Classe artística se posiciona contra mudança de nome do Teatro Municipal de Uberlândia

Em carta-manifesto, a classe artística não questiona a importância da trajetória política de Odelmo Leão e aponta que o nome original faz parte da identidade da cidade

, em Uberlândia

A classe artística e cultural de Uberlândia divulgou uma carta-manifesto em defesa da manutenção do nome Teatro Municipal de Uberlândia, diante da previsão de votação, pela Câmara Municipal, do projeto de lei que propõe renomear o principal equipamento cultural da cidade em homenagem ao ex-prefeito Odelmo Leão.

No documento, divulgado no domingo (2), artistas, produtores culturais, professores, técnicos e representantes do setor afirmam que o manifesto não questiona a importância da trajetória política de Odelmo Leão nem se posiciona contra homenagens a personalidades que contribuíram para a história de Uberlândia.

“Teatro Municipal é um nome republicano, coletivo e comunitário. Ele afirma que o teatro pertence à cidade inteira, e não a uma pessoa específica, por mais importante que ela tenha sido. Além disso, esse nome faz parte da identidade de Uberlândia desde a inauguração do teatro. O espaço já é reconhecido, lembrado e amado por esse nome: Teatro Municipal; ele já tem um nome, não precisa de outro”, aponta o comunicado.

Teatro Municipal de Uberlândia e classe artística
Classe artística se posiciona contra mudança de nome do Teatro Municipal de Uberlândia – Crédito: Reprodução/ PMU

Na semana passada, o prefeito Paulo Sérgio enviou à Câmara Municipal de Uberlândia o projeto de Lei Ordinária nº 1281/2026 que denomina de Teatro Municipal de Uberlândia Odelmo Leão Carneiro Sobrinho o espaço cultural localizado na Avenida Rondon Pacheco, em Uberlândia.

Este tipo de proposição de lei não precisa passar por aprovação em plenário, basta ter o aval de uma comissão. A decisão ficará a cargo da Comissão de Legislação, Justiça e Redação da Câmara Municipal de Uberlândia, que envolve os vereadores Antônio Carrijo (PSDB), Ronaldo Tannús (PL) e Anderson Lima (DC). Conforme apuração do Paranaíba Mais, a votação pela comissão deverá acontecer entre quarta-feira (05) e quinta-feira (06).

Classe artística divulga manifesto

O principal argumento apresentado na carta-manifesto, segundo os signatários, é a preservação da identidade pública e coletiva do teatro.

Segundo o texto, a denominação “Teatro Municipal” representa um patrimônio simbólico da população e reforça o caráter democrático do espaço cultural. A classe artística defende que o equipamento pertence à toda a comunidade e que seu nome já faz parte da memória afetiva dos moradores desde a inauguração.

Carlos Guimarães, jornalista, produtor cultural e um dos responsáveis pelo manifesto disse que não há necessidade para mudanças no nome.  “O teatro não precisa ter o nome de alguém. Municipal já diz tudo. Trazer o nome de alguém deveria dizer algo que tenha a ver com o escopo do espaço. E, definitivamente, sem querer diminuir o ex-prefeito, não existem prerrogativas que justifiquem essa nomenclatura”, disse o produtor cultural em entrevista ao Paranaíba Mais.

Nome é comparado a teatros históricos

Para sustentar a posição, o manifesto cita exemplos de importantes instituições culturais que mantêm denominações institucionais, como o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, o Theatro Municipal de São Paulo, além do Théâtre de la Ville, em Paris, e do National Theatre, em Londres.

Os autores argumentam que preservar o nome “Teatro Municipal” reforça a ideia de que a cultura é construída coletivamente por artistas, técnicos, professores, trabalhadores e pelo público, em vez de estar associada a uma única personalidade.

