Morre o ator de Jaspion aos 64 anos; entenda sua fama mundial

Hikaru Kurosaki, o ator de Jaspion, marcou gerações no Brasil dos anos 80 e ajudou a explicar por que o tokusatsu virou fenômeno mundial; entenda a história

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O ator de Jaspion, Hikaru Kurosaki, morreu aos 64 anos. A notícia foi divulgada pelo site japonês ZakII, do grupo Sankei, e depois confirmada por Masaki Sekiguchi, amigo do intérprete na cidade de Motobu, no Japão, para onde ele havia se mudado após deixar a carreira artística. A causa da morte não foi revelada. O sucesso da série, no Brasil e no mundo, reflete questões profundas da cultura japonesa e do processo de globalização.

Hikaru Kurosaki, o ator de Jaspion, morreu aos 64 anos
“O fantástico Jaspion”, série japonesa de tokusatsu estreou no Brasil em 1988 – Crédito: Reprodução/Redes Sociais

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Um colega de Kurosaki na Associação de Mergulho de Motobu divulgou o falecimento em uma rede social. Segundo o texto publicado, o ator morava sozinho na região havia mais de trinta anos e era reconhecido como um parceiro querido entre os profissionais locais de mergulho, atividade que ele abraçou depois de encerrar sua trajetória diante das câmeras.

A morte também foi lamentada por Hiroshi Watari, que interpretou o xerife espacial Boomerang ao lado de Kurosaki em Jaspion e dividiu com ele os palcos do Japan Action Club, grupo de acrobacias criado por Sonny Chiba. Em publicação nas redes sociais, Watari afirmou estar chocado com a notícia e recordou os aprendizados que teve ao lado do colega no Shinjuku Koma Theater e no set da série.

Quem foi o ator de Jaspion

Nascido em Osaka, Kurosaki iniciou a carreira como dublê e participou de produções como a versão japonesa de Homem Aranha (1978), além das séries Battle Fever J (1979) e Denshi Sentai Denjiman (1980). O primeiro papel de destaque veio na série de época Hattori Hanzô Kage no Gundan (1980), na qual interpretou diferentes personagens ao longo da trama. A atuação em episódios de Choudenshi Bioman (1984) chamou a atenção da Toei Company, responsável por convidá lo para protagonizar O Fantástico Jaspion, exibida entre 1985 e 1986.

O sucesso da série projetou Kurosaki internacionalmente e abriu espaço até para uma carreira musical, com o lançamento do álbum The Legendary Hero. Depois de um retorno pontual às telas na série Furikaereba Yatsu ga Iru, em 1993, o ator deixou definitivamente os holofotes. Passou por funções como vendedor de motocicletas e administrador de lanchonete antes de se tornar instrutor de mergulho e fundar a escola Mother Earth, em Okinawa. Ele foi casado com a atriz Yoko Asuka, que conheceu durante as gravações de Choudenshi Bioman e que morreu em 2011; o casal não teve filhos.

O que é o tokusatsu, gênero que revelou o ator de Jaspion

O termo tokusatsu define produções japonesas em live action, ou seja, com atores reais, marcadas pelo uso intenso de efeitos especiais. As raízes estéticas do gênero remetem ao teatro tradicional japonês, como o Kabuki, conhecido pelas cenas de luta, e o Bunraku, que usava marionetes como uma das primeiras formas de efeito visual do país.

O embrião narrativo do tokusatsu, porém, nasceu do trauma coletivo deixado pela Segunda Guerra Mundial e pelas bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki. Esse contexto deu origem ao subgênero conhecido como Hibakusha Eiga, voltado às vítimas da radiação, que serviu de base para o surgimento dos filmes de monstros gigantes, os chamados Kaiju Eiga.

 a resiliência e a popularidade global contínua de Godzilla resultam da sua fundação enraizada em tragédias nucleares profundas, aliadas a uma flexibilidade cinemática notável e a um formato cativante que absorve e reflete as ansiedades sociais e mudanças políticas em cada nova geração
A resiliência e a popularidade global contínua de Godzilla resultam da sua fundação enraizada em tragédias nucleares profundas, aliadas a uma flexibilidade cinemática notável e a um formato cativante que absorve e reflete as ansiedades sociais e mudanças políticas em cada nova geração – Crédito: Reprodução/Redes Sociais

