Black Pantera: da cena underground de Uberaba ao Grammy Latino
Indicado na categoria Melhor Álbum de Rock ou Música Alternativa, trio relembra trajetória iniciada em bares e festivais da cena underground de Uberaba
Na quarta-feira (16) da semana passada, a banda Black Pantera, de Uberaba, figurou na lista de indicados para o Grammy Latino 2026. O álbum “Resistência! Ao Vivo no Circo Voador”, lançado em maio deste ano, celebrou os 11 anos de estrada do trio e concorre na categoria Melhor Álbum de Rock ou Música Alternativa em Língua Portuguesa. Em entrevista ao Paranaíba Mais, o baixista e vocalista Chaene da Gama explicou a importância da obra, da indicação e do movimento underground de Uberaba para a formação e sucesso da banda.

Com a indicação de Urias, em duas categorias, o Triângulo Mineiro soma três indicações em um dos prêmios mais importantes da música mundial. Essa não é a primeira vez que a banda uberabense está em uma premiação de peso. Neste ano e no ano passado, o trio venceu a categoria Melhor Artista de Rock do Prêmio da Música Brasileira. Mesmo assim, os artistas demonstram que não abandonam a região do Triângulo, fundamental para o começo e consolidação do trabalho. Este ano, por exemplo, estiveram no palco do Festival Timbre em Uberlândia, e conversaram com a equipe da Educadora FM.
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Resistência! Ao Vivo no Circo Voador: um símbolo no centro do mundo
A notícia de que o Black Pantera estava na lista dos indicados ao Grammy Latino chegou a Chaene enquanto ele estava na academia. Ele conta que, mesmo sabendo que estavam inscritos, essa concretização da qualidade do trabalho do grupo e de sua equipe o pegou de surpresa, e o fez abandonar os pesos e ir para casa às pressas.
“Fui ler a lista da premiação completa no site pra ver, rolei, rolei e aí veio o susto. São muitas categorias e chegou o nosso nome. Eu só vi ‘Black Pantera’, e era o site oficial do Grammy. Vi que era o nosso disco ao vivo, aí eu já saí da academia, acho que as pessoas ficaram até assustadas que eu saí, eu deixei os pesos e saí meio desesperado ligando pra todo mundo, liguei pros meninos, eles não acreditavam”, contou ao Paranaíba Mais.
Para o baixista, estar nesse espaço, principalmente com o teor político do trabalho do grupo, é “incrível”. “É um sonho da banda, que tem 12 anos. Eu já tinha 30 quando a gente começou. Hoje, com 42 anos, a vida mudou. O Chaene do ano um até os 30 era uma coisa, aí o Black Pantera começa. A banda e essa indicação são muito maiores do que nós, muito maiores. É a prova que a gente vem trabalhando muito, sem parar, há doze anos, e é uma consequência do resultado de tudo isso”.
Este reconhecimento se torna ainda mais especial pelo trabalho que figura a premiação. “Resistência! Ao Vivo no Circo Voador” é o primeiro trabalho audiovisual de grande dimensão do trio e o primeiro disco gravado ao vivo, em um show que reuniu músicas de toda a trajetória da banda. Antes de se tornar um trabalho reconhecido internacionalmente, para o Black Pantera, é o encerramento de um ciclo que começou em garagens e bares de Uberaba e terminou em um show para 1.600 pessoas em um local histórico para a cultura do Rio de Janeiro.
“Ele encerra um período que durou do primeiro ao quarto disco. Do Project Black Pantera, de 2015, e se encerrou com o Perpétuo, em 2024. A gente fecha essa primeira parte, dessa primeira década. Eram 11 anos de grupo quando a gente gravou, e é um apanhado de tudo que a gente tinha feito, além dos quatro álbuns, mais os singles. Buscamos visitar cada fase da carreira, e essas músicas que ganharam o imaginário do cancionato nacional, através do punk, do hardcore, do metal, do peso, da fúria que o Black Pantera traz. A gente quis fazer tudo que a gente queria, que a galera mais gosta de ouvir, tudo que a gente vê que funcionou”, explicou.
Segundo o baixista, na apresentação, o trio estava em “seu ápice musical”, em um momento perfeito para encerrar este primeiro arco da banda. Chaene também afirma que, de certa forma, lamenta não poder ter inscrito o último álbum deles, “Continental”, por ter sido publicado fora do tempo de submissão. O disco mira a premiação do ano que vem e, para o artista, “é um disco que a gente tem certeza que também vai tá nas cabeças, porque a gente tá vendo o poder dele”.
