O passado nunca esteve tão presente; programas fazem sucesso com a nostalgia
Em meio à rapidez do presente, conteúdos retrô conquistam o público ao resgatar memórias, referências culturais e histórias afetivas
A nostalgia é o sentimento da nossa época? Na Rádio Educadora, um dos programas de maior audiência e identificação com o público é o Garagem Retrô, de Robson Quadros. O mesmo termo também aparece no nome de um canal do Youtube querido na cidade, o Uberlândia Retrô, de Kelson Venâncio. Ambos os produtos criam laços com seus públicos a partir de uma imersão do que já foi e (de alguma forma) não é mais. Mas o que explica essa paixão eterna pelo passado nos dias de hoje?

📲 Siga o canal de notícias do Paranaíba Mais no WhatsApp
Segundo Nuno Manna, professor da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e coordenador do Narra – Grupo de Pesquisa em Narrativa, Cultura e Temporalidade, a valorização do passado nos dias de hoje perpassa um conjunto de processos e aspectos distintos, além de mobilizar afetos e sentimentos ligados não apenas à memória, mas também à economia, tecnologia e à cultura de uma maneira mais ampla.
“Vivemos um período de aceleração muito intensa da circulação de informações, tendências e linguagens. Nesse cenário, o passado muitas vezes surge como contraponto aparentemente mais estável, tangível, funcionando como uma espécie de âncora emocional e histórica. Em um ambiente de excesso de oferta cultural, aquilo que já possui familiaridade reduz o risco tanto para o público quanto para as empresas”, aponta Manna.
Em meio a tantos outros sentimentos, esta familiaridade é um dos principais fios que guiam o trabalho de dois comunicadores de Uberlândia. Os projetos, que carregam o termo “retro” no nome, nascem não apenas de uma identificação com o passado, mas como uma forma de revisitar outras épocas a partir de um novo olhar.
Comunicação do presente, janelas para o passado
Para Robson Quadros, a idealização do Garagem Retrô, da Rádio Educadora, é uma história que o acompanha há muito tempo. A proposta do programa, além de reproduzir a música e outros produtos culturais do passado, é de proporcionar uma imersão cultural nas últimas décadas antes dos anos 2000.
“A ideia não era fazer só um programa musical. Eu tenho o ‘Túnel do Tempo’, onde eu vou revisitar os desenhos dos anos 80 e 90, os seriados daquela época. Eu relembro de fatos, dos atores, muitos até já morreram. Trago curiosidades das produções, dos desenhos animados. E aí, vou colocando os áudios: das aberturas, da música de abertura, os bordões dos desenhos ou dos seriados, e acho que esse é o diferencial. Algo que faz as pessoas mergulharem nesse mundo nostálgico”, explica.
Ver esta publicação no Instagram
O radialista conta que, atualmente, um dos quadros de maior sucesso do programa é o ‘Radinho do Vovô’. “É onde os ouvintes se afundam em uma nostalgia. Sabe aquelas músicas que tocavam no rádio, na casa dos avós, que eles gostavam de ouvir? Eu faço uma viagem como se estivesse dentro da casa dos avós. O grande sucesso desse programa é lembrar dessa época da nossa vida pessoal, com nossa família, e aquele radinho lá na cozinha tocando aquela música, algo que entrou pras nossas histórias”.
Ver esta publicação no Instagram
A construção de uma nova relação com o passado a partir de laços familiares também é um dos pilares do trabalho do jornalista Kelson Venâncio, nos canais Uberlândia Retro e Canápolis das Antigas.
“Meu pai sempre foi fotógrafo, cinegrafista e radialista em Canápolis. Filmava e registrava tudo. Ele era o jornalista da cidade e eu cresci ajudando ele com isso, daí veio a minha vontade de ser jornalista também. Quando ele faleceu, a família ia jogar vários arquivos dele fora. Eu não deixei, fiz duas viagens com um carro lotado de fitas VHS e fotos. Foi quando surgiu o Canápolis das Antigas, com o material que ele fez”, relembra Venâncio.
Ver esta publicação no Instagram
Esse mergulho na história do pai despertou em Kelson uma vontade de revisitar a sua própria história. Depois de já consolidar o trabalho do pai em sua cidade natal, o jornalista passou a digitalizar o seu próprio material, que ele acumulou durante suas passagens por emissoras de televisão e rádio de Uberlândia.
“Comecei a postar nas minhas redes sociais e as pessoas foram gostando. Aí, comecei a trabalhar também com digitalização de fitas. Como começou a bombar e várias pessoas comentaram sobre esse conteúdo nostálgico, veio a ideia de criar o ‘Uberlândia Retrô’. Hoje tenho uma média de 200 mil visualizações por mês no Youtube”, conclui.
O sucesso deste tipo de conteúdo na internet abre margem para se refletir sobre a forma com que esta tecnologia transformou a experiência da memória cultural.
“Antes, o acesso ao passado dependia de mediações mais limitadas: acervos físicos, reprises, colecionismo. Hoje, plataformas digitais trazem outras possibilidades que tornam produções do passado disponíveis de diferentes maneiras. O passado deixa de ser algo distante e passa a integrar o presente comunicacional, criando uma sensação de presença permanente. O crítico cultural Mark Fisher chegou a afirmar que, na época da memória digital, a própria perda está perdida”, aponta Nuno Manna.
LEIA MAIS!
Como um ensaio na calçada levou banda de Itumbiara ao sucesso nacional
Mas por que a nostalgia?