“A insistência em nomear edifícios públicos com nomes de indivíduos expressa uma tradição personalista, em que a memória coletiva é frequentemente organizada em torno de figuras específicas. Preservar o nome “Teatro Municipal” é afirmar outra lógica: a de que a cultura é um patrimônio comum, construído por muitas gerações, artistas, técnicos, professores, espectadores e trabalhadores anônimos”, informa o comunicado.

Mudança por meio de naming right já estava em análise

Outro ponto destacado no manifesto é que já existe um processo em andamento para alterar parcialmente a denominação do teatro por meio de uma parceria com a iniciativa privada, por meio de naming rights.

Conforme o documento, a legislação que autorizou a captação de recursos prevê que uma empresa patrocinadora possa agregar sua marca ao nome do equipamento cultural, que passaria a utilizar o formato “Teatro Municipal + nome da empresa”.

Entretanto, segundo a classe artística, os critérios dessa parceria ainda não foram definidos em consenso entre a Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, o Conselho Municipal de Política Cultural (CMPC) e representantes do setor.

Diante desse cenário, os manifestantes consideram inadequado discutir uma segunda alteração antes da conclusão do primeiro processo.

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Vereador também debate mudança de nome

Desde que o projeto foi protocolado na Câmara, diversas manifestações, tanto de apoio quanto no sentido contrário, têm sido divulgadas nas redes sociais.

A possibilidade de nova denominação do Teatro Municipal também tem dividido a opinião dos vereadores. O vereador Fabão (PV) protocolou nesta segunda-feira (03) na Câmara Municipal um parecer jurídico sobre o projeto de lei que propõe a mudança do nome do Teatro Municipal de Uberlândia.

O documento aponta que, embora o município tenha competência legal para denominar próprios públicos, a proposta apresenta uma série de incompatibilidades de ordem material que justificam sua rejeição. De acordo com o documento, o primeiro ponto reconhecido é que o Município possui competência para atribuir nomes a bens públicos e que a iniciativa do Poder Executivo, em princípio, atende aos requisitos formais para tramitação. No entanto, o parecer afasta o entendimento de que o falecimento da pessoa homenageada seja suficiente para eliminar possíveis conflitos com o princípio da impessoalidade.

Segundo a análise, a extinção da personalidade civil não afasta automaticamente a necessidade de observar os princípios constitucionais que regem a administração pública.

Incompatibilidades apontadas

Entre as principais conclusões, o parecer afirma que o projeto apresenta incompatibilidades relevantes com diversos princípios constitucionais e administrativos, entre eles:

  • impessoalidade;
  • finalidade pública;
  • razoabilidade;
  • proporcionalidade;
  • eficiência;
  • economicidade;
  • pluralismo cultural;
  • participação democrática.

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Classe artística defende que homenagens podem ocorrer de outras formas

A carta-manifesto defendida pela classe artística e cultural ressalta que Uberlândia possui uma ampla história cultural construída por inúmeros artistas, pesquisadores, professores, músicos, atores, escritores e agentes culturais.

Os signatários defendem que homenagens sejam feitas por meio da criação de salas, galerias, festivais, prêmios, programas culturais ou memoriais, sem alterar o nome do principal teatro público da cidade.

O manifesto apresentou uma lista de nomes considerados relevantes para a cultura uberlandense, entre eles Iolanda de Lima, Lídia Meireles, Wagner Salazar, Guilherme Abrahão, Francisca Garcia de Souza (Dona Chiquinha), Maria Inês Mendonça (Vovó Cachimbó), Roberto Rezende, Edmar de Almeida, Lorival Pariz, Ironides Rodrigues, Vicente Pereira, Calimério Soares, Xavantinho, Ladário Teixeira, Nelson Cupertino e Grande Otelo, destacando que muitos outros também poderiam ser reconhecidos.

Para ficar por dentro das notícias sobre as homenagens a Odelmo Leão e desdobramentos sobre o novo nome do Teatro Municipal continue acompanhando o Paranaíba Mais.