Bad Bunny no Brasil coloca em pauta a força (e os limites) da cultura latina por aqui

Sucesso global do astro porto-riquenho contrasta com mercado brasileiro autossuficiente, apesar da histórica influência latina no País

, em Uberlândia

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A primeira passagem de Bad Bunny no Brasil marcam as noites desta sexta-feira (20) e sábado (21), em São Paulo. Alavancado pelo sucesso de seu último álbum, e de sua apresentação no Super Bowl, o astro porto-riquenho avança sobre o consumo musical brasileiro. Contudo, é curioso o fato de que o artista mais ouvido no mundo por quatro anos, nunca tenha feito tamanho sucesso no Brasil antes.

Bad Bunny no Brasil
– Reprodução: Redes Sociais

Com 9,8 bilhões de reproduções, Bad Bunny foi no ano passado, pela quarta vez, o artista mais ouvido no Spotify no mundo. Antes disso, o artista alcançou o primeiro lugar no ranking global pela primeira vez em 2020 e repetiu o desempenho nos dois anos seguintes, em 2021 e 2022.

O trabalho mais recente de Bad Bunny, o álbum DeBÍ TiRAR MáS FOTos, lidera as vendas globais neste ano, consolidando a forte presença internacional da cultura e da música de Porto Rico.

No entanto, no Brasil o artista, o disco e as faixas lançadas por ele ficaram fora da lista dos mais executados do ano. Os dados são do Spotify, plataforma que reúne 713 milhões de usuários em 180 países e é hoje uma das principais referências para aferir desempenho e popularidade na indústria da música.

Antes da apresentação do Super Bowl, no ranking semanal de audiência do Spotify, Bad Bunny no Brasil apareceu entre os artistas mais reproduzidos em apenas 11 ocasiões, e, na maioria delas, ocupando posições acima do centésimo lugar.

Segundo um especialista, esta discrepância está relacionada à maneira com que foi e é configurada a indústria musical no Brasil e no mundo. Para Carlos Jáuregui, professor de linguagem sonora e crítica musical no curso de Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto, é importante se contrapor à uma afirmação recorrente: a de que a música latina não está no Brasil. 

Por quê, só agora, Bad Bunny no Brasil?

Segundo o professor e crítico musical, é importante entender que nossa indústria fonográfica é forte e autossuficiente, algo que faz parte da maneira com que se consolidou no país. O Brasil é, afinal, o país que mais consome a própria produção musical: 75% do que é ouvido nas plataformas de streaming corresponde a artistas nacionais, segundo a Luminate, empresa de dados do setor de entretenimento que serve de base para as paradas da revista Billboard.

Jáuregui explica que este fenômeno está relacionado à construção da indústria fonográfica no país, diretamente relacionada ao contexto econômico da época. Segundo ele, a formação se deu na primeira metade do século XX, numa época em que o Brasil passava por um processo de construção de identidade nacional, e por políticas econômicas voltadas para o mercado interno.

“Foi na mesma época em que começamos a ter uma indústria no Brasil, de maneira geral, e direitos trabalhistas, como no período de Getúlio Vargas. A indústria fonográfica brasileira se constituiu junto com um projeto de nação. A própria ideia do samba, no início do século XX, se mistura à construção da identidade nacional. Falar de Brasil era, e em muitos aspectos ainda é, falar de samba”, relembrou Jáuregui.

Desta forma, o professor aponta que é importante observar que a história da cultura nacional e das expressões artísticas no país é ligada a uma história econômica brasileira. Outro aspecto ressaltado pelo especialista, um pouco mais evidente, para pensar a resistência a Bad Bunny no Brasil, é a barreira linguística. 

“Nós somos o único país do continente que fala português. Então, mesmo que venha conteúdo em inglês, com toda a força das majors norte-americanas, isso já é uma barreira. O espanhol também é uma barreira.  E, por mais que exista maior proximidade com o mundo hispânico, esse mundo também se organizou menos do que o norte-americano para chegar ao Brasil”, explica o professor. 

A importância da força de uma indústria musical para entrar no Brasil, explica o sucesso de outros artistas internacionais no país, predominantemente norte-americanos. No Spotify, Taylor Swift já figurou entre os artistas mais ouvidos da semana no Brasil em 224 ocasiões, tendo liderado o ranking em dezenas delas. O mesmo ocorre com The Weeknd, o terceiro mais reproduzido do mundo, que acumula o mesmo número de semanas de destaque que Swift.

