Prazer, me chamo Bossa. O dia em que fui apresentado a Nara Leão
Uma história de amor à música brasileira que ecoa através das gerações
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Nos idos de 1988 e 1989, eu era estudante de universidade pública. Transitava entre os protestos do DCE, o Diretório Central dos Estudantes e a sede do PCdoB. Quem não era comunista na Nova República?
A onda do momento consistia em entrar num ônibus e rumar para a capital, reivindicar a federalização do ensino superior, de preferência com uma boina “à la Guevara” na cabeça, camisetas muito vermelhas e frases de efeito na ponta da língua como “A luta continua, companheiro”.
Minha irmã “meio” conservadora achava tudo “meio” ridículo e queria de mim apenas uma coisa: distância. “Por inteiro”. A camisa dela era colorida e surfava na onda contrária, sequela do caçador de marajás.
Meu pai era dono de uma oficina consertadora de televisões e radiolas e ali que eu ficava quando não estava na faculdade e nem na esbórnia adolescente.
Curioso, fuçava os estoques de transistores, tubos de imagens, alto-falantes e muitos parafusos. No balcão da pequena loja eu bancava o tipo jovem ploc, que fazia de conta que entendia daquelas paradas. Gostava mesmo de papear com a clientela e me divertir com a satisfação de devolver os aparelhos consertados.
Numa dessas atendi uma mulher pouco mais velha que eu, parecia ter perto de 30 anos. Trouxe um walkman com uma fita cassete enganchada dentro do aparelho implorando pra que eu salvasse aquilo. Parecia algo bem precioso para ela.
Para quem nasceu na era digital, talvez seja necessário explicar o que era um walkman. Era a coisa mais próxima de um tocador de músicas da época. Não chegava a ser um MP3, nem sequer um Spotify embarcado num celular, era uma geringonça que a gente carregava na cintura com uma mídia (a famosa fita cassete) onde cabiam, no máximo, 60 minutos de canções, umas 8 a 10 faixas.
A mulher foi embora com a promessa de voltar uma semana depois e eu fui futucar o troço para pôr pra funcionar novamente. Desmontei, desembolei a fita cuidadosamente, remontei o aparelho e mirei no título: Nara Leão, Garota de Ipanema. Tirei da gaveta um par de pilhas Rayovac novinhas e descolei uns fones de ouvido plug P2.
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Já tinha ouvido falar de Nara pela minha mãe, que curtiu o barato de morar no Rio de Janeiro dos anos 60, a efervescência boêmia carioca. A mãe cantarolava bossa nova e eu cresci em casa deixando entrar pelos meus ouvidos aquilo que era um pouco samba-canção com sotaque de jazz. Mas nunca havia prestado tanta atenção como naquela fita de Nara.
O walkman passou a semana inteira comigo sob a desculpa de que precisava “testar a qualidade do meu serviço”. 😉
As letras e melodias de Tom Jobim, Vinícius de Moraes, João Gilberto na voz de Nara Leão, que interpretava O Barquinho, Desafinado, Chega de Saudade, Wave, Corcovado e tantas outras pérolas espetaculares que me acompanham até hoje.
Nara não fazia careta pra cantar, não franzia a testa, entoava notas prolongadas sem sofrer, impávida, o avesso de Elis.
Disco era coisa muito cara. Não tinha grana que sobrasse para tanto. Eu ouvia aquela fita como criança que se deleita com algodão doce. Dia e noite. No ônibus pro campus, no caminho pra casa, na cama antes de dormir, com os amigos apresentando a eles o que eu acabara de descobrir, a melhor música do mundo.
A dona do walkman voltou conforme prometido, uma semana depois. Eu não fiz cópia da fita e lembro perfeitamente como se fosse ontem, que não fiz de propósito. Eu queria aquela lembrança pra mim, guardada na minha memória. Era o meu tesouro.

Procurei por esse disco de Nara por anos. Em lojas, bares, emissoras de rádio.
Depois que já tinha desistido, eu o encontrei no apartamento de um advogado bem sucedido da minha cidade, pai de um amigo. Ele não estava sozinho. Delicadamente encaixado numa pilha, recostado ao lado de um elegante gravador de rolo, lá estava ela, na capa: Nara, Garota de Ipanema, acompanhada de Aldir Blanc, Carlos Lyra, Roberto Menescal, Johnny Alf e toda a horda extraordinária que fez história. Pedi licença ao ilustre proprietário para saborear tudo aquilo madrugada adentro.
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A nostalgia vem às vezes embalada na fragrância de um perfume, na lembrança de uma fotografia, mas parece que é mais forte ainda na melodia de uma canção marcante. E que bom ter o privilégio da bossa em minha história. Que prazer ter sido apresentado a ela na época certa, de maneira tão singela e despretensiosa.
Nara nos leva para a sua varanda da Zona Sul, para a brisa do mar de Ipanema e de Copacabana que toca nossos rostos, numa ampla sala de estar tomada por fumaça de cigarro e aroma de scotch, o cheiro das noites cariocas. Com música que transpira por todos os poros e exala pela janela.
Que bom que existe a bossa, que maravilha saber que vive e que jamais morrerá. Coisa mais linda, mais cheia de graça. É impossível ser feliz sozinho.