“Espaço para ser sem medo” e a cena artística que ainda resiste em Uberlândia

No Dia Nacional das Artes, artistas de Uberlândia discutem o amor e os desafios de viver da cultura em meio ao apagamento cultural local

, em Uberlândia

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“Sinto o friozinho na barriga todas as vezes que vou dançar. Nunca passou, mas não é mais medo: é mais uma expectativa de ir fazer o que eu mais amo.” É assim que a bailarina e professora Sofia Faleiros Garcia, de 22 anos, define a relação com a arte que molda sua rotina desde os 3 anos de idade.

Mas em Uberlândia, a vivência de Sofia se entrelaca com a tantos outros criadores que enfrentam diariamente os desafios de produzir e viver da cultura. “É difícil manter um espaço cultural e underground porque gera muito preconceito“, explica o artista visual e produtor cultural Ronaldo Botelho, co-gestor de um bar e ateliê cultural no Centro de Uberlândia.

Seja no palco ou nas ruas da cidade, o fazer artístico uberlandense hoje fala muito sobre resitir e ocupar espaços. Para marcar o Dia Nacional das Artes, comemorado nesta quarta-feira (12), o Paranaíba Mais ouviu quem vive e respira cultura na região.

artistas de uberlândia falam sobre cena artística na cidade
Dos palcos às ruas, cena artística de Uberlândia luta por espaço e respeito – Crédito: @sofiafaleirosg/@ateliecurva/Reprodução

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Arte como espaço para ser autêntico

Graduanda em Educação Física pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Sofia coleciona 19 anos de dedicação à dança. Para a jovem, a expressão corporal ultrapassa a técnica: é um refúgio de autenticidade.

“Ser eu mesma de verdade só consigo quando danço, porque mesmo quando quero expressar algo desconfortável e difícil, é o único lugar que sinto espaço suficiente para ser sem medo. A dança dá sentido para a minha vida, me preenche e eu não sei o que eu seria sem ela”, explica Sofia.

Coletivo de Uberlândia foi premiado por apresentação sobre João Gomes – Crédito: Arquivo pessoal/Reprodução

A bailarina viveu recentemente um dos momentos mais marcantes de sua trajetória durante o Festival Internacional de Dança de Goiás. Ela e os colegas de um coletivo de dança que reune dois grupos de dança de Uberlândia (Studio RJ e Cia de Dança Bittencourt) conquistaram o primeiro lugar com uma apresentação baseado na obra do cantor João Gomes.

“Nós não decidimos o tema, foram os diretores, mas quando recebemos foi uma surpresa. Os ensaios foram momentos incríveis, me arrisquei em uma modalidade que não tinha muita técnica e me diverti no processo. No dia da estreia, eu arrepiei dançando do início ao fim, sorri, me joguei, aproveitei. Sinto que tinha muito tempo em que eu não me entregava tanto em uma coreografia. A parte da premiação foi indescritível” , relembra.

Sobre o papel da dança na vida das pessoas, Sofia completa: “Diria que é uma das artes mais bonitas, te possibilita falar sem dizer uma só palavra e, se encontrar o lugar certo com as pessoas certas, vai ser o lugar mais seguro do mundo. Não tem tempo certo para dançar. Em qualquer momento a dança te abraça e recebe… é só dar uma chance.”

Espaço coletivo, consumindo e produzindo arte

Se nos palcos a dança encontra a plateia, no Centro da cidade a arte visual busca novos caminhos para se conectar com o público. E esse sentimento de conexão é o que move o Ateliê Curva, espaço aberto em maio de 2026 pelo artista visual e produtor cultural Ronaldo Botelho (conhecido por Fly) ao lado do parceiro Isaac (conhecido por Joga).

Ronaldo, que atua na gestão de espaços culturais independentes em Uberlândia desde 2014, explica que a criação do local veio da necessidade de unir frentes criativas. “A ideia básica é realmente juntar artistas, porque acho que um ambiente coletivo é muito fértil para a arte. As trocas, as pessoas se influenciando, trocando referência, técnicas e materiais. [O espaço] Veio dessa necessidade de conectar pessoas e de ser visto”, afirma.

Fly e Joga abriram o Ateliê Curva em 2026 – Crédito: @ateliecurva/Instagram/Reprodução

O produtor ainda relembra a transformação do Centro urbano ao longo dos anos, ressaltando o movimento de afastamento da cena cultural: “O Centro já foi vivo e pulsante até meados de 2017, mas rolou uma higienização, muita pressão de fiscalização e aluguéis cada vez mais altos, e isso espantou a cena cultural”.

Para Ronaldo, manter um espaço no Centro é quase uma ação de resistência em meio às dificuldades que a própria cidade impõe, mas também é uma de reocupar uma região que, em Uberlândia, por muito tempo foi sinônimo de cultura. “A nossa escolha foi justamente se manter no Centro, numa localização boa e de visibilidade, mas fora daquele miolo onde a vizinhança é um pouco mais intolerante. A gente queria um lugar que a gente gostasse de frequentar, então pensamos: é um boteco com arte, para ter essa atmosfera mais descontraída, mas com repertório criativo e responsabilidades”, explicou.

Cena artística de Uberlândia luta para renascer

Com eventos semanais que vão do jazz a feiras universitárias e encontros de grafite, como uma recente ação que reuniu quase 60 artistas de várias regiões nos muros da cidade, o Ateliê Curva busca a profissionalização do setor.

“Como a gente está fora do círculo das capitais, a gente tem que se virar e criar nossa cena. E para criar a cena não é apenas produzir, a gente tem que quase catequizar o público: ensinar a importância, a relevância de valorizar e consumir a arte local, porque senão todo mundo vai virando artista por hobby. O sonho é que a gente se mantenha e viva da própria arte”, enfatiza Ronaldo.

Espaço tem movimentado a cena artística no Centro de Uberlândia – Crédito: @efemerafotografia/Instagram/Reprodução

Entre os próximos projetos do ateliê está uma exposição coletiva prevista para 12 de setembro, reunindo 20 artistas de diferentes vertentes, de tatuadores a grafiteiros, pintando suportes em madeira de tamanho único para comercialização.

Ao analisar as dificuldades enfrentadas pelos espaços alternativos e independentes, Ronaldo reforça a importância da compreensão e do apoio direto da comunidade aos criadores da região. “A mensagem é ter empatia, e se possível consumir arte de quem produz. É difícil manter um espaço cultural e underground porque gera muito preconceito, às vezes a vizinhança implica com estilo mais alternativo, tatuagem”, explica.

Mas para além do respeito por quem vive de arte, o produtor ainda relembra da importância de incentivar, apoiar e estar lado a lado de quem fomenta a cultura underground de Uberlândia. “Se a pessoa valoriza o que está sendo feito, dá para fazer continuar acontecendo: quem conseguir comprar uma arte vai estar nos ajudando, quem puder colar para dar um suporte, já ajuda muito”, conclui.

E dentro desse cenário, é importante que a arte e a cultura não sejam lembrados apenas nas datas comemorativas. Acompanhar, frequentar e consumir o trabalho dos artistas locais é o caminho para manter a cena cultural da cidade ativa e forte. Por isso, para ficar por dentro de exposições, eventos e novidades da cena cultural em Uberlândia e na região, acompanhe o portal Paranaíba Mais.