Ao publicar os seus trabalhos, Kelson afirma que o apreço do público pelo passado é cada vez mais evidente. “As pessoas hoje em dia estão muito saudosistas, sentem muita nostalgia. Elas estão com muita necessidade de ver coisas do passado. As pessoas comentam que têm saudade, as pessoas falam que lembram”.
Na frequência da Rádio Educadora, esse carinho para o que a vida já foi um dia se propaga pelo som. “Quando eu vou em eventos, as pessoas me reconhecem e me contam histórias. Me explicam porque gostam de uma música, lembranças com ex-namorados, dos amigos, da casa dos avós”, diz Quadros.
Para ele, a saudade de músicas que marcaram época se relaciona diretamente com o que as pessoas viveram em uma fase na vida, e que as moldaram. “O presente já foi o nosso futuro, e estamos vivendo ele para viver o que vem daqui pra frente. O passado é importante pelo que a gente viveu, o que nos marcou. Hoje, as músicas são consideradas antigas, mas na época era tudo uma novidade, representava o que estávamos sentindo naquele momento das nossas vidas. Acima de tudo, era uma questão de identidade. As pessoas lembram de quem elas eram e dos melhores momentos das vidas dela”, completa.
Nuno Manna avalia que este movimento de olhar para o passado em uma busca por identidade é algo que compõe o constante movimento de criar narrativas sobres nós mesmos.
“A memória ajuda a organizar narrativas sobre quem somos, individual e coletivamente. Referências culturais funcionam como marcadores afetivos e sociais e ajudam pessoas e grupos a construir e reconhecer pertencimentos comuns. Em períodos de crise, de instabilidade ou mudança acelerada, isso tende a se intensificar. O passado oferece uma sensação de continuidade em meio à fragmentação do presente. A nostalgia pode funcionar como mecanismo de reconexão simbólica. Nos sentimos desamparados quando não encontramos nas experiências do passado uma forma de compreender e lidar com os dilemas do presente”, pontuou.
Ver esta publicação no Instagram
O especialista destaca que as formas de nostalgia são construídas socialmente, mediadas por fatores históricos como a tecnologia, o mercado e a política.
“Não sentimos saudade exatamente de um período histórico concreto, e sim da imagem cultural que foi produzida sobre ele. Existe uma idealização seletiva do passado, que costuma apagar conflitos e ambiguidades. Isso não significa que estamos falsificando um passado que não existe, mas que nossa relação com a memória nunca é neutra. E é exatamente por isso que a produção cultural está sempre jogando com essas construções temporais, porque é em meio a elas que construímos, desconstruímos e reconstruímos permanentemente nossas identidades”, completa.
O professor também destaca que mercado cultural percebeu que a memória é algo que tem um alto valor, além de se apresentar como uma alternativa à saturação cultural da atualidade.
“Relançamentos, remakes, estética retrô, revivalismos em geral tendem a funcionar porque mobilizam reconhecimento imediato e de mais fácil adesão. Existe uma percepção bastante disseminada de saturação cultural. Produz-se muito, circula-se muito e consome-se tudo muito rapidamente. Isso dificulta a consolidação de referências comuns e de vínculos mais duradouros com obras contemporâneas. Há muitos críticos que apontam para uma forte tendência a um mercado da nostalgia, a uma ‘retromania’, que seriam sintomas de que perdemos coletivamente a capacidade de criarmos novas referências e imaginar futuros”, argumenta o pesquisador.
Para Manna, existe uma ambiguidade na forma com que estamos consumindo produtos do passado. “Justamente em um mundo marcado pelo excesso e pela rapidez, parecemos ainda mais voltados ao passado porque ele parece mais coeso e seguro, mais fácil de organizar narrativamente. Ainda que essa seja uma construção idealizada”.
Apesar da problematização que se torna possível a respeito da produção cultural dos dias de hoje, o especialista aponta que é necessário ponderar alguns pontos quando o assunto é nostalgia e a vontade de voltar ao passado.
“O primeiro é o fato de que não estamos hoje inaugurando esse apego com o passado. Ele existiu nos mais diversos momentos históricos. No século XIX, o filósofo Friedrich Nietzsche criticava a obsessão dos europeus pelo passado e taxava como uma nostalgia paralisante”, pondera.
O último ponto levantado por Manna é que o mergulho no passado também é um movimento que cria novos sentidos. “Há muita coisa entre o polo da pura nostalgia e o da total inovação, e sempre houve. Grandes sucessos atravessam décadas, mudam de arranjo, ganham novas interpretações e continuam produzindo identificação coletiva. Também existe uma dimensão biográfica importante. Quando um artista revisita o próprio catálogo, ele reorganiza a própria trajetória diante do público. Não é apenas repetição. A mesma canção muda de sentido porque o artista mudou, o público mudou e o contexto histórico mudou”.
Mesmo se tornando uma tendência de mercado, a nostalgia na cultura pode servir como uma forma de reinterpretar quem somos e reviver, em outra época, os momentos que nos fizeram nos reconhecer como somos.
“Eu falo que o Garagem Retrô é uma viagem, é o bordão que eu uso. Eu falo assim: esse é o programa que toca os melhores momentos da sua vida. E parece que isso é verdade, sabe?”, conclui Roberto Quadros.
Sente saudade de algo? Para revisitar sua própria vida, com carinho, participe do programa Garagem Retrô. E para acompanhar reportagens como esta, continue acompanhando o Portal Paranaíba Mais.