Artesão de charretes em Uberlândia: paixão que virou obra de arte
Após 40 anos como mecânico de máquinas pesadas, Donizete Tavares, o artesão de charretes, encontrou na fabricação dos veículos uma nova vocação após a aposentadoria
No coração de uma oficina em Uberlândia, onde o tempo parece andar mais devagar, Donizete Tavares, 68 anos, reinventou sua trajetória e se tornou um artesão de charretes. Depois de trabalhar por 40 anos com máquinas pesadas, o mecânico aposentado encontrou na fabricação artesanal de charretes, feitas à moda antiga, uma união perfeita entre sua experiência técnica, o gosto pelo trabalho manual e o compromisso com a sustentabilidade.

Donizete transforma madeira e ferro velhos em veículos antigos, resgatando uma tradição do Triângulo Mineiro. “A gente volta no tempo. Quando eu era criança lá em Araguari, eu via muitas [charretes], então isso veio na memória da criança”, conta Donizete.
Da sucata à terapia na pandemia
A trajetória de Donizete com o trabalho manual começou cedo, aos 11 anos, em uma oficina mecânica. Em 1980, ele se mudou para Uberlândia, onde construiu uma carreira sólida, incluindo 27 anos de serviço na Prefeitura Municipal.
Antes mesmo de se aposentar, Donizete decidiu investir no ramo da reciclagem, principalmente pela preocupação com o meio ambiente. O primeiro projeto foi uma locomotiva feita inteiramente com peças de sucata, com sistema elétrico e iluminação funcionais.
Mas foi durante a pandemia de covid-19, em 2020, que a arte da charrete nasceu. Sozinho na oficina, ele recebeu o incentivo de um amigo e decidiu construir sua primeira peça. O trabalho, que levou cerca de 40 dias, tornou-se uma terapia e revelou um talento artístico.
Hoje, ele já produziu três charretes e, com a prática, o tempo de fabricação é de cerca de 20 dias.

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A história contada em cada detalhe
A fabricação de charretes é um processo de garimpo e resgate. Donizete busca rodas abandonadas, lixa e “acarinha” cada item, garantindo que o produto final seja uma obra de arte carregada de história.
Em seu ateliê improvisado, ele exibe com orgulho os detalhes que remetem ao passado mineiro. Uma das obras possui estribo para subir, forro de couro e um charmoso latão de leite que decora o quadro, evocando o profundo sertão. O banco repousa sobre um pequeno baú de madeira, que, segundo ele, poderia ser esconderijo de doces.

Donizete também guarda como enfeite uma placa autêntica que era usada para emplacar carroças em Uberlândia antigamente. Esta, uma das carroças mais “brutas”, tem o banco feito de tábuas que, diz a lenda, vieram do lendário Bar da Tábua, uma boate que existia na cidade, na avenida Monsenhor Eduardo.
A produção artesanal é valorizada e feita por encomenda, com preços que variam de R$ 7 mil a R$ 10 mil. Além das charretes, ele se dedica à restauração de outros veículos de tração animal, como um antigo carro de boi.
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A filosofia do artesão de charretes
Aos 68 anos, Donizete é um exemplo de que a aposentadoria não significa parar de trabalhar. “Eu aposentei, não parei de trabalhar”, diz ele. “As coisas que tocam o coração não têm preço. Eu sou uma pessoa de sorte, que agradece a Deus pela vida”.
Em sua oficina simples no Triângulo Mineiro, o artesão transforma a sucata em poesia e demonstra que, para ser feliz, basta paixão, propósito e a arte de unir o velho ao novo.
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Reportagem completa
Para conhecer melhor as obras e o Donizete, confira a reportagem completa do Agro Paranaíba: