Revistaria Itacolomy encerra atividades após 46 anos em Uberlândia
Comércio atravessou gerações de leitores e acompanhou mudanças no acesso à informação; despedida reúne memórias de clientes, proprietários e famílias
Durante 46 anos, a Revistaria Itacolomy fez parte da rotina de leitores em Uberlândia. Entre jornais, revistas, livros, gibis e coleções, o estabelecimento acompanhou diferentes gerações e as mudanças na forma como a população passou a consumir informação.
Agora, a revistaria encerra as atividades e fecha um ciclo marcado não apenas pelas publicações vendidas, mas também pelas relações construídas entre proprietários e clientes ao longo de mais de quatro décadas.
O encerramento ocorre em um período em que notícias, livros e revistas passaram a ocupar também as telas de celulares e outros dispositivos. A tecnologia ampliou e acelerou o acesso à informação, ao mesmo tempo que modificou hábitos como visitar uma banca, percorrer as prateleiras, folhear lançamentos e esperar pela próxima edição.

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Revistaria Itacolomy atravessou gerações em Uberlândia
Reginaldo Bruno chegou à Itacolomy quando o estabelecimento já funcionava havia cinco anos. Na época, José Medeiros Pena havia comprado o comércio. Reginaldo trabalhou no local durante 31 anos antes de assumir a propriedade e permaneceu por outros 15 anos à frente do negócio.
Durante essa trajetória, acompanhou mudanças que ultrapassaram as portas da revistaria. Viu o Brasil trocar de moeda, observou Uberlândia crescer e recebeu diferentes gerações de uma mesma família. “No início, a revistaria era um sucesso, pois não existia internet na época. Passei por várias trocas de moedas durante todo esse período, convivi com várias gerações de famílias e com o surgimento e o avanço da internet”, recorda.
Além da venda de publicações, a rotina permitiu que Reginaldo construísse relações com os frequentadores. Muitos clientes que chegavam em busca de um jornal, uma revista ou um livro passaram a manter contato com o proprietário ao longo dos anos. “Durante esse período, conheci muitas pessoas, fiz muitas amizades e acompanhei várias gerações de famílias”, afirma.

Quando as novidades chegavam pelas bancas
Antes da popularização da internet, as revistarias estavam entre os locais procurados por quem buscava informação, entretenimento e leitura. Jornais traziam os acontecimentos do dia, enquanto revistas, gibis, livros e coleções ocupavam as prateleiras.
A cliente Cris Costa conhece a Itacolomy há pelo menos 40 anos. A relação com o estabelecimento começou ainda na infância, quando o pai a levava ao local. O avô, proprietário da antiga Camisaria do Ananias, que ficava nas proximidades, também frequentava a revistaria para comprar jornal. “A Itacolomy acabou fazendo parte da minha infância e da história da minha família”, conta a servidora pública.
Para Cris, as visitas também representavam a oportunidade de descobrir o que havia chegado às prateleiras. “Ir até lá era descobrir o que estava acontecendo, ver o que havia chegado de novo, folhear revistas, jornais e livros. Era um lugar que despertava a curiosidade e fazia a gente querer voltar”, relembra.

Revistinhas, jornais e memórias de família
Entre as lembranças de Cris estão as visitas acompanhadas pelo pai para comprar revistinhas de bonecas que traziam roupas de papel para recortar. Ela também se recorda do avô deixando o estabelecimento com o jornal debaixo do braço. “São cenas simples, mas que ficaram guardadas na memória. Quando penso na Itacolomy, lembro do meu pai, do meu avô, da minha infância e de uma Uberlândia de outros tempos”, relata.
Álbuns de figurinhas, palavras cruzadas, gibis e revistas que antecipavam os próximos capítulos das novelas também fizeram parte da rotina de clientes. Para quem viveu esse período, cada lançamento envolvia espera e a descoberta de novos conteúdos.
Na avaliação de Cris, a Itacolomy também contribuiu para aproximar moradores da leitura, da cultura e da informação. “Aquelas páginas nos apresentavam outros lugares, novas ideias e diferentes histórias. A Itacolomy não apenas acompanhou o crescimento de Uberlândia; acredito que ela também fez parte da formação cultural de várias gerações da nossa cidade”, afirma.
Internet mudou hábitos e reduziu procura pelo papel
A popularização da internet transformou os hábitos de consumo de informação e afetou o movimento da Revistaria Itacolomy. Com conteúdos disponíveis de forma imediata pela internet, parte dos clientes deixou de procurar publicações impressas.
Outros leitores, porém, continuaram frequentando o estabelecimento e mantendo o hábito de consumir conteúdo no papel. “A internet trouxe mais comodidade para as pessoas e alguns clientes acabaram se afastando. Porém, vários gostavam do papel físico e permaneceram fiéis”, explica Reginaldo.
Para Cris, a mudança trouxe rapidez e praticidade, mas também modificou hábitos relacionados à escolha e à espera pelas publicações. “Perdemos um pouco do prazer de procurar, escolher, folhear e esperar a próxima edição chegar”, observa.
Por que a Revistaria Itacolomy decidiu fechar?
Segundo Reginaldo, o encerramento não ocorreu apenas pelas transformações do mercado. Após décadas de dedicação ao estabelecimento, os proprietários entenderam que já não mantinham o ritmo exigido pela rotina do comércio. “Decidimos encerrar porque, no momento, não temos mais o ritmo que a função exige. Senti tristeza ao comunicar aos clientes, pois são muitos anos de trabalho e muitas amizades construídas”, diz.
Maria José Vieira, também proprietária da revistaria, agradeceu o carinho recebido durante a despedida. Segundo ela, os anos de funcionamento deixaram experiências, encontros e lembranças que a família pretende preservar. “Como tudo na vida tem um ciclo, chegou o momento de encerrarmos nossas atividades. Já não temos o mesmo ritmo que essa função exige, mas lembraremos sempre com carinho e muita saudade de todos os momentos vividos e de todos que fizeram parte dessa história”, escreveu.
Despedida reúne lembranças de clientes

A apresentadora Mônica Cunha publicou uma homenagem ao estabelecimento e destacou a relação da revistaria com a cultura e a formação de leitores em Uberlândia.
Ela também recordou os domingos em que procurava novidades nas prateleiras e aproveitava para conversar com Reginaldo e Zezé. “Me entristeço, mas carrego tudo de bom que a família Itacolomy semeou na minha vida de leitora”, escreveu.
A publicação recebeu relatos de clientes que frequentavam o comércio desde a infância. Entre as lembranças compartilhadas aparecem revistas, gibis, jornais, livros e coleções adquiridas ao longo dos anos. Veja:
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As portas fecham, mas as histórias permanecem
Para Cris, o encerramento não representa somente o fim de um comércio. A despedida também está ligada às lembranças da infância, da família e de uma época em que o acesso à informação ocorria de outra maneira. “A Itacolomy não guardava apenas livros, revistas e jornais em suas prateleiras. Durante todos esses anos, acabou guardando também um pedacinho da história de cada um de nós”, resume.
Reginaldo espera que a revistaria permaneça na memória de quem passou pelo estabelecimento ao longo das últimas décadas. “O maior legado são as memórias construídas com cada pessoa que passou por ali. Gostaria que fosse lembrada com carinho, como um lugar especial, acolhedor e presente na história da cidade, que deixou uma marca muito além das suas portas”, afirma.
Ao encerrar as atividades, o proprietário deixa uma mensagem aos clientes que acompanharam a trajetória do estabelecimento.
“Gostaria de agradecer a todos os clientes que passaram pela Itacolomy durante todos esses anos e que fizeram parte da nossa história.”
Você também guarda alguma lembrança da Revistaria Itacolomy? Continue acompanhando o Portal Paranaíba Mais para conhecer histórias, personagens e lugares que fazem parte da memória de Uberlândia.