“Eu fiquei o dia inteiro tentando processar a indicação. Falei com várias pessoas, todo mundo falando com um monte de pessoas. Porque é isso: nós somos de Uberaba, de Minas Gerais, do interior de Minas, uma banda do interior, que ainda mora aqui e que ainda tem seus laços aqui na cidade. Nós viajamos o mundo todo, o Brasil inteiro, mas sempre voltamos pra cá. É a nossa base, ao lado dos nossos familiares, dos nossos fãs, dos nossos amigos. Aqui a gente tem uma vida normal, a gente vai na padaria, a gente joga bola, a gente leva os filhos da escola. Vivemos o cotidiano de Uberaba, algo que faz bem pra gente. Mesmo assim, a gente entende o poder do Black Pantera”, diz.
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Cena underground de Uberaba: a origem e a força do Black Pantera
O mesmo grupo que está no centro do mundo, e que já se apresentou em vários locais do planeta, começou como uma banda cover que tocava nos bares de Uberaba.
“A gente se chamava Metal Machina e tocava Metallica, Sepultura, Rage Against, System. A gente gostava de tocar essas coisas mais pesadas, e tivemos a ideia de fazer uma banda autoral. O Charles (vocalista) insistiu muito nisso, meu irmão. A gente sempre teve um espaço ou outro pra tocar, começamos a tocar no quintal da casa de amigos. Os festivais que a gente fazia, era sempre dentro da cena underground, sempre tinha alguém movimentando a cena. O Black Pantera só conseguiu gravar um disco porque o Ricardo Barbosa, do Estúdio 106, viu alguma coisa na gente. Ele falou: ‘vamos gravando e depois a gente acerta’. A gente foi acertar com o cara dois anos atrás. Ele viu algo”, contou Chaene.
Chaene também lembra do papel fundamental das pessoas que consomem a cultura alternativa na cidade, que foram fundamentais para a trajetória da banda e para abrir espaço para que outros artistas surjam na cidade. “As pessoas nos ajudaram no começo, compraram nossa rifa para fazer nossos primeiros shows na Europa. A cidade se movimentou, a cena se movimentou pra nos levar pra Europa. A gente vê o resultado disso, da banda ganhando projeção. E para várias bandas que vieram e que ainda vão vir. Hoje, a gente viu o reflexo disso em várias bandas surgindo. Tem a Celulites, que são de amigas nossas daqui. Tem o Bichos do Mato, que é uma molecada com 15 anos, idade da minha filha. Gravam nos mesmos estúdios e contam com as mesmas pessoas”.
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Apesar de contar com pessoas e artistas que fazem a música alternativa acontecer, Chaene aponta que é necessário maior atenção do poder público para os pequenos artistas de Uberaba. “As pessoas mesmo fazem o próprio trampo, sem nenhum tipo de amparo. Às vezes é muito difícil colocar um palco na rua, há burocracia. Em ano eleitoral, tem muita gente que acha que cultura não representa nada. A gente tem a Fundação Cultural de Uberaba, que tenta ajudar de certa forma, mas precisamos de mais incentivo. Você vai nos bairros, principalmente nos mais carentes, e vê que a molecada tem o sonho, mas falta apoio”.
“Quando escutam nosso trabalho, acham que somos de São Paulo ou Belo Horizonte. Mas somos de Uberaba, Minas Gerais. Colocamos a cidade no mapa, de certa forma, e temos orgulho disso. Somos daqui, nossos avós nos criaram com muita dificuldade, uma família inteira criada em um mesmo quintal. É importante destacar que aqui é a capital do Zebu, onde o sertanejo impera e movimenta milhões no agronegócio. Mas existem outras pessoas fazendo música. Existe o Brava Rima, grupo de rap que sou muito fã. A cidade passa a ser reconhecida por outros aspectos, existem pessoas falando de outras perspectivas. Não quero que a cidade nos ame, eu tenho orgulho de ser daqui pelas minhas raízes. Só eu sei o que vivi. Passamos por todo tipo de coisa e várias bandas desistem neste processo. Não vamos romantizar, é um sonho que buscamos com muita força. Uma banda de Uberaba acabou de tocar no Rock in Rio”, concluiu.
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