O marco oficial do gênero aconteceu em 1954, quando o especialista em efeitos Eiji Tsuburaya e o diretor Ishiro Honda criaram Godzilla (1954), filme que funcionou como um manifesto contra o horror atômico. Como a técnica de stop motion tinha custo elevado na época, a dupla desenvolveu o suitmation, que combinava cenários em miniatura com um ator vestindo uma pesada roupa de borracha, fórmula que se tornaria padrão do gênero por décadas.

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Com o sucesso do monstro, os estúdios japoneses passaram a investir em heróis capazes de enfrentar ameaças gigantescas. Em 1957 surgiu Super Giant, primeiro super herói em live action do cinema japonês, seguido por Gekko Kamen, em 1958, e por National Kid, em 1960. A chegada da televisão em cores, na década seguinte, ampliou ainda mais o alcance dessas produções, culminando em séries como Ultraman, em 1966, e, já na década de 1980, na franquia Metal Hero, que teria em Jaspion (1985) um de seus maiores expoentes.

Por que o tokusatsu ficou famoso no Ocidente

Segundo Benny Chen-heng Yang, estudante de PhD  e graduado em economia política na National Cheng Kung University, em Taiwan, a popularização do tokusatsu fora do Japão combina fatores culturais e de mercado.

No seu texto “Porquê Godzilla? Os fatores para a fama global do Tokusatsu”, o autor defende que nos anos seguintes à Segunda Guerra Mundial, sobretudo na década de 1960, a indústria do entretenimento percebeu que o público estava cada vez mais jovem, o que levou o gênero a incorporar traços de super heróis voltados às crianças. A expansão dos subúrbios e a popularização das televisões e dos cinemas drive in permitiram ainda que essas produções fossem exibidas repetidamente a baixo custo, o que ajudou a consolidar uma base de fãs em escala global.

A distribuição internacional também foi decisiva. Ainda nas décadas de 1950 e 1960, um espectador americano tinha chance estatisticamente maior de assistir a um filme de Godzilla do que a uma obra do consagrado diretor Akira Kurosawa. Chen-heng Yang menciona uma pesquisa realizada nos Estados Unidos em 1985,  em que o Godzilla figurou entre os três personagens japoneses mais reconhecidos pelo público ocidental.

Outro fator apontado pela pesquisa é a flexibilidade temática do gênero. Por trás do entretenimento puro provocado por criaturas gigantes, as tramas absorviam debates sobre o medo da guerra nuclear, os danos da poluição industrial e a busca do Japão por sua identidade após a derrota na guerra. Já a dissertação de mestrado de Nordan Manz, defendida na PUC de São Paulo sob o título “Metáforas políticas no gênero tokusatsu”, reforça que essas histórias refletiam ainda o chamado milagre econômico japonês, quando o país viveu rápida industrialização acompanhada de forte degradação ambiental, temas presentes em séries como Ultraman (1966) e Spectreman (1971).

Jaspion e o fenômeno do ator no Brasil

No Brasil, O Fantástico Jaspion estreou em 1988 e se transformou em um fenômeno televisivo sem precedentes para o gênero, superando produções exibidas anteriormente por aqui, como National Kid (1960) e Ultraman (1966). A audiência da série chegou a superar a da Rede Globo, que na época contava com atrações consolidadas como o Xou da Xuxa, atingindo quinze pontos, um dos maiores índices já registrados pela Rede Manchete.

O impacto de Jaspion ajudou a abrir caminho para a importação de outras séries do gênero no país e consolidou o tokusatsu como parte da memória afetiva de uma geração de telespectadores brasileiros, que agora relembra o ator de Jaspion, Hikaru Kurosaki, como o rosto por trás de um dos maiores heróis japoneses já exibidos na televisão nacional.