Prêmio Mulheres Negras que Movem a Terra homenageia 65 lideranças em Uberlândia
Evento antecipou as celebrações do Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e reuniu homenageadas de diferentes estados brasileiros
Histórias marcadas pela educação, empreendedorismo, esporte, comunicação e transformação social ganharam reconhecimento em Uberlândia nesta quarta-feira (22). A cidade sediou a 5ª edição do Prêmio Mulheres Negras que Movem a Terra, que homenageou 65 mulheres por suas contribuições em diferentes áreas. A cerimônia antecipou as celebrações do Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, comemorado em 25 de julho.
No Brasil, a data também marca o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. Das 65 homenageadas, 29 foram selecionadas entre representantes de diferentes estados brasileiros. Nesta edição, a premiação recebeu 390 histórias de mulheres interessadas em participar da categoria nacional.

Idealizadora do projeto, a empresária, comunicadora e mentora Alessandra Fabyane afirma que a iniciativa nasceu da necessidade de dar visibilidade a trajetórias que promovem mudanças, mas muitas vezes permanecem desconhecidas. “Eu também me sentia muito sozinha nos meus movimentos. Quando ouvi a história de uma mulher que superou barreiras e estava vencendo, pensei que aquilo precisava ser reconhecido e mostrado ao mundo.”
A primeira edição foi realizada em formato reduzido, com um coquetel para cerca de 30 convidados e a homenagem a sete mulheres. Desde então, o projeto cresceu, ampliou o número de participantes e passou a reunir representantes de diversas regiões do país. “Hoje temos mulheres do Acre, das regiões Sul e Sudeste e de Mato Grosso. Quando entendemos o que essas mulheres movimentam, não existe como não reconhecer. Muitas ainda estão guardadas nos ‘quartinhos dos fundos’, apesar de serem inspiração para tantas outras”, afirma Alessandra.

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Prêmio Mulheres Negras que Movem a Terra recebeu 390 histórias
A escolha das homenageadas regionais conta com a participação de mulheres reconhecidas em edições anteriores. Já na categoria nacional, as candidatas apresentam suas trajetórias por meio dos canais da União das Influencers e do Conexão Melanina.
Em 2026, o processo também contou com a atuação de embaixadoras do projeto. Segundo Alessandra, elas participaram da análise das 390 histórias inscritas e da seleção das 29 homenageadas nacionais.
A idealizadora afirma que o objetivo da iniciativa vai além da entrega de uma homenagem. A proposta, segundo ela, é fortalecer uma rede de reconhecimento e incentivar novas gerações a ocuparem diferentes espaços. “Todas as mulheres brilham, merecem e movem a terra. Que elas não se escondam. Se ainda não sabem da própria importância, que olhem para essas mulheres e se inspirem, porque podem chegar aonde quiserem”, declara.
Madrinhas destacam fortalecimento e representatividade
Entre as madrinhas da edição esteve Mariana Pinto, conhecida como Mariana da Grana. Educadora financeira e empresária, ela veio de Porto Alegre (RS) para participar da cerimônia e contribuir com a integração entre as homenageadas. “Uma das minhas tarefas é promover esse engajamento e mostrar, por meio da minha experiência como educadora financeira e empresária, que a mulher negra pode estar nesse lugar.”
A atleta e medalhista olímpica, Adenizia Ferreira, também participou como madrinha. Para ela, a premiação fortalece mulheres negras diante dos desafios ainda enfrentados no país. “A gente sabe o quanto é difícil ser mulher no Brasil e ainda mais ser mulher negra. Muitas portas se fecham para nós. Este é o momento de nos fortalecermos para continuar a caminhada.”
Homenageadas compartilham histórias de perseverança

Natural de Ituiutaba e moradora de Uberlândia há 40 anos, Graziela de Paula foi uma das homenageadas. Ela atua há 28 anos como cerimonialista e produtora de eventos sociais e corporativos.
Para Graziela, o reconhecimento também valoriza a história de sua família e reforça a importância da representatividade. “O prêmio enaltece a história das mulheres negras e torna evidente a importância de sermos valorizadas. Temos aqui mulheres empreendedoras, de diferentes trajetórias, vivendo um momento de ascensão.”
A representante de Sergipe, Ana Paula Silva, destaca o legado para as futuras gerações. Educadora social, comunicadora e empreendedora Ana é presidente e idealizadora do projeto Mulheres em Movimento, que completa 15 anos de atuação no estado. Sua atuação e relevância no território levaram ela a receber a homenagem.
Segundo Ana Paula, participar da premiação representa a continuidade de um legado construído por gerações de mulheres negras. “Estamos representando nossas ancestrais, que abriram os caminhos, e hoje reafirmamos essa presença. São mulheres de diferentes segmentos e lugares. Uberlândia está realizando um movimento plural.”
A empresária da beleza Luciana Nery Pereira veio do Rio de Janeiro para receber a homenagem. Ela atua há 26 anos no setor, principalmente com depilação, e também trabalha como educadora e instrutora na formação de novas profissionais. Para Luciana, o prêmio amplia a visibilidade das mulheres negras e cria espaço para a expressão cultural. “É uma forma de demonstrar a nossa cultura e a nossa liberdade, de nos expressarmos, aparecermos e sermos vistas em todos os lugares. Estou muito honrada em participar.”
A advogada Jéssica Souza também recebeu a homenagem. Única advogada da família, ela relata que enfrentou dificuldades para ingressar no mercado de trabalho, mesmo oferecendo atuar sem remuneração em escritórios.
Diante das dificuldades, passou a produzir conteúdo para a internet. Atualmente, reúne mais de 200 mil seguidores em uma de suas redes sociais, participa de palestras, ministra cursos de letramento racial e é autora de livros. “Essa premiação dá visibilidade às mulheres negras, algo que até pouco tempo seria inviável. Minha trajetória de muita perseverança, estudo e humildade me trouxe até aqui.”
Data reforça a luta por igualdade e reconhecimento
Celebrado em 25 de julho, o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha foi instituído em 1992, durante o 1º Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-Caribenhas, realizado em Santo Domingo, na República Dominicana.
O encontro reuniu representantes de diversos países para discutir o racismo, o sexismo e as desigualdades enfrentadas pelas mulheres negras, além de fortalecer a articulação internacional em defesa de direitos.
No Brasil, a data ganhou um novo significado em 2014, quando a Lei Federal nº 12.987 instituiu o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra.

Tereza de Benguela foi uma das principais lideranças quilombolas do século XVIII. Após a morte de seu companheiro, José Piolho, assumiu o comando do Quilombo do Quariterê, no atual Mato Grosso. Conhecida como Rainha Tereza, liderou por cerca de duas décadas uma comunidade formada por pessoas negras e indígenas que resistiam à escravização.
Realizada na semana em que é celebrado o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, a premiação reforça o reconhecimento a mulheres que promovem mudanças em diferentes áreas e mantém viva a memória de lideranças que enfrentaram o racismo, a desigualdade e o apagamento histórico.