Outra Tela

Críticas, informações e discussões sobre o mundo do cinema e streamings, assinadas por Vinícius Lemos!

 

Envelope

Para um filme de terror chegar ao topo, ele tem que ser extraordinário

Já reparou que vários dramas medianos ganham prêmios, mas quando se trata de um filme de terror, ele não pode ser apenas bom?

, em Uberlândia

-

Quantos filmes de drama medianos você viu ganhar prêmios como o Oscar?

Agora eu te pergunto: quantos filmes de terror já receberam a premiação de Melhor Filme no Oscar? Apenas um, O Silêncio dos Inocentes. E, particularmente, considero esse filmaço mais um suspense policial do que exatamente um terror ou horror.

Compare isso a casos como o de O Discurso do Rei, de 2010. No ano seguinte, ele bateria produções como A Rede Social, A Origem e Cisne Negro na premiação da Academia norte-americana de Cinema. Mas podemos ir além e citar CODA, Uma Mente Brilhante e Shakespeare Apaixonado. Não diria que se tratam de produções ruins, mas certamente estão longe de serem as melhores de seus respectivos anos em língua inglesa.

O fato é que, para um terror chegar ao topo, ele não pode ser apenas bom; tem que ser extraordinário. E olhe lá.

Volto a falar do gênero depois de citar aqui na coluna atuações femininas em filmes do tipo que não tiveram o devido reconhecimento.

 

O Silêncio dos Inocentes é o único terror vencer o Oscar de Melhor Filme – Crédito: Divulgação/MGM

Mas também poderia citar produções de fantasia ou ficção científica, que sofrem do mais puro preconceito por parte dos votantes.

Vejamos o que aconteceu com O Exorcista. Fenômeno de público e crítica em 1973 — e talvez o maior clássico do terror —, ele sofreu forte resistência do establishment cultural justamente por ser o que é. Na cerimônia do Oscar de 1974, O Exorcista recebeu 10 indicações, incluindo Melhor Filme, Diretor, Atriz e Ator Coadjuvante. Acabou perdendo o prêmio principal para Golpe de Mestre, também um sucesso de público e crítica, além de um longa bem mais ameno.

O que muitos historiadores do cinema defendem é que havia um viés estrutural. Muitos votantes da Academia simplesmente não enxergavam o terror como o tipo de obra que deveria representar o “melhor filme do ano”.

Tudo bem que, vez ou outra, produções parecem romper esse estigma. Mas, claro, a nomeação em si ou um prêmio de consolação parecem ser suficientes. Foi assim com O Sexto Sentido, em 2000, ou Corra!, em 2018. Mais recentemente, o gênero parece ganhar maior abertura, com a inclusão mais frequente de títulos como A Substância e Pecadores — interessante notar que este último é o filme com o recorde de indicações de todos os tempos, 16 ao todo.

E é importante dizer que o terror não se tornou mais relevante. As premiações é que finalmente começaram a olhar para ele.

Grandes filmes de terror sempre existiram, e eu poderia dizer que duas das mais importantes produções da década de 2010 foram terrores: A Bruxa (2015) e Midsommar (2019). Títulos que facilmente poderiam figurar em categorias distintas no Ocar, como Fotografia e Direção de Arte, além de atuações, direção, roteiro e, claro, Melhor Filme.

×

Leia Mais

Falo tudo isso também porque em 2025 não vi filme mais interessante ou ousado que A Meia-Irmã Feia, mas, por se tratar de horror corporal, chegou ao Oscar apenas por meio da indicação à maquiagem. Poderia ainda lembrar do caso de Faça Ela Voltar e como nele há uma experiência dramática marcante dentro de um terror que não alivia a mão. Como já disse, esse foi o primeiro terror que me fez chorar.

Só que estou me alongando. Quis voltar ao assunto depois das notícias sobre Obsessão e sua possível campanha para o Oscar de 2027, além da bilheteria que ele e Backrooms obtiveram recentemente. Além, é óbvio, do meu gosto pelo gênero.

Vinícius Lemos é jornalista e repórter da TV Paranaíba

*Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Paranaíba Mais