Autismo na fase adulta: “descobrir o diagnóstico foi me respeitar”

Hoje com 57 anos, professora de Uberlândia conta como a descoberta do diagnóstico de TEA aos 53 trouxe uma nova compreensão sobre uma vida inteira de "sentir-se diferente"

, em Uberlândia

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“Sempre me senti diferente, desde a infância. Meus amigos notavam algo estranho, porque eu ficava com a cabeça longe, o olhar distante. Mas não era nada disso”, relata Ana, professora de 57 anos e moradora de Uberlândia. Esse é um relato que pode ser comum a qualquer pessoa, mas para ela vem regado de uma longa jornada de redescoberta.

O mês de abril é marcado pela cor azul, símbolo da conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Mas, para muitas pessoas, o que define a data é o autoconhecimento. Segundo dados do IBGE de 2022, Uberlândia tem 1,2% da sua população total diagnosticada com TEA, o que representaria aproximadamente 8.558 pessoas.

Para Ana, que preferiu não revelar seu nome verdadeiro, descobrir o diagnóstico de autismo na fase adulta foi importante para entender algumas tendências no seu comportamento e se ver com mais carinho. “Algumas pessoas podem ter características de autista, mas não necessariamente se enquadram como TEA. Descobrir o diagnóstico foi me respeitar”, comenta.

pessoas de várias idades com mãos entrelaçadas; autismo na fase adulta
Diagnóstico de autismo na fase adulta carrega dificuldades e esclarecimentos – Crédito: Freepik/Reprodução

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Autismo na fase adulta e a camuflagem social

O diagnóstico de Ana chegou aos 53 anos, um marco que dividiu sua vida entre o sentir-se estranha e o entender-se plural. E a busca por resposta veio ao perceber semelhanças entre o seu comportamento e o do filho de seu sobrinho. “Eu fui atrás do diagnóstico. O meu sobrinho teve um filho alguns anos atrás e começou a notar algumas características distintas. E eu comecei a ficar levemente desconfiada, comecei a ler, a pesquisar e me fiz a pergunta: “Será?”.

Ana conta que o diagnóstico de autismo na fase adulta não foi fácil, principalmente por ser mulher. “O primeiro teste não foi conclusivo, porque nós, mulheres autistas, temos uma capacidade de camuflagem social muito alta. Isso dificulta para o profissional fechar o diagnóstico”, relembra a professora.

Essa dificuldade relatada por Ana é uma das principais questões em torno do diagnóstico feminino. De acordo com a psicóloga especialista Mariana Gisse, o que acontece é um fenômeno chamado de camuflagem social, ou masking. “É uma estratégia de sobrevivência usada principalmente por mulheres para disfarçar características autísticas e parecerem neurotípicas. Envolve a imitação de comportamentos sociais e a ocultação de dificuldades para se adequar a padrões considerados ‘normais'”, explica a psicóloga.

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O problema, segundo a especialista, é o preço que se paga por essa adaptação forçada. “O custo emocional é uma exaustão extrema. Esse esforço constante de monitorar o próprio comportamento leva a um esgotamento mental e físico profundo, conhecido como burnout autista”.

O dia a dia pode se tornar um peso na rotina de pessoas com TEA

Para Ana, o autismo se manifesta de forma intensa na rotina, especialmente quando ocorrem mudanças inesperadas. “Se eu planejo algo e muda, isso me trava. Já tive crises imensas que hoje sei que foram o que a literatura chama de meltdown ou shutdown. É um colapso por estresse. Já cheguei a desmaiar em restaurante por cansaço”, revela a professora.

A especialista Mariana Gisse explica que esses colapsos ocorrem quando o corpo e o sistema nervoso atingem um estado de sobrecarga insuportável devido ao excesso de estímulos:

  • Meltdown: É a crise explosiva, para fora.
  • Shutdown: É a crise interna, um “desligamento” do sistema, que pode resultar em manifestações físicas extremas, como o desmaio mencionado por Ana.

Outro ponto que marcou a trajetória de Ana foi a sensibilidade sensorial. O que para muitos é lazer, para ela pode ser doloroso. “Estar num lugar com música ao vivo e gente conversando, como um happy hour, é muito sofrimento”, confessa.

A explicação para isso, segundo Mariana Gisse, está na forma como o cérebro processa informações. “Indivíduos no espectro têm dificuldades em filtrar ou organizar estímulos sensoriais. Para um neurotípico, esses sons são ignorados ou processados com facilidade; para o autista, o cérebro não consegue fazer esse filtro, e o estímulo pode se tornar fisicamente doloroso”, completa a psicóloga.

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Um novo olhar para a vida

Hoje, com o suporte do esposo e o entendimento de suas próprias questões, Ana utiliza o diagnóstico como uma ferramenta de respeito próprio. “Sempre estudei muito. Fiz mestrado, doutorado e sou professora. Estudar é o que me deixa feliz; talvez seja meu hiperfoco. E a gente só funciona diferente. Por mais limitações que tenhamos, também temos muito a contribuir”, conclui a professora.

A psicóloga Mariana reforça que não existe uma única forma “certa” de ser, de aprender ou de se comunicar. Para ela, o autismo não é uma barreira a ser vencida, mas uma forma diferente de existir que precisa ser compreendida, respeitada e apoiada.

Para Mariana, um conselhor que todos deveriam ouvir no Abril Azul é para escutar mais, julgar menos. “Antes de rotular um comportamento como “birra”, pergunte-se o que aquela pessoa está tentando comunicar. A verdadeira inclusão não está no discurso, está nas pequenas atitudes do dia a dia: na paciência, na adaptação do ambiente, no respeito às diferenças e na disposição de aprender com o outro”, pontua a profissional.