O plano do North com Michel Salgado e o novo mapa do futebol mineiro
Anúncio do badalado lateral espanhol do início do século escancara a transformação do futebol no interior: projetos arrojados atropelam a tradição de clubes que pararam no tempo.
Minas Gerais volta ao centro das atenções no futebol nacional, e o motivo é uma tacada de mestre bem inesperada. Um dos chamados “rolês aleatórios” do futebol.
O North, mais recente time de Montes Claros, anunciou Michel Salgado como seu novo técnico para a próxima temporada, onde terá além do Mineiro a Copa do Brasil e a Série D.
Em um vídeo publicado nas redes sociais do clube, o espanhol é buscado pelo presidente do North e sua esposa em Dubai. Até então técnico do sub-15 da seleção saudita, ele vem ao Brasil pra um projeto muito ousado.
Buscar um lateral-direito que brilhou no “Galáctico” Real Madrid — ao lado de Figo, Raúl, Zidane e Ronaldo – sendo campeão de Champions e do mundo, e direto do lugar mais rico do planeta é uma demonstração clara de ambição.
Com esse movimento, o time do norte mineiro se coloca ao lado do Uberlândia como as únicas marcas do interior com capacidade de gerar impacto e zum-zum-zum internacional.
O Verdão já tinha acertado em cheio com a parceria histórica com a Uber — que rendeu prêmio de publicidade em Cannes e repercussão no Brasil inteiro —, além do recente burburinho em torno da conquista da Série D sob o comando de Danilo, despertando interesse até de clubes da elite.
Agora, o North busca – e consegue – o mesmo patamar de visibilidade.
E o projeto é extremamente sério. Montes Claros é a 5ª maior cidade do estado e estava sedenta por um representante à altura. Terra do ativo mas mambembe Funorte, já viu MOC, Cassimiro de Abreu e Ateneu. Agora, o futebol local passa a girar em torno de uma gestão que deu um tiro certeiro.
Comandada pelo empresário e ex-atleta Victor Oliveira, a SAF estreou no futebol em 2022 e neste ano, chegou à elite estadual conquistando o Troféu Inconfidência. No caminho bateu o Uberlândia, e de quebra garantiu vaga nos torneios nacionais de 2027.
Além disso, Victor intermediou a construção de um novo estádio na cidade. Enquanto ele não ganha forma, a prefeitura fará obras para garantir o Juvenção apto às competições da CBF – novas arquibancadas fixas serão construídas, ampliando e muito a capacidade do estádio que hoje só recebe 2,5 mil pessoas sem as móveis.
Além de tudo: isso é um olhar atento a um norte de Minas historicamente carente de grandes palcos esportivos.
A gestão é de um projeto sem uso direto de dinheiro público, focado em leis de incentivo para a base e parcerias estratégicas com o município, em um modelo muito parecido com o que vemos no Uberlândia.
Vale destacar que essa consolidação de novas SAFs em Minas vem de um movimento estruturado. Teve início brilhante no Athletic, que apresentaria ao futebol Fábio Mineiro — nome chave também no apoio ao próprio North, ao Itabirito e até no Pouso Alegre.
O contraste entre quem inova e quem para no tempo fica cada vez mais evidente no estado. Enquanto o Itabirito viu seu projeto sólido ruir — abandonando a promessa da Arena Telê Santana para jogar em Varginha — e o América acumula dívidas e incertezas, por exemplo, equipes como North, URT e o próprio Uberlândia dão passos largos.
Com os pés no chão e ambição no planejamento, caminham para ocupar o posto de novas forças do futebol mineiro, sem esquecer o Betim, em franca evolução na Região Metropolitana de BH e um opositor duro à Federação Mineira e seus times da capital.
Esperamos que o Athletic consiga se manter competitivo, embora já flerte com um teto de crescimento por limitações de estrutura, torcida e investimento. Já URT, North e Uberlândia estão sediados em algumas das maiores cidades do estado, com potencial de sobra para bater de frente com cases nacionais do interior, a exemplo de Chapecoense, Novorizontino e Mirassol.
Se Tupi, Uberaba, Boa Esporte e Democrata de Governador Valadares tivessem encontrado a oportunidade certa no momento certo, certamente estariam nesse bolo.
Mas o futebol moderno exige responsabilidade aliada à ousadia. Fica a torcida para que Araxá e Mamoré, que já têm suas SAFs em ação, também colham esses frutos.
Eu critico a FMF frequentemente — e com toda razão —, mas os próprios clubes muitas vezes não fazem por onde serem valorizados. Em um estado com 853 municípios, apenas 36 times disputam as competições profissionais da federação.
No futebol atual, cada vez mais do business e menos romântico, apenas a boa vontade e a tradição de camisa não bastam para manter um clube de portas abertas.
Ainda em tempo: o governo de Minas disse ontem que vai bancar 32 milhões em patrocínios a Cruzeiro, Atlético e América para compensar parte da perda das bets. Diz ainda estar negociando com Uberlândia x Athletic.
O assunto como um todo é complexo e acho que as opiniões estão extremadas. Mas é de se indignar uma interferência do estado em uma estatal para direcionar suas verbas de patrocínio diretamente pro bolso de times de futebol. Não sou nem nunca serei favorável a isso.