Outros nomes reforçam esse cenário. Drake, quarto artista mais ouvido globalmente, marcou presença por 198 semanas nas listas brasileiras. Já Billie Eilish, que fecha o grupo dos cinco mais tocados do planeta, apareceu no ranking nacional em 224 oportunidades.

Jáuregui destaca que este aspecto, da força da indústria norte-americana, é importante, inclusive, para explicar o crescente sucesso de Bad Bunny no país. “O próprio Bad Bunny mantém vínculos com a indústria dos Estados Unidos. Ele é porto-riquenho e Porto Rico é um território ligado aos Estados Unidos. Isso faz com que sua projeção internacional não seja equivalente, por exemplo, a de um artista argentino ou colombiano tentando espaço no Brasil”, diz.

Segundo o crítico musical, no caso de Bad Bunny, há uma mediação direta da indústria fonográfica norte-americana, o que influencia a forma como sua carreira é estruturada e promovida globalmente. Algo que reforça esta tese, ainda segundo Jáuregui, é a influência da apresentação no Super Bowl no sucesso de Bad Bunny no Brasil. 

Nas últimas semanas, o artista ocupou o 12° lugar entre os os artistas mais ouvidos no país. Na semana anterior, no dia 5, antes de sua apresentação no Super Bowl, o cantor ocupava a 85ª posição entre os artistas mais ouvidos no Brasil. Até então, sua melhor colocação nos charts, nome dado aos rankings musicais, do Spotify Brasil tinha sido a 83ª posição.

Mesmo que haja esta relação entre Bad Bunny e a indústria musical norte-americana, o professor também ressalta um aspecto importante deste fenômeno.

“Também é relevante observar que a própria indústria precisou se curvar à força dos imigrantes hispânicos nos Estados Unidos. Atualmente, cerca de 20% da população estadunidense é composta por hispânicos. Diante desse cenário, o mercado passou a direcionar seu olhar para esse público, buscando refletir sua identidade e suas referências culturais como estratégia para ampliar vendas e engajamento”.

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A música latina já era forte antes da chegada de Bad Bunny no Brasil

Bad bunny
– Crédito: Bob Kupbens/Icon Sportswire via Getty Images

Apesar da permeabilidade da indústria musical brasileira, antes de Bad Bunny no Brasil, existiam laços fortes e importantes para a música nacional, entre Brasil e o restante da América Latina. Segundo o professor, o porto-riquenho talvez não possa ser considerado um precursor, pois, na história recente, nomes importantes já tiveram sucesso no país, como Shakira, Carlos Gardel, J Balvin e colaborações entre Anitta e Maluma.

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Para além disso, Jáuregui destaca a existência de uma forte influência da música latina no país, que, para ser identificada, é necessário ultrapassar os indicativos da indústria e do mercado fonográfico, como vendas de CDs, streamings ou grandes shows. Segundo o professor, fora destes aspectos, as fronteiras entre Brasil e América Latina sempre tiveram um grau de porosidade.

“O país que provavelmente foi um dos maiores influenciadores da música no século XX foi Cuba. O bolero, a partir da primeira metade do século XX, chegou a vários lugares do mundo. Os Beatles tocaram bolero; se você ouvir “And I Love Her”, por exemplo, percebe elementos do gênero, e isso também chegou ao Brasil. Essa influência foi incorporada. A música sertaneja incorporou muito do bolero, e o samba-canção também trouxe diversos elementos desse estilo”, destacou. 

Segundo o professor, a música rancheira mexicana, por exemplo, tem influência em grandes nomes da música sertaneja, como Milionário e José Rico. Em outro exemplo, ele cita a lambada do norte do Brasil, com influência direta dos ritmos latinos. Segundo ele, também, esta influência é mútua e o Brasil também influencia os nossos vizinhos. 

“Você vai a qualquer estádio na América Latina e, quando vê as charangas que acompanham os times de futebol, percebe que elas tocam coisas muito parecidas com o que a gente toca nos nossos batuques, nos blocos de carnaval e nas nossas próprias charangas”, exemplificou.

Segundo Jáuregui, a música também mora fora da indústria. “Isso é muito importante de termos em mente. Essa identidade latina no Brasil, se é algo mais recente, eu acredito que tenha passado por várias ondas. Décadas atrás, por exemplo, Gil já cantava “Soy Loco por Ti, América”.

*Matéria realizada com levantamentos da BBC