, foi entregue a ampliação do Centro de Reservação São Jorge, que dobrou sua capacidade de 6 para 12 milhões de litros, beneficiando diversos bairros da cidade. Também está em construção o Centro de Reservação Grand Ville, com capacidade de 6 milhões de litros, voltado à região Leste.

Além da infraestrutura urbana, o município investe na preservação ambiental por meio do Programa Buriti, responsável pela recuperação de nascentes e áreas de preservação permanente. Até agora, foram protegidos mais de 7.600 hectares, com o plantio de 557 mil mudas e a construção de mais de mil barraginhas para favorecer a infiltração da água no solo.

Uso consciente continua indispensável

Mesmo com um sistema robusto, o Dmae reforça que a participação da população é fundamental. Entre as orientações estão reduzir o tempo de banho, evitar lavar calçadas com mangueira, reutilizar água sempre que possível e consertar vazamentos internos.

“O investimento em modernização e preservação ambiental é essencial para manter a segurança hídrica, mas o uso consciente deve ser permanente. Cada atitude individual faz diferença para garantir água hoje e no futuro”, destacou o diretor-geral do Dmae, Rodrigo Lacerda.