Clipe do Gabriel o Pensador criado por agência de Uberlândia viraliza
Projeto não oficial do rapper ultrapassa 350 mil curtidas em cinco dias e coloca a inteligência artificial no centro do debate artístico
Um clipe do cantor Gabriel o Pensador, não oficial, da música “Festa da Música Tupiniquim”, tem viralizado nas redes sociais após sua publicação no início desta semana. Desenvolvido por uma empresa uberlandense, o vídeo, produzido a partir de inteligência artificial (IA), mostra encontros do cantor com seus ídolos, que acompanham a letra da canção. Com mais de 350 mil likes, o clipe representa uma nova forma do audiovisual no meio da música, e reacende o debate sobre arte e IAs.
A agência de marketing digital uberlandense responsável pelo vídeo é a Seven Content. Em entrevista ao Paranaíba Mais, Fábio Masson, um dos fundadores da empresa, conta que o clipe do Gabriel o Pensador surgiu de maneira despretensiosa. “O Gabriel já era um cliente nosso desde 2021. Quando surgiu aquela trend com I.A dos artistas encontrarem seus ídolos, fizemos um pro Gabriel pra ele postar também. Ele não gostou muito da trend, mas acabou sugerindo a ideia da gente tentar fazer com a música ‘Festa da Música Tupiniquim’”, contou Masson.
Para Masson, o uso da inteligência artificial é uma possibilidade para o meio artístico, pois se apresenta como um recurso que torna possível revisitar lugares, pessoas e materializar ideias que antes eram impossíveis de serem feitas. É o caso do clipe do Gabriel o Pensador, em que estão presentes artistas que já se foram, além de reunir pessoas que dificilmente estariam no mesmo local.
Inteligência artificial pode ser usada como arte?
“Na nossa visão, a IA não vem para substituir nenhum artista, pelo contrário, ela vem como um instrumento para que os artistas possam melhorar o seu trabalho. Eu sempre digo: a revolução da IA é humana. Pois, sem criatividade e ideias boas, ela apenas executa efeitos. Tanto é, que esse clipe foi totalmente idealizado de maneira humana, ele foi apenas viabilizado com IA. Eu não acredito que a IA irá substituir o poder criativo dos artistas, mas vai nivelar os artistas que souberem utilizá-la”, declarou o empreendedor por trás do clipe do Gabriel o Pensador.
Para o doutor em Linguagens Visuais (EBA/UFRJ) e professor substituto da UFU Eduardo Montelli, a inteligência artificial é uma forma de escritura, uma tecnologia de organização e uso de dados que pode acelerar os processos criativos e destrutivos. “ Não é só sobre o modo de ver, mas como as informações são processadas organicamente, como criam redes. Acredito que a história já provou que é possível fazer arte com tudo, então não penso que é diferente com IA”, afirmou Montelli.
Segundo o professor, as aplicações artísticas são múltiplas e devem ser pensadas por cada artista. A questão que parece estar surgindo é uma espécie de hierarquia entre um uso inútil e um uso útil. O que vale a pena gastar recursos naturais para criar? Alguns usos de IA são mais justos que outros? Quais são os critérios, e as regulações? A criação de textos, sons e imagens através de máquinas sempre foi algo importante na história da arte”, explicou.
Contudo, Montelli pondera que entende a revolta de determinados artistas, e aponta para a exploração das empresas de tecnologia a uma classe que já é precarizada. Segundo ele, artistas treinam, produzem muito e estudam mesmo tendo poucos recursos e reconhecimentos. E o uso da IA deve ser melhor pensado.
“Então lançam um robô-artista que, supostamente, faz tudo igual ou melhor que os humanos-artistas. Quem ganha o dinheiro dessa produção? As empresas da IA. Mas, a origem de tudo foi a produção de todos os artistas que alimentam os bancos de dados e que nunca vão ser remunerados. É algo revoltante”, conclui Montelli.
Sobre a empresa por trás do clipe de Gabriel o Pensador
A Seven Content têm 13 anos de história e foi fundada pelos irmãos Fábio Masson e Victor Barão. Filhos de publicitário e jornalista, começaram a atuar no mercado de marketing digital e de produção de conteúdo. Hoje, possuem mais de 20 clientes fixos, entre eles o Detonautas, o Gabriel o Pensador, a Thássia Naves e o Guaraná Mineiro.
“A ideia de abrir a agência surgiu quando tínhamos um canal no Youtube, o Scriptease TV, um canal de humor que já tinha 100 mil inscritos em 2013. Com isso, muitas empresas nos pediam ajuda para o marketing digital. Já éramos conhecidos como ‘os meninos do Youtube’. Vendo essa demanda, de empresas querendo estar nas redes, a gente fundou uma agência de marketing digital, focada em alavancar resultados de empresas no geral”, relembrou Masson.
A produção do clipe do Gabriel o Pensador não é a primeira vez que a Seven atua no meio musical. A empresa já produziu outros clipes para o artista, para os Detonautas, Pablo Vittar, além de DJs e duplas sertanejas da região. Apesar do sucesso do vídeo de inteligência artificial nas redes sociais, Masson alerta que não é um clipe oficial, mas um projeto paralelo voltado para as redes sociais do artista.